E, nas praias da ficção, chega o Redentor de 2025

Por

Em meio a uma micareta documental em nossos cinemas, "Pequenas Criaturas", o vencedor do troféu Redentor de Melhor Filme (de ficção) do Festival do Rio 2025, estreia entre nós, enfim. O delicado inventário de cicatrizes dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, conta com uma atuação em modo "vísceras à mostra" de Carolina Dieckmann.

Ela está à frente do longa no papel de uma figura, Helena, de quem a vida resolveu tirar tudo... ainda que em penosas prestações. Um alívio (talvez) amoroso lhe chega na figura de Caco Ciocler, numa atuação daquelas de se aplaudir de pé. Fora isso, tem Fernando Eiras, o titã habitual do cinema de Júlio Bressane... e de palcos cariocas, reafirmando sua alta voltagem dramática, assim como Letícia Sabatella, que abrilhanta nossas telonas bem menos do que a gente precisa. Essa trupe em estado de graça, enquadrada meticulosamente pelo diretor de fotografia Pablo Baião, fez com que Anne amolecesse corações em latitudes escandinavas, em janeiro, no Festival de Gotemburgo, na Suécia. Concorreu lá numa seção que leva o nome daquele que foi o mestre supremo da realização: Ingmar Bergman.

"Acho que a Brasília do filme se mostra universal no que ela é cenário de uma história universal - uma história de afetos e encontros de personagens solitários com sede de conexão", adianta Anne, contextualizando, a cidade que lhe serve de arena para a trama, ambientada em 1986.

A direção de arte de Claudia Andrade, premiada no Festival do Rio, pavimenta a beleza (mas também a solidão) da capital do país revisitada nessa produção da Bananeira Filmes, de Vânia Cattani. Logo após redemocratização, depois do movimento Diretas Já!, no desfecho do regime militar, Helena (Dieckman) chega em Brasília com o marido e dois filhos. Mal os caixotes encostam no chão, ele parte. Ela fica. Tem que cuidar de uma casa ainda por abrir, com uma rotina que não escolheu, com uma quase metrópole estranha que não lhe oferece colo, só espaço. No meio desse vazio, surgem encontros que parecem desvios, mas são rotas de sobrevivência. (R. F.)

E