Olhos abertos para Locarno

Festival suíço inaugura sua 79ª edição nesta quarta com 'Les Yeux Verts', aventura em francês com tons oníricos, que abre espaço para uma competição onde o Brasil busca prêmios

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Izaquiel (Caique Copque) é o protagonista do thriller queer 'A Margem do Rio'

Caberá a uma criança, Douae Butarbuch Mzaouki, abrir as cortinas do 79° Festival de Locarno, nesta quarta-feira (5), na Suíça, no papel de Chaya, a protagonista de "Les Yeux Verts", filme de abertura das atividades na Piazza Grande, o centro do evento... e dessa cidade que faz do italiano o seu idioma principal.

Aos 11 anos, Chaya vive com a família na região de Landes, na França, à beira-mar. Quando seus parentes descobrem que serão despejados, o irmão mais velho da guria, Nour, mergulha em um sono profundo e misterioso. Chaya fará de tudo para despertá-lo, chegando até mesmo a entrar em seus sonhos para encontrá-lo. Esse tom onírico, impresso no longa-metragem pela dupla de cineastas Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, alinha-se com as ambições da direção artística da maratona cinéfila organizada sob a curadoria de Giona A. Nazzaro, um crítico de Zurique.

Desde que assumiu as rédeas de Locarno, Giona ampliou ainda mais esse diálogo com o Brasil. Em sua primeira edição no comando, premiou o curta-metragem carioca "Fantasma Neon", de Leonardo Martinelli, e manteve espaço constante para a cinematografia nacional. Em seu segundo ano, 2022, o Leopardo de Ouro de longas foi para as mãos de Julia Murat, por "Regra 34". Em 2025, "O Rio de Janeiro Continua Lindo", de Felipe Casanova, saiu laureado de lá. Desta vez, o cinema nacional concorrerá na competição principal com "A Margem do Rio", um thriller de alta voltagem queer. Ligado à efervescência de Pernambuco nas telas, o longa-metragem é dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, que filmaram em coprodução com a Alemanha. Essa dupla é responsável por "Caranguejo Rei" (2019) e "Queimando Por Dentro" (2024) e, enquanto consolidavam uma parceria autoral, os dois integraram a equipe de "Bacurau" (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Envolto num clima de mistério em relação à morte, "A Margem do Rio" trava um diálogo com o cinema erótico conforme um jovem zelador (Caique Copque) assume um trabalho na sede de uma seita evangélica, cujo pastor (Robério Diógenes) é uma figura controladora. Ítalo Martins, Artia Lauandah, Renna Costa e Ísis Broken integram o elenco dessa narrativa de forte dimensão sensorial, que parece confirmar o interesse autoral de Farias e Enock por personagens em conflito com a paisagem e com a própria identidade. A presença brasileira não se limita à competição principal. Na mostra Cineasti del Presente, voltada para primeiros e segundos longas, Ana Vaz apresenta "Hanabi" ("Fire Flower"), reafirmando sua posição entre as vozes mais experimentais do cinema contemporâneo.

Além de "A Margem do Rio", a competição deste Locarno reitera o prestígio conquistado por Giona junto ao cinema de autor mundial. Mesmo situado entre Cannes e Veneza no calendário internacional, o festival helvético conseguiu reunir nomes como o sul-coreano Hong Sangsoo, o canadense Denis Côté, o romeno Florin Serban, o indiano Gurvinder Singh, o italiano Salvatore Mereu e o luso-suíço Basil Da Cunha entre os concorrentes ao Leopardo dourado.

June Films - A pequena Chaya em 'Les Yeux Verts', longa de abertura do festival

O júri será presidido pelo cineasta belga Fabrice Du Welz. Ao lado dele, na análise de cada título do certame central, estão o produtor Marco Alessi, as atrizes Lolita Chammah e Paulina García e o diretor-executivo do canal Arte Olivier Père.

O festival promove uma espécie de esquenta esta noite, com uma exibição da cópia restaurada de "Tubarão", de 1975, em praça pública. De quarta até o dia 15 seguem os trabalhos, sendo que Locarno, desta vez, bateu recorde de inscrições, com 7.759 filmes enviados — cerca de 22% acima do registrado em 2025. Foram selecionadas 233 produções, incluindo 103 estreias mundiais, provenientes de 69 países.

Na tradicional Piazza Grande, montada ao ar livre para milhares de espectadores, será exibido o thriller Paper Tiger, de James Gray, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. Gray será um dos homenageados desta edição, assim como Isabella Rossellini, Asia Argento, Rick Baker e Darren Aronofsky. Todos serão festejados na Piazza Grande, nas sessões Fuori Concorso, que receberão a estreia mundial de "Seize Moments de Ma Vie", novo trabalho do catalão Albert Serra, que é um dos diretores mais badalados do momento.