O Oscar de nossa gente
Theatro Municipal acolhe nesta terça a festa de entrega troféu Grande Otelo, em celebração a 25 anos da Academia Brasileira de Cinema, tendo 'O Agente Secreto' com mais indicações
Embora oscile de fonte em fonte, o total estimado de filmes com a presença ilustre do mineiro Sebastião Bernardes de Souza Prata (1915-1993) é de 118, uma quantidade notável, que por si, já seria suficiente para que seu pseudônimo, Grande Otelo, batizasse o troféu apelidado de "o Oscar do cinema nacional". A escolha de seu nome, contudo, transcende estatísticas, embora não deixe de lado as cifras do tanto de gente que ele levou a salas de projeção, com seu humor maroto ou, vez ou outra - como em "Rio Zona Norte", de 1957 -, com sua habilidade de traduzir num sorriso a resiliência contra o racismo das populações pretas deste país. É noite de seu nome ser clamado uma vez mais... de novo no Theatro Municipal, que já abraçou a premiação muitas vezes, em prol do sonho de um projeto cinematográfico industrial autossustentável em nossa nação. A cerimônia começa às 20h15 desta terça, apresentada (em família) pelas atrizes Marieta Severo e Silvia Buarque, mãe e filha, com transmissão ao vivo pelo Canal Brasil, na TV.
Há sempre um tema central a costurar a festividade, quase sempre um homenageado como se fez com Carlos Diegues (1940-2025), em 2012 - numa recriação da Caravana Rolidei de seu "Bye Bye Brasil", de 1980 -, e com Domingos de Oliveira (1936-2019), em 2014, numa doce reconstituição do tom romântico de seus longas-metragens. Celebra-se desta vez o aniversário de 25 anos da própria premiação e, com ela, comemora-se a luta da Academia Brasileira de Cinema na defesa de nossa produção, brigando por mais ocupação de tela.
Seu Grande Otelo segue os moldes do que a França faz no Troféu César e do que a Espanha faz com os Goya. Ambos ampliam a visibilidade de seus competidores e afeiçoa o público de suas pátrias ao que elas produzem para as telas.
Ao todo, 2.140 profissionais concorrem ao Prêmio Grande Otelo 2026. No evento desta noite, serão anunciados 32 prêmios para longas, curtas-metragens e séries brasileiras. Ao todo, 31 produções serão escolhidas pelo amplo júri formado por profissionais associados à Academia Brasileira de Cinema, além do disputado Grande Otelo de Melhor Filme pelo Júri Popular, escolhido pelo público por meio de votação aberta realizada no site da Academia.
Foram 287 inscrições, entre 162 longas — 82 filmes de ficção, 59 documentários, 7 filmes do gênero infantil, 4 longas de animação e 10 ibero-americanos indicados pelas Academias que fazem parte da Fiacine (Federación Iberoamericana de Academias de Artes y Ciencias Cinematográficas); 59 curtas — 21 de ficção, 26 documentários e 12 de animação; e 66 séries — 24 de ficção, 34 documentários e 8 de animação. Todos os títulos registrados podem ser conferidos no site da Academia Brasileira de Cinema.
Favorito da noite, o sucesso de bilheteria "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, que brigou por quatro Oscars em março, é o recordista de indicações a este Grande Otelo: 18 ao todo. O thriller ambientado em 1977 disputa os troféus de Melhor Longa de Ficção, Direção (Kleber), Ator (Wagner Moura), Atriz Coadjuvante (Alice Carvalho e Hermila Guedes), Ator Coadjuvante (Carlos Francisco, Gabriel Leone e Robério Diogenes), Roteiro Original, Direção de Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Montagem de Ficção, Efeitos Visuais, Som e Trilha Sonora. Além disso, por integrar a lista dos cinco finalistas de Melhor Longa de Ficção, também concorre ao Grande Otelo de Melhor Filme pelo Júri Popular. Kleber é sempre uma aposta quente, diante de seu rol de invenções narrativas.
Várias casas no Rio já escutaram "E o Grande Otelo Vai para..." desde que a láurea foi criada, no coração da Retomada, termo usado para designar o período compreendido entre 1995 e 2010, de "Carlota Joaquina" a "Tropa de Elite 2", quando nosso cinema recobrou suas forças após o desmonte decorrente do sucateamento da distribuidora de economia mista Embrafilme (1970-1990). Era ela que assegurava a circulação de nossos títulos em circuito, levando-os também ao exterior. No que ela fechou as portas, a atividade reduziu-se quase a zero, renascendo há 31 anos, com o apoio da Lei do Audiovisual e editais afins.
Nesse tempo de estrada, a cerimônia do Grande Prêmio viveu situações inusitadas. Em 2003, foi incumbido ao diretor de teatro Ivan Sugahara a tarefa de pilotar uma festa em homenagem ao então presidente da Academia, Roberto Farias (1932-2018), com foco num de seus muitos blockbusters: "Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura" (1967) e seu duplo, "O Diamante Cor De Rosa", de 1969. Sugahara fez do Odeon uma jukebox viva, com a imagem de José Lewgoy (dublado por Waldyr Sant'Anna) na telona, surpreendendo a plateia. Quando o fotógrafo Walter Carvalho foi ao palco pegar seu troféu, ele perguntou: "Quem fez isso aqui? Ficou bom pra caramba!". Naquela mesma edição, "O Homem Que Copiava", de Jorge Furtado, disputava láurea a láurea com "Carandiru", de Hector Babenco (1946-2016). Ao buscar seu troféu de Melhor Realização, esse artesão argentino de Mar Plata (naturalizado paulistano na década de 1970) foi atacado pelo diretor de "Amarelo Manga", Claudio Assis, aos gritos, a berrar, em fúria, a palavra "Escroto!", movido pela hipótese de uma fala xenófoba de seu colega vencedor. Qual um lorde, Babenco disse apenas: "Que pena, Claudio. Gosto muito do seu filme".
Meses depois, veio uma nova edição de Sugahara, agora com holofotes sob Paulo José (1937-2021), que levou a Cinelândia às lágrimas ao contar uma história sobre o nariz de Macunaíma, personagem que viveu em 1969. Outro acerto do teatro em flerte com o cinema.
Em 2009, o Grande Otelo foi puro amor conforme "Estômago", vindo da Berlinale, assegurava reconhecimento a seus feitos. Foi uma noite de beijaços por todo lado, com casais ilustres que se formaram para a vida.
Em 2013, na Cidade das Artes, Júlio Andrade fez um discurso comovente sobre inclusão ao ver "Gonzaga, De Pai Para Filho" vencer. No calor do Golpe, no auge das eleições de 2018, Vladimir Brichta foi coroado com "Bingo, O Rei das Manhãs". Fez os agradecimentos devidos e, com o povo já rendido a seu carisma, cravou: "Bingo, sim! Bozo, sim! Bozonaro, nãããããão!!!".
O mais recente Grande Otelo reverenciou nosso ganhador do Oscar "Ainda Estou Aqui", dando a Walter Salles honrarias mais do que merecidas. O episódio mais tocante, contudo, foi o choro do menino Isaac Amendoim, o Chico Bento, ao ver a consagração de "A Goiabeira Maraviosa" na briga por Melhor Longa Infantojuvenil.
Vejamos o que esperar deste Grande Otelo.