Bertrand Mandico, transgressão não binária... com charme
Ícone da desconstrução das sexualidades, cineasta francês que se define como 'atriz' em sua identidade performática leva às telas de Locarno 'Roma Elastica', com Marion Cotillard
Com seu broche prateado em formato de lagarto, de considerável extensão sob seus ternos estilizados, Bertrand Mandico causou no tapete vermelho de Cannes com "Roma Elástica", thriller que o leva a novos patamares profissionais graças à parceria com a oscarizada Marion Cotillard (de "Piaf - Um Hino ao Amor").
A produção fará sua estreia comercial em dezembro, de olho no público das temporadas de férias de fim de ano, calcado num clima de suspense dos mais exasperantes. Seu potencial sucesso, despertado pelas críticas positivas na Croisette, pode trazer mais acolhimento para essa grife da direção aos olhos do mercado exibidor da França, sua pátria natal, mas não há de diluir sua aura de maldito.
Mandico faz misturas de gêneros (tipo western com fantasia) como "After Blue (Paraíso Imundo)", que lhe deu o Prêmio da Crítica no Festival de Locarno (na Suíça) e o Prêmio Especial do Júri em Sitges (na Espanha). Essas mesclas mucho locas asseguram prestígio a essa "entidade" da cultura audiovisual.
Esperado uma vez mais por Locarno, neste domingo, com "Roma Elástica", para uma sessão fora de concurso, Mandico se define como não binário, mas é indiferente quando chamado por vocábulos masculinos, ou por expressões como "senhor", sem cobrar o uso da linguagem neutra. Brinca que se vê como "atriz", uma vez que a performance é a sua prática de criação, condensada experimentos de artes visuais. Ele virou uma das vozes autorais de maior eco na cena audiovisual europeia depois que um de seus longas, "Os Garotos Selvagens" ("Les Garçons Sauvages"), encabeçou a lista dos melhores filmes de 2017 da "Cahiers du Cinéma". Nunca lançada comercialmente em circuito brasileiro, essa iguaria só passou pelo Rio de Janeiro na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, depois de mostras em Bruxelas, em Vilnius e na Sicília a cobriram de prêmios.
Xodó da "Cahiers" (uma bíblia para a cultura fílmica), a obra explicitamente queer de Mandico, carregada de erotismo em seu debate sobre o desejo, virou cult. Galgou o reconhecimento de que precisava há dois anos, quando seu longa mais recente, "Conann" (2023), foi convocado para a Quinzena de Cineastas do Festival de Cannes. Nele, muda o sexo do bárbaro celebrizado por Arnold Schwarzenegger. Em "Roma Elástica", ele dialoga com a tradição do giallo (filmes italianos de psicopata) e do polar (o policial francês) num enredo ambientado em 1982. Nessa data, Eddie (papel de Marion) é uma celebridade em decadência que viveu uma era de sucesso nos EUA e, agora, em sua debacle, vai para região da Itália para rodar um filme que pode ser seu canto de cisne... e um convite à morte.
"É da força das mulheres que a gente precisa para mudar uma realidade autoritária que tentou cassar o acesso à liberdade que todo ser vivente tem. Regras morais não podem limitar um processo criativo, tampouco imposições biológicas ou sociais", disse Mandico ao Correio da Manhã, quando brilhou com "After Blue (Paraíso Imundo)". "Qualquer padrão imposto pode ser quebrado em prol da livre expressão".
Revelado como cineasta em 1998, ao lançar o curta "Le Cavalier Bleu", Mandico dialoga com as cartilhas das narrativas fantásticas a partir da influência que carrega dos quadrinhos europeus dos anos 1960 e 70. Nascido em março de 1977, em Toulouse, ele cresceu lendo a HQ "Métal Hurlant" ("Heavy Metal" no Brasil), gibi que nos revelou Moebius, Richard Corben e muitos outros talentos do desenho, pautados pela lisergia.
"Em tempos de cultura do ódio, a fantasia é um caminho alternativo, que nos permite respirar pelos pulmões da estranheza, e perceber a intolerância que nos venda", disse Mandico.
Outra personalidade cinéfila queridinha da imprensa no Velho Mundo a bater ponto em Locarno este ano é a atriz belga Virginie Efira. Ela foi premiada em Cannes por seu desempenho em "Soudain", do artesão japonês Ryûsuke Hamaguchi, num empate com a colega de cena Tao Okamoto. Virginie pôs a Croisette no bolso com sua atuação. Ela vive a diretora de uma instituição de acolhimento para idosos, Marie-Lou. Em sua rotina, ela procura implementar uma filosofia de cuidados baseada na escuta dos residentes e no respeito à sua dignidade, apesar da resistência de parte da equipa. O encontro com Mari (Okamoto), uma encenadora japonesa que enfrenta um câncer, muda o rumo de sua vida. À medida que uma amizade se fortalece, elas embarcam numa luta para tornar o impossível possível. O festival suíço verá esse empenho delas no domingo, logo que a Virginie receber o Leopard Club Award.
Locarno termina no dia 15, com a sessão da comédia "Ni Vue, Ni Connue", de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain. A diva vive uma aspirante a atriz que sonha contar com as dicas de Sandrine - uma coqueluche em Paris - para explodir em seu ofício. Na mesma data rola a premiação oficial, com a presença do Brasil na caça ao Leopardo dourado com "A Margem do Rio", de de Matheus Farias e Enock Carvalho. Na mostra competitiva Cineasti del Presente, voltada para primeiros e segundos longas, Ana Vaz bate ponto com "Hanabi" ("Fire Flower"), reafirmando sua posição entre as vozes mais experimentais da contemporaneidade.