Relatos de um coração selvagem

Filme em episódios extraídos de contos da autora de 'A Paixão Segundo GH', 'Rio de Clarice', idealizado pela sobrinha-neta da escritora inspira debate na Rio Innovation e estreia dia 13

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Gabrielle Farias e Letícia Spiller em 'Mal-estar de um Anjo'

Dá match perfeito a junção de um evento como a Rio Innovation Week (conferência global de criações inovadoras, realizada no Píer Mauá) com a prosa da maior inventariante da alma feminina de nossa literatura, Clarice Lispector (1920-1977), sobretudo quando a aproximação se dá pelo cinema. Às 15h30 desta sexta-feira, multiartistas integrantes do ainda inédito "Rio de Clarice" - Viviane Rangel, Maria Clara Guim, Taciana Oliveira e Barbara Kahane - participam do evento para falar como o protagonismo de mulheres no bastidor do ofício cinematográfico consegue transformar não apenas filmes, mas toda uma indústria.

O longa-metragem, em cinco segmentos autônomos, que mobiliza essas quatro expressões de talento estético vai estrear no próximo dia 13, reunindo contos da aclamada escritora. A idealização do projeto partiu da realizadora Nicole Allgranti, que assina a direção-geral, fez produção e captação, e rodou um dos hemisférios, inspirado em "A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais". Allgranti é sobrinha-neta da autora.

Divulgação - Guida Vianna estrela 'A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais'

"Durante toda a minha infância, muitas histórias foram trocadas ao telefone de minha mãe com tia Clarice e tivemos alguns encontros em nossa casa e no apartamento que ela vivia, no Leme. Clarice era misteriosa e mágica para mim", explica Nicole, lembrando que os contos adaptados em "Rio de Clarice" são um exemplo de perfis de mulheres em três fases da vida - adolescência, maturidade e velhice - e mostram que, em todas essas estações, elas se deparam com o conflito de existir. "Clarice abre uma lente para mostrar o que se passa no íntimo da mulher, suas particularidades, sua essência. Seu legado é eterno", pontua a realizadora.

Sob a direção de Nicole, o segmento "A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais", com Guida Vianna e Letícia Isnard, segue uma mulher rica que, afastada do conforto da sua rotina, acaba numa rodoviária e é acolhida por uma sem-abrigo. O episódio promove um choque entre universos sociais opostos.

Já "Feliz Aniversário", dirigido por Maria Luiza Aboim, retrata a celebração dos 89 anos de Dona Anita, marcada por tensões familiares, ressentimentos e hipocrisias. A festa transforma-se num retrato da solidão na velhice e da fragilidade dos laços entre pais, filhos e netos. 

Em "Mal-estar de um Anjo", a veterana documentarista Eunice Gutman aposta na ficção e acompanha uma mulher que, após sair de uma sessão de psicanálise, oferece boleia a uma desconhecida. O encontro transforma um simples percurso de táxi num intenso confronto psicológico.

"Amor", segmento realizado por Taciana Oliveira, acompanha Hanna, uma dona de casa que, ao perder o ponto do bonde, vive uma inesperada experiência de autodescoberta num parque. E em "Preciosidade", Barbara Kahane narra a história de uma adolescente que sofre assédio durante o caminho para a escola. O episódio aborda o trauma provocado pela violência e o doloroso processo de amadurecimento da protagonista.

"Clarice é uma escritora que começou a publicar em 1943, quando se contava nos dedos o número de mulheres que publicavam", diz Nicole. "Ela abriu caminhos no mercado editorial. Idem, no jornalismo. Eram raras as mulheres nas redações, e lá estava a jovem Clarice, com 20 anos, na Agência Nacional, e depois no jornal 'A Noite'. Seu universo ficcional é moldado sob o ponto de vista da mulher. É a mulher em diferentes papéis na sociedade: porém ela mostra com profundidade aquela 'dona de casa' tendo que lidar com a presença masculina, tolhendo seus sentimentos, seus desejos. Tendo que dar conta das solicitações dos filhos. Clarice é uma mulher nascida nos anos 1920, mas com a cabeça dos anos 1960".

Desde a pandemia, a presença da autora de "Perto do Coração Selvagem" (1943) nas telonas vem sendo forte, sobretudo com a consagração "A Paixão Segundo GH", de Luiz Fernando Carvalho, no festival Bafici, em Buenos Aires, em 2024. No mesmo ano, no Festival de San Sebastián, ela foi citada - e elogiada - pela atriz australiana Cate Blanchett.

Muito antes dessa euforia, no Festival de Brasília de 2003, Nicole exibiu um curta chamado "O Ovo", cujo roteiro era de Clarice com Luiz Carlos Lacerda.

"Foi meu filme mais antológico, filmado através de prêmio da Rio Filme. Em 2003, fiz um curta chamado 'Aeroporto Em O Embarque', com Marcélia Cartaxo e Milton Gonçalvez, Rodrigo Penna e outros, a qual a personagem de Marcélia era muito o que eu tinha aprendido das personagens de Clarice", diz a cineasta, lembrando da gênese de sua relação de leitora com os escritos de sua tia-avó. "Comecei com 'A Mulher que Matou os Peixes', infantil, que Clarice em 1968 dedicou a mim e fez a dedicatória "Para Ler Mais Tarde". Minha avó me falou que tia Clarice tinha contado umas histórias minhas no livro 'A Via Crúcis do Corpo', de onde resultou a obra adaptada de José Antônio Garcia para o filme 'O Corpo', de 1991".

Haverá uma pré-estreia de "Rio de Clarice" no Estação Claro Rio, no dia 12 de agosto.