Babel dos milhões
Em meio à reação fortíssima de Hollywood nas bilheterias, longas de CEP não anglo-saxônico lotam salas de projeção, afirmando sobretudo a potência chinesa nas telas
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Não há dúvida de que Destin Daniel Cretton vai mudar o ranking de arrecadações do cinema mundial com "Homem-Aranha: Um Novo Dia", da mesma forma como a avassaladora marcha de Christopher Nolan com seu "A Odisseia" alterou o pódio do audiovisual, assegurando a ele o sétimo lugar nas maiores receitas do ano em duas semanas. Cada mudança dessas devolve à Hollywood uma onipotência que ela vinha perdendo desde a pandemia, a ponto de, em 2025, o maior faturamento global foi de uma animação chinesa: "Ne Zha 2 - O Renascer da Alma", que contabilizou cerca de US$ 2,2 bilhões.
Este foi o primeiro longa não americano a entrar para o clube do bilhão, que este ano, já soma três títulos dos Estados Unidos: "Toy Story 5" (1º); "Super Mario Galaxy" 2º); e "Michael" (3º). Logo atrás do trio, a lista revela um mercado não estadunidense cada vez mais robusto, impulsionado pela Ásia (sobretudo), onde produções locais vêm mobilizando plateias gigantescas e conquistando arrecadações que rivalizam com os maiores estúdios do cinemão. De janeiro para cá, 30 longas tornaram-se blockbusters, ou seja, passaram da raia de US$ 100 milhões.
Desses, sete não têm o inglês como língua natal. O maior fenômeno desse bonde é "Pegasus 3", da China, que acumula US$ 656,4 milhões. Terceiro capítulo da franquia criada por Han Han, o longa mistura automobilismo, humor e drama esportivo, mantendo o enorme apelo popular da série iniciada em 2019. O dado mais impressionante é que praticamente toda sua receita veio do mercado internacional — sobretudo da própria China —, já que apenas 0,2% da arrecadação foi registrada nos cinemas norte-americanos. O desempenho confirma a força do mercado chinês para transformar produções nacionais em sucessos globais sem depender de Hollywood. Está em sexto posto no ranking.
Também da China vem "Dear You", de Lan Hongchun, um romance dramático que alcançou US$ 289,2 milhões exclusivamente em mercados internacionais. O filme ocupa o 13° lugar. Ele conquistou o público com uma narrativa sentimental centrada em reencontros e perdas familiares, apostando numa combinação de melodrama e apuro visual que dialoga com o grande público asiático. Sem lançamento comercial relevante nos EUA, tornou-se um dos maiores sucessos chineses do ano e reforçou a capacidade da indústria local de sustentar grandes bilheterias apenas com audiência doméstica e mercados vizinhos.
Outro destaque, em 18° lugar, também chinês, é "Blades of the Guardians", adaptação feito por Woo-Ping Yuen da popular HQ de artes marciais de Xu Xianzhe. Com US$ 215,3 milhões arrecadados, ignorou o circuito americano, onde faturou menos de 1% de sua receita total. Apostando numa sofisticada combinação de ação, fantasia e estética inspirada na tradição wuxia, a produção consolidou-se como um dos maiores êxitos da animação chinesa recente, mostrando que o gênero continua em expansão.
A China também emplacou, em 19° lugar, "Kung Fu Soccer", com US$ 208,4 milhões. Inspirado na mistura de esporte e artes marciais que fez fama no cinema popular asiático, o filme aposta em partidas de futebol coreografadas como grandes cenas de ação, privilegiando o espetáculo visual e o humor. Toda sua arrecadação foi registrada fora dos Estados Unidos, confirmando o enorme alcance regional desse tipo de entretenimento e a fidelidade do público chinês às suas produções.
Outro título chinês a superar a marca dos US$ 100 milhões foi "Scare Out", do medalhão autoral Zhang Yimou, que soma US$ 200,3 milhões. Misturando horror sobrenatural e suspense psicológico, o longa encontrou receptividade dos espectadores asiáticos, explorando elementos do folclore local e uma atmosfera de terror bastante distinta da tradição hollywoodiana. Sem presença significativa no circuito dos EUA, provou que o gênero do horror também pode gerar blockbusters inteiramente produzidos para o mercado oriental.
Representando a Índia, em 23° lugar, "Dhurandhar: The Revenge" alcançou US$ 152,9 milhões, tornando-se o maior sucesso internacional de Bollywood em 2026, reunindo ação, drama familiar e números musicais, elementos tradicionais da indústria indiana, em uma narrativa de vingança protagonizada por um herói disposto a enfrentar um império criminoso. Cerca de 82% da arrecadação veio de mercados internacionais, impulsionada pela diáspora indiana e pela crescente popularidade das produções do país em diversas regiões do mundo.
Em 24° lugar, aparece mais uma produção chinesa, "Boonie Bears: The Hidden Protector", que faturou US$ 139,3 milhões. Integrante de uma das franquias de animação mais populares da China, o filme mantém a fórmula aventura humor conscientização ambiental para o público infantil. Assim como os demais sucessos locais, sua receita veio de mercados internacionais, evidenciando a força comercial de uma marca que há anos domina as férias escolares chinesas.
Fechando a lista, também da China, chega "The King's Warden", que ultrapassou US$ 113,1 milhões nas bilheterias mundiais. Está em 30° lugar. Ambientado em um contexto histórico, o longa combina intrigas políticas, cenas de batalha e elementos épicos para narrar a trajetória de um guerreiro encarregado da proteção da corte imperial. Quase 97% de sua arrecadação foi obtida fora dos Estados Unidos.
Apesar das vitórias internacionais obtidas na Berlinale e de estar concorrendo ao Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, com "A Margem do Rio", o Brasil não emplacou nenhum blockbuster este ano (ou seja, não teve nada na casa do milhão. Nossa maior arrecadação, até agora é "Velhos Bandidos", com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, com cerca de 430 mil ingressos vendidos.