A festa da latinidade tem CEP: Donostia

Um dos mais importantes festivais do planeta, San Sebastián, da Espanha, anuncia seleção de peso para sua seção Horizontes Latinos, que terá 'A Professora de Piano' de Minas Gerais

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Éraro ouvir português nas mostras competitivas de um dos mais prestigiados festivais do mundo, o de San Sebastián, na Espanha (também chamado de Donostia, em referência ao nome da cidade basca em sua língua natal, o euskara), mas quando se avalia a seção Horizontes Latinos, o Brasil é sempre bem-vindo, com a presença assegurada, na edição de número 74 do evento, do que pode ser um colosso de DNA mineiro: "A Professora de Francês". Ricardo Alves Jr. assina direção e Grace Passô é a protagonista. Em estreia mundial, o longa-metragem produzido por Brasil, França e Portugal integra uma seleção de 12 títulos que concorrem ao Prêmio Horizontes Make & Mark, dotado de 35 mil euros para o produtor majoritário e o distribuidor espanhol do filme vencedor. Com o rosto do muso portenho Ricardo Darín a estampar seu poster, o festival espanhol será realizado de 18 a 26 de setembro e terá o diretor alemão Werner Herzog como seu homenageado.

Nascido em Belo Horizonte, em 1982, Ricardo Alves Jr. construiu uma trajetória que transita entre a ficção, o documentário, o experimental e o teatro, e chega agora à sua quarta longa-metragem com um thriller psicológico de atmosfera inquietante. Grace, a personagem central, vive em Belo Horizonte, onde dá aulas particulares de francês e mora com sua companheira francesa. Uma emergência médica envolvendo seu pai faz com que ela retorne à casa onde passou a infância, na periferia da cidade. Ali, uma família vizinha, ligada a uma congregação religiosa local, oferece ajuda à protagonista, mas o acolhimento rapidamente se transforma em uma tentativa de devolvê-la a um lugar social que ela já não reconhece como seu.

A partir desse contato, "A Professora de Francês" mergulha em um universo de intolerância e fanatismo, no qual as fronteiras entre proteção, controle e violência psicológica vão se tornando cada vez mais tênues. Grace Passô, uma das intérpretes mais importantes do cinema brasileiro contemporâneo, divide o elenco com Jehnny Beth e Pedro Goifman. O projeto tem uma história de longa gestação em San Sebastián: foi apresentado no Proyecta, em 2018, antes de chegar à seleção oficial. A estreia mundial no festival espanhol reforça uma trajetória de cinema mineiro que, nos últimos anos, tem encontrado no circuito internacional um território particularmente fértil para experimentação estética e política.

A presença brasileira não é, porém, a única atração de uma Horizontes Latinos que reúne 12 filmes produzidos total ou parcialmente na América Latina, realizados por cineastas de origem latina ou ambientados em comunidades latino-americanas. A abertura da seção caberá a "Siempre soy tu animal materno / Forever Your Maternal Animal", da costarriquenha Valentina Maurel, filme que chega a San Sebastián carregando a força de uma passagem premiada por Cannes. Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas dividiram o prêmio de Melhor Atriz de Un Certain Regard pela produção, que acompanha uma jovem de volta à Costa Rica depois de anos estudando na Europa. Ao reencontrar a família, ela descobre um ambiente doméstico marcado por afastamentos, conflitos e uma irmã mais nova cada vez mais isolada.

O novo trabalho de Maurel, nascida em San José, em 1988, sucede "Tengo sueños eléctricos / I Have Electric Dreams", de 2022, longa que conquistou mais de 30 prêmios internacionais, incluindo distinções de direção, atriz e ator no Festival de Locarno, além do próprio Prêmio Horizontes em San Sebastián. A cineasta retorna, portanto, a um festival que conhece bem para apresentar um drama familiar sobre os estragos provocados pela distância e pela incapacidade dos adultos de perceberem aquilo que acontece dentro de casa. A produção reúne Bélgica, França e México e estabelece desde a abertura da seção uma das linhas de força desta edição: famílias em crise, identidades em transformação e personagens tentando sobreviver às estruturas que os cercam.

Outro destaque é "Cinco años, cuatro meses / Five Years, Four Months", dos colombianos Juan Miguel Gelacio e Esteban Hoyos García, que voltam a San Sebastián depois de apresentarem "Selva / Jungle" no WIP Latam, em 2023. O longa, exibido no Festival de Karlovy Vary, acompanha Martha, uma mãe que perdeu o rastro do filho durante o conflito armado colombiano. Depois de uma nova exumação não encontrar qualquer correspondência óssea, ela esgota as possibilidades institucionais de investigação e se aproxima de um grupo de mulheres que mantém viva a memória dos desaparecidos. É nesse ambiente que ouve uma história sobre uma aldeia remota onde seria possível pedir um favor a um morto. A partir daí, Martha e Sandra iniciam uma viagem movida por dor, esperança e pela necessidade de encontrar respostas.

Também argentino, "El tren fluvial / The River Train" marca a estreia de Lorenzo Ferro na direção de um longa-metragem, em parceria com Lucas A. Vignale, morto recentemente. O filme acompanha Milo, um menino de 9 anos que vive em uma aldeia argentina e treina para ser dançarino de malambo, mas sonha em viajar de trem para Buenos Aires, cidade que conhece apenas pelos filmes. A aventura se transforma em uma história de descoberta e desejo de romper as fronteiras de um universo pequeno demais para os sonhos do garoto.

A fotógrafa argentina Alessandra Sanguinetti faz sua estreia no cinema com "La ilusión de un verano sin fin / The Illusion of an Everlasting Summer", documentário apresentado na seção Cineasti del Presente de Locarno. A obra acompanha, ao longo de 25 anos, Guillermina e Belinda, duas meninas dos pampas argentinos que começaram a compartilhar fantasias e brincadeiras quando tinham apenas 9 anos. O projeto, iniciado em 1999, acompanha a passagem da infância para a adolescência e, depois, para o trabalho, a maternidade e caminhos cada vez mais distintos.

Depois de abrir a Horizontes Latinos de 2025 com a estreia mundial de "Limpia", a chilena Dominga Sotomayor retorna agora com "La Perra", longa que recebeu um Palm Dog na Quinzaine des Cinéastes, em Cannes, e tem Selton Mello no elenco. É uma livre adaptação do romance homônimo de Pilar Quintana e será projetado no dia 21 de agosto em Gramado, no encerramento festival gaúcho. O filme acompanha Silvia, mulher que vive com o companheiro em uma ilha remota da costa chilena e trabalha na coleta de algas. A chegada de um cachorro abandonado, Yuri, desperta nela uma ternura que logo se mistura ao desejo de maternidade que havia sido reprimido durante anos. Quando o animal desaparece, uma ferida da infância volta à superfície e obriga Silvia a confrontar um passado que nunca deixou completamente.

O México aparece ainda com "Ceniza en la boca / Ashes", dirigido pelo ator Diego Luna, em produção com a Espanha. A história acompanha Lucila e o irmão Diego, que deixam o México rumo a Madri para se juntar à mãe, que trabalha ilegalmente no país europeu há oito anos. O que parecia representar a chance de uma vida melhor rapidamente se revela uma experiência muito mais dura do que os irmãos imaginavam. O longa coloca no centro questões como imigração, precariedade e separação familiar.

"Chicas tristes / Sad Girlz", da espanhola Fernanda Tovar, leva a Horizontes Latinos uma história de amizade adolescente atravessada por violência e desejo de vingança. La Maestra e Paula são as melhores nadadoras de sua equipe e também amigas inseparáveis, até que um episódio ocorrido em uma festa muda completamente a relação entre as duas. Quando a verdade vem à tona, Paula quer manter o silêncio, enquanto La Maestra exige vingança.

