Um festival de tributos em Locarno

Repleto de honrarias a mitos como Isabella Rossellini e a gigantes autorais como Darren Aronofsky e James Gray, Locarno faz de sua seção de homenagens uma celebração industrial

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Scarlett Johansson e Miles Teller em 'Paper Tiger', que terá sessão em tributo a James Gray, em Locarno

Homenagear artistas é uma das bossas de Locarno. Nenhum outro festival do seleto grupo das mais relevantes mostras de âmbito internacional (do qual fazem parte ainda Cannes, Veneza, Berlinale, Toronto, Roterdã, San Sebastián e Sundance) rende mais honrarias a estrelas e vozes autorais da direção do que a maratona cinéfila da suíça. Sua 79ª edição começa nesta quarta (5) com a promessa de sete troféus honorários. Um deles abre conexão com o Brasil: o realizador nova-iorquino James Gray.

Um de seus produtores mais constantes é Rodrigo Teixeira, da RT Features. Os dois filmaram "Paper Tiger" em 2025 e a produção vem correndo telas desde maio, quando estreou na competição pela Palma de Ouro. É um dos títulos mais fortes para a corrida do Oscar de 2027, sobretudo na categoria roteiro. No próximo dia 9, esse thriller com ambientação na década de 1980 passa na Piazza Grande, a praça central de Locarno, e, antes de sua projeção, Gray receberá a láurea Pardo alla Carriera, como um reconhecimento de sua estética autoral. Dois outros longas dele mobilizarão aquela cidade: "Amantes" (2008) e "Donos da Noite" (2009), ambos com Joaquin Phoenix.

Giona A. Nazzaro, líder da comissão curatorial de Locarno, é malandro: desde que assumiu o posto, convida medalhões com cheiro de Oscar. Este ano, além de Gray, esse perfume cerca a belga Virginie Efira. Ela foi premiada em Cannes por seu desempenho em "Soudain", do artesão japonês Ryûsuke Hamaguchi, num empate com a colega de cena Tao Okamoto.

Virginie pôs a Croisette no bolso com sua atuação. Ela vive a diretora de uma instituição de acolhimento para idosos, Marie-Lou. Em sua rotina, ela procura implementar uma filosofia de cuidados baseada na escuta dos residentes e no respeito à sua dignidade, apesar da resistência de parte da equipa. O encontro com Mari (Okamoto), uma encenadora japonesa que enfrenta um câncer, muda o rumo de sua vida. À medida que uma amizade se fortalece, elas embarcam numa luta para tornar o impossível possível.

Locarno verá esse empenho delas no próximo dia 8, logo que a Virginie receber o Leopard Club Award.

Troféu mais ambicionado entre os mimos de honra dados por Locarno, o Pardo d'Onore ficará com Darren Aronofsky, que renovou sua grife de excelência, em 2025, ao lançar "Ladrões" ("Caught Stealing"). Dele passam "mãe" ("mother", 2017) e "A Fonte da Vida" ("The Fountain", 2006). Envolvido na direção de "Breakthrough", com Dwayne Johnson, o cineasta de 57 anos costuma ser mais lembrado pelo sucesso de bilheteria "Cisne Negro" (2010), cujo orçamento não passou de US$ 13 milhões, mas compensou-se com uma receita de US$ 330 milhões. No entanto, para além desse feito, ele foi produtor do único longa-metragem que deu ao Brasil a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián: "Pacificado" (2019), hoje na Disney . Ganhou láureas ainda com "A Baleia" ("The Whale", 2022).

Desde a década de 1990, quando lançou "Pi" (1998), Aronofsky carrega a pecha de visionário... e sempre fez jus a ela. Ganhou um Leão de Ouro merecidíssimo em 2008, com "The Wrestler - O Lutador", com arrancou de Mickey Rourke a atuação de uma vida.

O diretor receberá seu Leopardo Honorário de Locarno no dia 14 de agosto, na Piazza Grande. "Minhas histórias falam de pessoas solitárias em volta de uma sina", disse Aronofsky ao Correio, num Zoom para divulgar "A Baleia". "Eu sou um realizador de filmes de baixo orçamento nos Estados Unidos. Um realizador que escolheu falar sobre os demônios internos das suas personagens, fascinado por figuras que me capturam por sua profundidade. Por meio da engenharia sonora do meu cinema, eu me conecto com a plateia a partir do aspeto mais sensorial da imagem".

Divulgação - 'Green Porno - Fly, Snail, Worm, Anchovy, Shrimp, Squid' é estrelado e dirigido por Isabella Rossellini

Nesta quinta-feira, cogita-se que Isabella Rossellini estará na plateia da cópia restaurada de "Coração Selvagem" ("Wild At Heart", Palma de Ouro de 1990). Antes, nesse mesmo dia, ela exibe a antologia dos curtas-metragens sobre o mundo animal que dirigiu, "The (Many) Cinematic Worlds of Isabella Rossellini", recebendo, de lambuja, o Excellence Award.

Uma terceira atriz, que também é realizadora, será homenageada por Giona A. Azzaro e sua equipe: a italiana Asia Argento, que ganha o Life Achievement Award no próximo dia 13. Nessa data, o festival projeta seu trabalho mais recente, no elenco do thriller venezuelano "La Muerte No Tiene Dueño", de Jorge Thielen Armand.

No dia seguinte, 14/8, véspera do encerramento do festival, o maquiador Rick Baker ganha o Vision Award como um "muito obrigado" histórico por sua oscarizada façanha no terror pop "Um Lobisomem Americano Em Londres" ("An American Werewolf In London", 1981). Fecha o rol de ilustres a serem aclamados por Giona & cia. o produtor Sigurjón "Joni" Sighvatsson, que leva o Raimondo Rezzonico Award. É dele o .doc futebolístico "Zidane, Un Portrait Du 21ème Siècle" (2006), recauchutado digitalmente.

Divulgação - 'Ni Vue, Ni Connue' encerra o festival suíço, no próximo dia 15

Locarno termina no dia 15, com a entrega de prêmios e a sessão da comédia "Ni Vue, Ni Connue", de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain. A diva vive uma aspirante a atriz que sonha contar com as dicas de Sandrine - uma coqueluche em Paris - para explodir em seu ofício.