'Pele de Asno' à moda chilena
Na briga pelo Leopardo de Ouro, 'Princesa Burro' encanta Locarno ao usar o conto de fadas para expor o sangue derramado das veias abertas da América Latina
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Preparando-se para receber o Brasil, em sua disputa oficial, com a projeção de "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias, Locarno hoje vive um caso de amor com o Chile, à luz fabular de "Princesa Burro", um dos mais lúdicos concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2026. Cristóbal León e Joaquín Cociña dirigem a quatro mãos um ensaio de fantasia centrado na força das narrativas orais que evoca o clássico "Pele de Asno" (1970), do francês Jacques Demy (1931-1990). Esse evocação, contudo, segue um traço decolonial.
"Michel Gondry esteve nosso radar, com seu estilo, mas Demy também, permanecendo lá no nosso horizonte, sendo que temos planos que são citações ou homenagens a seu filme, mas também à estrutura simbólica dos contos de fadas, um elemento ancestral que liga uma plateia às raízes dos povos ligados àquelas narrativas", diz Cociña, ao falar de uma produção capaz de evocar o programa "Vila Sésamo" (ou até o nosso "TV Colosso") com suas caracterizações de animais. "O limite entre o artesanal e o tecnológico é muito tênue".
Qual uma boa história da Carochinha, "Princesa Burro" fala de Diana, aristocrata de um antigo reino. Seu pai, o Rei Arthur, proíbe o amor. Quando Diana se apaixona por Lalo, ele o expulsa do reino. Usando uma pulseira mágica, Diana viaja por outros mundos em busca de seu amado. Ao descobrir que o pai manipula suas decisões, ela precisa enfrentar seus medos e mudar o próprio destino, até que o filme se abre para o realismo mais gentrificado, num registro cartográfico das contradições latinas.
"Existe algo de ridículo no reino que retratamos que expõe o fetiche das idealizações latinas", diz Cociña, falando da necessidade de a contemporaneidade tentar construir uma tradução ocidentalizados das origens culturais da Pangeia de colonização ibérica. "Tínhamos um roteiro original que, se você lesse, pensaria em um filme muito mais caro do que aquele que fizemos com bem menos de US$ 1 milhão".
Nesta quinta, a pátria por trás de "Princesa Burro" avança em Locarno numa latitude hors-concours com a projeção de "Il Cilean", de Sergio Castro-San Martín, na Piazza Grande. O longa, um épico às avessas, passa-se em 1976. Em meio a protestos de trabalhadores da mineração no Chile, Aldo, um militante especializado em explosivos, é forçado a partir para o exílio. Deixa para trás a mulher e o filho recém-nascido e sobrevive em Turim a duras penas. Tudo muda ao ser absorvido por um grupo anarquista.
Locarno termina neste sábado, com a sessão de com a sessão da comédia "Ni Vue, Ni Connue", de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain.