'Alceu Valença tem uma poesia que a gente escuta com o ouvido, mas sente na pele'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Responsável por extrair teatro do livro "Guerra Dentro da Gente", de Paulo Leminski (1944-1989), numa encenação de respeito, Duda Maia não cansa de bailar a coreografia da invenção para blindar nossas artes cênicas de qualquer raio de mesmice, alcançando transcendências como a peça "Auê" (2016), com a Barca dos Corações Partidos. Depois de encenar "Poemas", aqui no Rio, ela gravita pelos versos de um rapsodo do cancioneiro popular em "Anunciação - O Musical de Alceu Valença". O espetáculo estreou no dia 23 de julho de 2026, no Teatro Carlos Gomes, comemorando os 80 anos do cantor e compositor. A direção geral é de Miguel Colker. A direção artística é de Duda.
No palco, oito intérpretes - em sua maioria nordestinos - dão corpo a uma narrativa sem personagens fixos, guiada por cerca de 35 canções, entre elas "Anunciação", "La Belle de Jour", "Tropicana" e "Como Dois Animais". O texto da peça é assinado por Luiza Loroza e por Duda Rios, cofundador da supracitada Barca.
No papo a seguir, a encenadora e coreógrafa solfeja as encantarias de Alceu.
De que maneira a obra de Alceu serve como um roteiro espiritual e musical para a viagem sensorial que se trava no espetáculo "Anunciação"?
Duda Maia - A obra do Alceu Valença serve como inspiração para um roteiro em que a gente, como criação, tenha muita liberdade de brincar. Tem nele uma doidice muito boa, tem um lugar muito singular e muito fora da lógica (e fora da curva) e tem, ao mesmo tempo, uma poética que atravessa muito o nosso corpo — o corpo de toda a equipe, de todo mundo que escuta, o meu corpo como diretora. Então, isso serve de inspiração para você criar um roteiro. Um roteiro em que a imagem, a palavra e a sonoridade fiquem a favor de uma linguagem. A cada música que inspirava a Luiza e o Duda a escreverem alguma coisa, também me vinham muitas imagens. Esse lugar do sensorial passa pela poesia imagética. É uma poesia que a gente escuta com o ouvido, mas sente na pele.
Ecos de "Auê" ainda marcam o teu prestígio. De que forma as pesquisas edificadas ali, com o verso musical e o movimento, vetorizam sua imersão no cancioneiro e no Nordeste de Alceu?
"Auê" foi um marco na minha história como criadora, como diretora. Foi a primeira vez que eu propus experimentar instrumentos sem serem plugados, para me dar mais liberdade com o corpo. Foi uma coisa que deu muito certo, mas que dá muito trabalho, sendo muito estimulante. Aí eu vim desenvolvendo outros trabalhos, "Jacksons", "Elza", "Contos Partidos de Amor". Em alguns trabalhos, eu experimentei esse lugar do instrumento desplugado. E, no Alceu, eu acho que isso vem com muita força, porque a gente está falando de um artista que é um brincante, que tem uma brasilidade muito forte e que traz muitas imagens para mim. São imagens de movimento. Eu, naturalmente, vou buscando trazer esse movimento para os corpos das atrizes, dos atores e para esses instrumentos fazendo parte da encenação.
Pensando no processo da recente da peça "Poemas", queria entender qual é o lugar da palavra na sua forma de pensar a cena e o movimento no palco. O que é a palavra escrita — e falada — para o teatro?
Pensando no processo de "Poemas", no qual a palavra vinha com uma força muito grande, o texto era a rainha da encenação, assim como em "Desato", da Viviane Mosé, um espetáculo que eu dirigi com poesias dessa autora. Porém, mesmo sendo espetáculos em que a palavra reina, no melhor dos sentidos, são palavras que atravessam o meu corpo, são palavras que me fazem pensar com o movimento. E isso é muito importante para mim. A primeira coisa que eu faço quando sou convidada para dirigir um espetáculo... e esse espetáculo já tem uma escrita apontada... é ler esse texto, essa ideia, esse release, e perceber se o meu corpo dança, se o meu corpo se movimenta, se me vêm imagens físicas.
Seus trabalhos coreográficos conversam com as dramaturgias que os pavimentam, mas sem se subjugar às palavras, buscando invenção e liberdade num coro de corpos. Há uma linha central de reflexão na espinha de seu trabalho como coreógrafa?
Eu venho da dança. Fui desde o balé clássico até os folguedos populares, passando por diversas aulas de dança contemporânea, improvisação, contato e improvisação. Estudei muito. Mas o mergulho que eu fiz durante 16 anos na escola da Angel Vianna, de quem sou cria, é o meu chão, é a minha base como criadora. O olhar para o corpo de cada pessoa - no entendimento de que cada corpo é único e que você pode conseguir extrair o mais interessante dele - é o norte do meu trabalho. No processo do Alceu, a gente escutou muito as músicas dele, com sua sonoridade, e investigou como é o corpo tocar e cantar aquela música, não necessariamente com um instrumento na mão ou com a sua voz. A questão era como é cantar com a sua bacia, com o seu joelho, com o seu cotovelo, com a sua escápula, com o seu ombro. Como é amaciar esse corpo, esse esqueleto que brinca e que se comunica.
Quais são os seus próximos projetos?
Vou entrar agora numa sala de ensaio com uma bailarina, Maria Alice Poppe, num solo de dança. A gente vai fazer um trabalho chamado "De Qualquer Modo Dança", que fala sobre maturidade de um corpo maduro, de um corpo que tem muita história, de um corpo que talvez, pela idade, perca um pouco de técnica, mas ganha outros lugares, inclusive de vigor
SERVIÇO
ANUNCIAÇÃO
Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº - Centro)
Até 16/8, às quintas e sextas (19h), sábados e Domingos (17h)
Ingressos a partir de R$ 40