Marco Antonio Costa: 'Confiança é tão importante quanto técnica'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O dublador Marco Antonio Costa

Se Christopher Nolan um dia quiser dirigir filmes falados em Português e conferir a destreza vocal de Marco Antonio Costa, voz brasileira de Matt Damon em seu atual fenômeno de bilheteria, "A Odisseia", as chances de o cineasta inglês escalar esse ourives da dublagem seriam altas. Só haveria um empecilho: conciliar as filmagens com as responsabilidades desse artista brasileiro como médico.

Há 40 anos, ele joga nas duas posições: cura pessoas em hospitais e consultórios em paralelo à sua dedicação a preencher os ouvidos da gente com seu falar melífluo. Desde 2018, ele anda radicado em Campos de Jordão (SP), mas seus trabalhos dublando Brad Pitt, Hugh Grant e Johnny Depp não desgrudam dos nossos tímpanos e não saem da TV e do streaming. Criterioso em sua interpretação, Marco Antonio hoje abrilhanta a versão dublada da saga de Odisseu (Damon). Dá ainda mais grandeza a diálogos como "Todo homem vê melhor olhando de baixo".

Seu êxito no ofício atraiu olhares estrangeiros e ele chegou a participar do documentário "Being George Clooney" (2016), no qual o realizador Paul Mariano mostra quem dubla o astro de "Um Drink No Inferno" (1996), que será homenageado no Festival de Veneza, em setembro. No papo a seguir, Marco Antonio desfila pelas fronteiras da sincronia e da poesia.

De que maneira a interpretação de Matt Damon, celebrada pela crítica, abre caminhos para a sua forma de interpretá-lo na dublagem de "A Odisseia"?

Marco Antonio Costa - Sempre digo que, quando o ator é bom, o trabalho do dublador fica mais simples. A boa interpretação guia a gente. Você acompanha o ritmo, a intenção, o olhar, a respiração. O Matt Damon é um desses atores. Em todos os trabalhos que fiz com ele, nunca tive dificuldade por causa da atuação dele. O problema específico de "A Odisseia" veio de uma decisão do Christopher Nolan para combater a pirataria. Em muitas cenas, quando o personagem não aparecia de frente, a tela ficava completamente preta. Quando aparecia, a gente via apenas o rosto, às vezes só a boca. Não víamos o contexto da cena, com quem ele estava falando ou para onde olhava. Para quem dubla, a imagem é fundamental. Ela conduz a interpretação. Sem ela, você perde referências importantes. Tenho certeza de que isso dificultou o trabalho de todo mundo, inclusive da diretora Andrea Murucci, que teve uma paciência enorme durante o processo.

Em geral, o que atores como Matt Damon, Brad Pitt e Johnny Depp, estrelas mais ou menos da mesma geração, todas dubladas por você, impõem como desafio para você ao gravar?

O desafio é justamente acompanhar atores excelentes. Quando eles entregam uma interpretação rica, cheia de nuances, você precisa estar à altura. É um desafio prazeroso. Muito mais difícil é quando o ator não oferece material para você construir. No caso desses grandes nomes, o trabalho é exigente porque você precisa respeitar cada detalhe da interpretação. Ao longo da carreira sempre fui ganhando confiança para enfrentar personagens mais complexos. Isso começou quando ganhei o teste para fazer Johnny Depp na série "Anjos da Lei", em 1988. Foi um momento importante porque passei a acreditar mais no meu trabalho. Depois vieram papéis cada vez mais difíceis. Lembro muito de uma minissérie sobre Elizabeth Taylor em que dublei Richard Burton em duas fases da vida. Precisei criar diferenças vocais entre o personagem jovem e o envelhecido. Quando terminamos, a diretora ficou surpresa com o resultado e disse que eu tinha me superado. Aquilo me mostrou que eu podia ir além.

De que maneira a Medicina e a Dublagem se equilibraram ao longo da sua vida?

Conciliar as duas profissões nunca foi fácil. Eu me formei em Medicina no fim de 1986 e, poucos meses antes, já havia começado na dublagem. Durante muitos anos, fazia plantões em hospitais nos fins de semana, à noite ou de madrugada, para conseguir gravar durante o dia. Trabalhei em hospitais particulares, na Prefeitura do Rio, no Hospital Souza Aguiar, em ambulatórios e emergências. Houve até um período em que revisei os textos médicos da série "Plantão Médico", para corrigir termos técnicos da tradução. Depois esse trabalho passou para outra médica da Herbert Richers. Em 2018, eu me mudei para Campos do Jordão, com a ideia de abandonar a dublagem e ficar apenas na Medicina. A pandemia mudou tudo. A dublagem remota evoluiu muito e, desde 2020, eu e a (também dubladora) Lina (Rossana, esposa de Marco) voltamos ao mercado trabalhando de casa. Investimos num estúdio de alta qualidade, reconhecido por estúdios do Rio e de São Paulo. Ainda há produções, especialmente grandes lançamentos para o cinema, que exigem gravação presencial, e às vezes preciso recusar trabalhos por causa da distância. Hoje, eu atendo em uma clínica particular uma ou duas vezes por semana, faço algumas consultas on-line e continuo dublando nos horários alternativos. Depois de 40 anos nas duas profissões, encontrei um equilíbrio que jamais imaginei ser possível.

Em que momento da sua travessia como ator de voz você percebeu: "Agora sou um dublador"? Houve algum trabalho particularmente intimidador?

Acho que levei dois ou três anos para perder a inibição. Comecei em março de 1986 e, naquela época, a gente gravava em grupo, com vários colegas no estúdio. Era preciso vencer a timidez, ganhar confiança e se sentir pertencendo àquele ambiente. Os diretores foram fundamentais nesse processo. Mário Monjardim, Newton DaMatta, Amaury Costa, Garcia Neto, João Francisco Turelli... todos me ajudaram muito. Houve também um momento curioso, quando pedi ao Francisco José para fazer o Zed, de "Loucademia de Polícia". Eu já tinha visto o filme no cinema e queria muito aquele personagem. O resultado ficou tão bom que ele nunca se arrependeu da escolha. A partir dali, fui entendendo que confiança é tão importante quanto técnica.

Depois de quatro décadas de profissão, como você consegue assistir a um filme sem analisar a dublagem?

É praticamente impossível. Eu e Lina ficamos muito críticos. Quando assisto a um filme legendado, fico imaginando as dificuldades que aquele material vai impor para o dublador. Quando vejo uma versão dublada, presto atenção em tudo: interpretação, sincronismo, tradução, mixagem e até na exibição. Já aconteceu de assistir a uma série em que o áudio estava completamente fora de sincronia. O barulho de uma porta vinha depois que ela batia. Isso destrói o trabalho de quem passou horas no estúdio. Também existem vozes que se tornam inseparáveis de determinados atores. Até hoje tenho dificuldade para assistir a Bruce Willis sem a voz do Newton DaMatta. Nesses casos, prefiro até ver legendado. A dublagem é um trabalho coletivo. Depende da tradução, da direção, do ator, da mixagem e até da forma como o material vai ao ar.