Rugidos lusitanos para um ourives da imagem
Pouquíssimo exibido no país, com um filme só na MUBI, o diretor português Pedro Costa receberá o troféu honorário Robert Bresson no Festival de Veneza por mérito de sua ousadia
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Presença raríssima em nossas telas, representado em nosso streaming por "Cavalo Dinheiro" (Melhor Direção no Festival de Locarno, em 2014) na plataforma MUBI, o português Pedro Costa foi escolhido para receber o troféu honorário Robert Bresson, em Veneza, que acolherá a briga pelo Leão de Ouro de 2026 de 2 a 12 de setembro. Concedida pela Fundação Ente dello Spettacolo, ligada ao setor cultural da Igreja Católica, a honraria é um reconhecimento de verve ecumênica para realizadores cuja obra alia excelência artística a uma dimensão espiritual, ética e humanista quase filosófica, expressa por meio de filmes capazes de estimular reflexões sobre a condição humana.
Atribuída ao carioca Walter Salles, em 2009, a láurea, criada em 2000 e batizada em homenagem ao cineasta francês (nascido em 1901 e morto em 1999), autor de clássicos das telas como "Pickpocket" (aqui, "O Batedor de Carteiras", lançado em 1959), "Um Condenado à Morte Escapou" (1956) e "Lancelot do Lago" (1974). Numa evocação ao ethos bressoniano, em sua empatia, o prêmio festeja miradas que driblam a alteridade ao relatar modos de vida pautados pela resiliência, assim como Costa faz com imigrantes de Cabo Verde.
Considerado um dos mais requintados estetas do nosso tempo na criação cinematográfica, o diretor luso ganhou notoriedade por longas-metragens cults como "Juventude em Marcha" (indicado à Palma de Ouro em 2006) e "No Quarto de Vanda", laureado no festival Cinéma du Réel em 2001. Este era um dos filmes favoritos de Eduardo Coutinho (1933-2014), aclamado documentarista responsável por "Edifício Master" (2002) e "Santo Forte" (1999). Com "Vitalina Varela" (2019), Costa conquistou o Leopardo de Ouro de Locarno, subindo degraus no Olimpo da autoralidade fílmica.
Sua Passárgada se chama Fontainhas, bairro da periferia de Lisboa alvejado pela gentrificação e por intervenções estatais onde ambienta suas tramas, oferecendo a suas plateias um estudo sobre a resiliência dos desterrados d'África no Velho Mundo. "A urgência é má conselheira. Filmo como uma equipe muito reduzida, com quatro pessoas por trás das câmeras, para que meu elenco de não atores tenhas as melhores condições de criar. Não se deve ser urgente, no cinema, nem no documentário, formato que aspira a ter um contato mais terra a terra com a realidade", disse o diretor ao Correio da Manhã em sua passagem pelo Rio, meses antes de começar a pandemia. ""Estudando as pessoas de Cabo Verde, que tanto me deram e tanto me dão, há tantos anos, tive a percepção de que existem mulheres sentinelas, à olhar para o mar, à espera, sem resposta. Vitalina é uma delas. Existem muitas".
Desde sua criação, em 2000, o Prêmio Robert Bresson distinguiu expoentes do cinema de autor mundial, como Walter Salles, no tempo em que lançou "Diários de Motocicleta" (2004) e "Linha de Passe", de 2008 (rodado em duo com Daniela Thomas). A lista de premiados abriu com Giuseppe Tornatore (2000), seguindo com Manoel de Oliveira (2001), Theo Angelopoulos (2002 e 2003), Wim Wenders (2004), Jerzy Stuhr (2005), Zhang Yimou (2006), Alexander Sokurov (2007), Krzysztof Zanussi (2008), Waltinho (2009), Mahamat-Saleh Haroun (2010), os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne (2011), Ken Loach (2012), Amos Gitai (2013), Carlo Verdone (2014), Mohsen Makhmalbaf (2015), Andrey Zvyagintsev (2016), Gianni Amelio (2017), Liliana Cavani (2018), Jacques Perrin (2019), Lucrecia Martel (2020), Alice Rohrwacher (2021), Hirokazu Kore-eda (2022), Mario Martone (2023), Marco Bellocchio (2024), Eugène Green (homenagem especial pelos 25 anos do prêmio, em 2024) e Stéphane Brizé (2025).
Em 2021, Costa lançou o livro "Vitalina Varela - Cadernos de Rodagem", no qual faz um balanço de seu método de trabalho, reunindo fotografias tiradas nos subúrbios de Lisboa e na ilha de Santiago, Cabo Verde, entre 2017 e 2019. "Existem pessoas com um viver muito rico que vieram d'África para se reinventarem em solo português. E é delas que eu falo, em planos que distendem uma percepção mais comercial do tempo", disse o cineasta, cujo filme mais recente é "As Filhas do Fogo", um curta-metragem lançado em Cannes em 2023.
O Festival de Veneza abre suas atividades com "Ink", de Danny Boyle. Ambientado em 1969, o longa acompanha a ascensão do magnata Rupert Murdoch, interpretado por Guy Pearce, e a transformação do tabloide "The Sun" num fenômeno editorial. Jack O'Connell, Claire Foy e outros nomes britânicos completam o elenco. O Brasil é coprodutor de um dos concorrentes: "Retorno a Buenos Aires", do chileno (de ascendência italiana) Marco Bechis.