Serenamente Manoel de Oliveira, o eterno

Cinemateca do MAM revisita parte da filmografia do artesão autoral considerado o maior patrimônio audiovisual do povo português, que viveu 106 anos e estreou nas telas em 1931

Por

rodrigo fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Numa carta enviada de Portugal ao Correio da Manhã, em reação a uma crítica do jornal a seu "O Quinto Império - Ontem Como Hoje" (2004), o realizador Manoel de Oliveira (1908-2015) fazia considerações sobre nossa literatura, demonstrando curiosidade acerca do romance "O Coronel e o Lobisomem", a que acabara de ser apresentado. Antes de se despedir e assinar a missiva, escrita à mão, escreveu: "Quando se fala em direção, eu só tenho plena certeza de saber dirigir carros, pois fui um bom piloto quando moço, inclusive passei pelo circuito da Gávea, que existia aí entre vocês, mas, sobre cinema, sigo de ventura em ventura". Neste fim de semana, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna vai desafiar essa consideração feita pelo diretor lusitano, equiparado a Ingmar Bergman (1918-2007) e Luis Buñuel (1900-1983) pela potência de suas imagens em fricção com as inquietações existenciais nossas de cada dia. Até domingo, o MAM revisita marcos da obra de um cineasta que viveu 106 anos e dedicou-se ao audiovisual por quase nove décadas, a partir de sua estreia com "Douro, Faina Fluvial" (1931) - que passa nesta sexta, às 18h30.

É uma retrospectiva breve, mas imperdível, que começou na quinta com "Francisca" (1981) e projeta em tela grande produções que raramente têm vez no Rio, onde os longas-metragens de Oliveira eram lançados com legendas para evitar incompreensões acerca do falar de nossos patrícios. Entre as joias da curadoria, destaca-se "Acto da Primavera" (1963), que desafia todas as convenções da forma como o cinema falou de Jesus Cristo, ao retratar a encenação de um auto da Paixão. Passa no sábado, às 17h50.

Incluído dez vezes na lista dos Dez Mais da revista "Cahiers du Cinéma", Manoel visitou o Brasil em 2004, quando participou da Mostra de São Paulo. Chegou no mesmo dia em que o evento recebeu outros dois mestres da realização: o iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016) e o israelense Amos Gitai. "São grandes esses dois colegas", disse o português, num ano em que recebeu o Leão de Ouro Honorário do Festival de Veneza pelo conjunto de sua filmografia

"Conheci Manoel de Oliveira — ou, para ser mais rigoroso, falei directamente com ele — em 2008, no Festival de Cannes. Nesse ano, o mestre português, então com 99 anos, recebeu uma Palma de Ouro honorária pelo conjunto da obra, numa sessão de gala que terminou com a apresentação da versão restaurada de 'Douro, Faina Fluvial', o seu primeiro filme, realizado em 1931", lembra o crítico, fotógrafo e cineasta português José Vieira Mendes, articulista das revistas "Visão" e "Metrópolis". "Por uma dessas coincidências que só parecem possíveis em Cannes, assisti à cerimónia com Clint Eastwood e Sean Penn ali por perto. Mas o momento verdadeiramente inesquecível aconteceu mais tarde, longe do palco e das luzes do Grand Théâtre Lumière. Nessa mesma noite, por volta da meia-noite, passeava com um amigo pela Croisette, ainda cheia de gente, quando, junto ao Hotel Majestic, vimos Manoel de Oliveira avançar sozinho apressadamente por entre a multidão. Ia de chapéu de aba e levava na mão aquela bengala-bastão aristocrática, mais para se sentir seguro — e talvez para compor a personagem — do que por verdadeira necessidade de apoio. Parei, apresentei-me e perguntei-lhe, com o devido respeito, o que fazia àquela hora no meio de toda aquela confusão. Oliveira respondeu-me, com a sua serenidade imperturbável: — Estou a desentorpecer as pernas e a fazer a digestão do jantar. Ele estava hospedado no Majestic. Tirei uma fotografia com ele e seguimos cada um o seu caminho. Foi um encontro breve, quase absurdo na sua simplicidade, mas absolutamente inesquecível. Um daqueles momentos que guardarei para sempre entre as muitas histórias acumuladas ao longo de quase trinta anos de festivais de cinema. Porque às vezes conhecemos os grandes mestres numa sala de gala. Outras vezes, encontramo-los à meia-noite na Croisette, simplesmente a fazer a digestão".

Questionado sobre a finitude — tema recorrente em sua arte — o diretor de obras-primas como "Vale Abraão" (1993) e "O Estranho Caso de Angélica" (2010), dizia: "Morrer é uma condição. Desde que nascemos, só existe uma certeza: a morte. Não tenho medo dela. Só tenho medo da dor." Despediu-se dos longas com "O Gebo e a Sombra" (2012) rodou mais três curtas e serenou em 2 de abril de 2015, elegendo-se para a Eternidade na saudade da gente.