Um Grande Otelo que olha para os gringos

Troféu da Academia Brasileira de Cinema celebra a potência de 'nuestros hermanos' e do audiovisual luso com sua categoria ibero-americana, cujos concorrentes estão em streaming

Por

rodrigo fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Terça-feira é dia de Prêmio Grande Otelo, o Oscar nacional, concedido há um quarto de século pela Academia Brasileira de Cinema. A festa, comandada pelas atrizes Marieta Severo e Silvia Buarque (mãe e filha), será realizada no Theatro Municipal, a partir das 20h15, com transmissão pelo Canal Brasil. Indicado a quatro Oscars, "O Agente Secreto" é o recordista de indicações (18 ao todo), seguido por "Homem com H", que disputa em 13 Frentes. "Manas", "O Último Azul" e "O Filho de Mil Homens" também chegam com força nessa festa, que assegura um quinhão de seus holofotes para o que vem do estrangeiro.

A produção ibero-americana também tem sua vez. Estarão no Rio para o evento a atriz Camila Plaate, protagonista do concorrente argentino "Belén"; o ator Matías Francisco Catalán Celis, representante do chileno "O Olhar Misterioso do Flamingo"; o produtor Manuel Arturo Ruiz Montealegre, do colombiano "UM Poeta"; a produtora Tanya Maria Valette Castillo, que defenderá a dominicana "Pepe"; e o ator Jonathan Guilherme, por "O Riso e a Faca", produção Brasil x Portugal dirigida pelo lisboeta Pedro Pinho. Conhecê-los melhor é um veio de entender como a Academia pensa nuestros hermanos e patrícios. Todos estão já em streaming.

Vencedor da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2025, o candidato do Chile, cujo título original é "La Misteriosa Mirada del Flamenco", foi dirigido por Diego Céspedes. Pode ser visto no streaming do Telecine e na Amazon. Sua trama recua até 1982, numa cidade mineira isolada no deserto chileno, onde a pequena Lidia, de 11 anos, vive sob a proteção de artistas trans e travestis que gerem um cabaré local. Quando uma doença desconhecida começa a espalhar-se entre os mineiros que frequentam clandestinamente o espaço, instala-se um clima de histeria coletiva alimentado pela homofobia e pela transfobia. Corre o rumor de que o contágio acontece através de um simples olhar. Sua diva, Flamingo, figura maternal interpretada por Matías Catalán, tenta proteger Lidia de um mundo cada vez mais hostil.

"Um Poeta" só chegou aqui online, na HBO Max. A direção é de Simón Mesa Soto. Nessa trama coroada com o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes e com o prêmio Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, o trovador Oscar (interpretado com fluidez por Ubeimar Rios, um ator não-profissional) teve a chance de lançar dois livros e de dar aulas, o que, nem de longe, aplaca seu apetite por prestígio. Sua pátria, a mesma de Gabriel García Márquez, viu brotar muitos faróis na literatura. Oscar almeja ser um. Se bebesse menos, era mais fácil chegar lá e não estaria, já quarentão, à mercê do quarto que tem na casa da mãe, rejeitado pela filha adolescente. O verbo "desistir" é imposto pela vida a Oscar como um norte inescapável. A crença de que o poema pode levar quem escreve e quem lê à transcendência o leva a uma jovem, Yurlady (Rebeca Andrade), que demonstra um talento nato para metáforas. Na Medellín filmada por Mesa Soto numa fronteira ténue do naturalismo, a relação entre eles expõe crises culturais disfarçadas de assistencialismo e de capitalização da miséria (alheia).

Na grade da Amazon Prime Video, "Belén", de Dolores Fonzi, foi o longa mais festejado dos concorrentes à Concha de Ouro de San Sebastián, de onde saiu com a láurea de Melhor Interpretação Coadjuvante para Camila Plaate. A trama decorre em Tucumán, na Argentina, em 2014. Numa noite, uma jovem (Plaate) dá entrada num hospital com fortes dores abdominais, sem saber que está grávida. Acorda algemada à maca e cercada por polícias. É acusada de ter provocado um aborto e, após 24 meses em prisão preventiva, é condenada a oito anos de prisão por homicídio qualificado devido ao vínculo familiar. Uma advogada de Tucumán (interpretada com ardor por Fonzi) lutará pela sua liberdade com o apoio de milhares de mulheres e organizações.

Trazido até nós pela plataforma digital MUBI, "Pepe", de Nelson Carlo De Los Santos Aria, foi indicado ao Urso de Ouro, há dois anos. Essa produção da República Dominicana conjuga (e bem) documentário e ficção, num espírito anticolonial nas raias do fantástico. Seu enredo é inspirado na figura de um hipopótamo adotado por Pablo Escobar, Pepe, que foi trazido da África para a Colômbia e, mais tarde, tornou-se um símbolo de desrespeito ecológico devido à controvérsia em torno de sua morte. Seu realizador ganhou o prêmio de Direção na Berlinale.

Disponível para aluguel ou compra na Prime Video, com suas 3h37 minutos, "O Riso e a Faca" nasceu em Cannes, em 2025, onde foi rotulado como "épico da lusofonia". Uma segunda coroa veio da Croisette: a láurea de Melhor Interpretação, dada à atriz Cleo Diára. A revista "Cahiers du Cinéma", encarada como Bíblia pela cinefilia, elegeu o longa-metragem do lisboeta Pedro Pinho (que teve a carioca Tatiana Leite como um fator de X, ou seja, um fator central, em sua equação de produção) para sua lista dos Dez Melhores do ano passado. São 211 minutos de reflexões sobre raízes e êxodos, desenraizamento e pertença. Tem ecos d'África(s), do nosso Brasil e da "terrinha", a pátria de Pinho, numa jornada que fala de origens e de futuros possíveis para povos que, unidos por uma língua, precisam superar os ranços do pacto colonial. Cleo e e Jonathan foram um triângulo de perseverança na trama com Sérgio (Sergio Coragem), europeu que parte para um canto da África para trabalhar como engenheiro ambiental para uma ONG, na construção de uma estrada entre o deserto e a selva. À medida que adentra nas dinâmicas neocoloniais d expatriados, a dramaturgias gravita entre a solidão e a barbárie.