Morre Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos

O maior produtor da História do cinema brasileiro deixa um legado histórico de sucessos – com duas indicações ao Oscar – marcados pela celebração da diversidade nacional

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Luiz Carlos Barreto fez do cinema sua forma de expressão poética a partir de 1961, quando ainda era fotojornalista e optou por produzir retratos com imagens em movimento do país

Durante as filmagens de “Lula, O Filho do Brasil” em Pernambuco, em janeiro de 2009, Luiz Carlos Barreto chegou de mansinho perto de uma área onde a imprensa tirava fotos e registrava cenas de bastidor de um set com Gloria Pires, puxou os repórteres para o canto, portando picolés de cajá na mão e disse: “Vocês nunca serão brasileiros de verdade sem provar disso aqui”. Mais tarde, ao fim da diária, quando um forró começou a se fazer ouvir na base da equipe, animando um arrasta-pé, ele, cearense, tirou uma assistente de direção para dançar, delicadamente, e ensinou a todos o requebrar à moda do Ceará. Nesta quarta-feira, o centauro (empresário, de um lado; artista, do outro) a quem o Brasil se referia no aumentativo, ou seja, Barretão, levou seu modo único de forrozar, seu apreço por frutas nordestinas e, sobretudo, sua paixão desvairada pelo cinema para o Infinito.

Para além de sua relevância como artífice de produções, estudando meticulosamente o comportamento de nossas plateias, Barreto marcou época como aríete da democracia na liderança de batalhas contra a hegemonia de Hollywood. É considerado o maior baluarte da política cultural deste país.

Morreu aos na madrugada, aos 98 anos. A informação for confirmada por familiares. Vinha com a saúde debilitada desde março de 2024, quando sofreu uma queda visitando seu estado natal, para uma homenagem. Estava internado desde a última terça-feira. Deixa a companheira de quase sete décadas, a também produtora Lucy Barreto, a filha, Paula, e o filho mais velho, Bruno. Mais do que isso, deixa glórias cinéfilas e, além delas, saudade.

Acervo familiar - Repórter fotográfico na juventude, Luiz Carlos Barreto levou seu olhar para a tela grande a partir de sua admiração pelo Cinema Novo


A partir de 1950, passa a trabalhar como repórter nos Diários Associados, primeiro na revista “A Cigarra”, e logo em seguida, na revista “O Cruzeiro”. Em pouco tempo, o fotojornalismo virou seu norte profissional, tornando-se um dos baluartes desse ofício do Brasil. Foi correspondente em Paris, onde se formou em Letras pela prestigiada Universidade Sorbonne. Num trabalho para o periódico de Assis Chateaubriand (1892-1968), descobriu a linguagem cinematográfica, registrando as filmagens de “Barravento”, de Glauber Rocha (1939-1981), no início da década de 1960. Ali o canto da sereia do cinema autoral brasileiro fisgou-o.

Usou os dotes e as manhas do jornalismo para levar reflexões sobre o real para o projeto “Assalto Ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias (1932-2018), como coautor do roteiro e coprodutor. Na sequência, empregou suas manhas com obturadores para fez a fotografia de “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). Revolucionou o estilo fotográfico dos filmes nacionais, sendo aclamado no Festival de Cannes, onde a produção foi concorrer à Palma de Ouro gerando uma polêmica mundial. A controvérsia: teria a produção assassinado de verdade a cachorrinha que interpreta a Baleia na trama, dado o realismo da sequência de sua morte? Não por acaso, a estrela canina teve de ir à Croisette, com Barretão de cicerone. Ali nasceu “O” produtor, o maior que o Brasil já teve, sempre com Lucy a seu lado.

Divulgação - Luiz Carlos e Lucy Barreto: união de afetiva e profissional de 70 anos


A LC Barreto celebrou seis décadas de História com direito a homenagem na mesma Croisette que aclamou Baleia. No cinema mundial, quando se pensa historicamente em representações do Brasil, pensa-se na LC.

 

Divulgação - Dona Flor e Seus Dois Maridos

Não à toa, uma de nossas maiores estrelas de projeção global, Sonia Braga, afirmou: “há antes dos Barretos e depois”. Com eles, a atriz fez seu maior sucesso, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que, há 50 anos, passou da marca de dez milhões de tíquetes vendidos em sala de projeção. Família e imagens em movimento são, na medida da estética... e da ética, uma coisa só para o clã de artistas formado por Lucy e Luiz Carlos Barreto e transformado em produtora há 64 anos, com a estreia de “Garrincha, Alegria do Povo”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1962.

 

Divulgação - Garrinha, Alegria do Povo

Dali para adiante, os Barretos colecionaram prêmios às toneladas, com duas indicações ao Oscar (por “O Quatrilho”, em 1996, e por “O Que É Isso, Companheiro?”, em 1998), além de nomeações à Palma de Ouro de Cannes e ao Urso de Ouro da Berlinale. A Quinzaine des Cinéastes, na Croisette, sempre serviu de lar a seus filmes. O interesse (leia-se “respeito”) das plateias estrangeiras pela empresa se justifica, em parte, pelo fato de cada filme deles operar como se fosse uma expedição (afetiva, simbólica, mas, sobretudo, geográfica) a diferentes territórios deste nosso país. Foi com a LC que a expressão “Brasis” ganhou o colorido que o plural exige. Barretão deu essa tintura à nossa noção de país.

Divulgação - O Quatrilho

Filmaram no Sul... filmaram na Amazônia... filmaram em rincões nordestino onde pedra e poeira não esmoreciam a coragem sertaneja... filmaram Rios que os cartões-postais da Cidade Maravilhosa desconheciam... retrataram uma São Paulo para além da “deselegância discreta de suas esquinas”. Na LC Barretão fez cartografia... de humanidades... em forma de cinema. Virou lenda. Sua neta, Julia, agora prepara um documentário sobre seu legado, previsto para 2027. O rol de longas deles por vir inclui “Deus Ainda É Brasileiro”, canto de cisne de Cacá Diegues (1940-2025), ainda em finalização.

Acervo familiar - O charuto e o sorriso largo: duas marcas da personalidade cativante de Barretão