A chilena Manuela Martelli, por sua vez, concorre com "El deshielo / The Meltdown", produção de Chile, Estados Unidos, Espanha e México. Ambientado em 1992, o filme acompanha Inés durante uma temporada no hotel dos avós, localizado em uma região montanhosa, onde ela conhece Hanna, uma jovem esquiadora alemã. A convivência entre as duas é interrompida quando Hanna desaparece sem deixar vestígios, obrigando Inés a participar de uma busca que acaba revelando segredos escondidos naquele ambiente aparentemente protegido.

Fernando Eimbcke, um dos nomes mais reconhecíveis da nova geração do cinema mexicano, apresenta "Moscas / Flies", produção mexicana e espanhola desenvolvida no WIP Latam de 2025. Concorreu com ela ao Urso de Ouro da Berlinale. Depois de sofrer uma perda terrível, Olga se fecha para o mundo e tenta manter uma rotina de isolamento. A falta de dinheiro para pagar uma operação no dedão do pé, porém, obriga-a a alugar um quarto de seu apartamento para Tulio, marido de uma paciente internada no hospital localizado diante do enorme edifício onde ela vive. Quando Tulio precisa viajar por alguns dias, deixa o filho pequenino, Christian, no apartamento. A presença do menino altera a rotina de Olga. Gera um "Central do Brasil" PB.

"Seis meses en el edificio rosa con azul / Six Months in a Pink & Blue Building", de Bruno Santamaría Razo, completa o grupo de filmes recém-anunciados. O diretor de fotografia e produtor mexicano estreia na ficção com uma história ambientada na Cidade do México do início dos anos 1990. No dia em que completa 11 anos, Bruno se apaixona pelo melhor amigo, Vladimir. Naquela mesma noite, seu pai recebe o diagnóstico de HIV, alterando a dinâmica de toda a família. A música e a dança tornam-se mecanismos de sobrevivência diante do medo e da dor, enquanto o garoto tenta compreender sentimentos que ainda não consegue nomear. O filme passou pela Semaine de la Critique de Cannes.

O encerramento da seção será feito por "Narciso", do paraguaio Marcelo Martinessi, produção que reúne Paraguai, Espanha, Uruguai, Brasil, Portugal, Alemanha e França. A Berlinale deu ao realizador o Prêmio da Crítica, em fevereiro. A trama se passa em 1959, sob uma sufocante ditadura militar, quando Narciso retorna de Buenos Aires trazendo o rock and roll, carisma e uma imagem que rapidamente o transforma em sensação radiofônica. Desejado por homens e mulheres, ele também passa a simbolizar uma ideia de liberdade em uma sociedade submetida ao medo e ao silêncio. Depois de sua última apresentação, porém, Narciso é encontrado morto. Em um país onde a verdade precisa permanecer escondida para que a ordem seja preservada, a pergunta sobre quem matou o artista transforma-se também em investigação sobre a própria sociedade paraguaia.

Completando o conjunto de concorrentes, "Narciso", "Chicas tristes / Sad Girlz", "El deshielo / The Meltdown", "Cinco años, cuatro meses / Five Years, Four Months", "El tren fluvial / The River Train", "Siempre soy tu animal materno / Forever Your Maternal Animal" e "La ilusión de un verano sin fin / The Illusion of an Everlasting Summer" também disputarão o Prêmio DAMA Youth, destinado a filmes que representam o primeiro ou segundo trabalho de seus diretores. A escolha será feita por um júri formado por 150 estudantes com idades entre 18 e 25 anos. Já o Prêmio Horizontes Make & Mark, principal troféu da seção, oferece 35 mil euros ao produtor majoritário e ao distribuidor espanhol do vencedor. Com sua combinação de autores consagrados, estreantes, produções latino-americanas e coproduções europeias, Horizontes Latinos reafirma em San Sebastián o papel de vitrine para um cinema que investiga identidades, deslocamentos, memória, violência e as múltiplas formas de resistência no continente. Nas próximas semanas, serão conhecidos os concorrentes das demais mostras.