Macunaíma? Presente! De novo (e sempre)
Aliado cinéfilo da democracia nos anos de chumbo, o Cineclube vinculado à Associação Brasileira de Imprensa (ABI) renasce nesta sexta, com longa sobre o mítico jornalista Alberto Dines
Batizado com o nome do "herói de nossa gente" criado por Mario Andrade (1893-1945), o Cineclube Macunaíma fez História no Brasil entre 1973 e 1987, ampliando a relevância social (e cultural) da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que o gerou e o acolheu, ao se posicionar com coragem nas lutas políticas do país. Exibia-se ali o sonho de toda boa cinefilia, com tudo de que a democracia necessitava para resistir.
Não é à toa que o regresso desse tradicional espaço de troca de ideias (regado a imagens em movimento), nesta sexta-feira (24), às 18h, celebra um artesão da notícia famoso por leads recheados de autonomia crítica. "Alberto Dines - Vínculos de Liberdade" será o filme abre-alas desse recomeço. Sua sessão será no auditório (renovado com capricho) do nono andar da ABI. Ugo Giorgetti (de "Festa" e "Boleiros") assina a direção, driblando as estratégias habituais dos .docs biográficos para apresentar os feitos de Dines a partir de sua inquietude e de seu comprometimento com de independência intelectual.
"Foi no Cineclube Macunaíma, em plena ditadura, que eu descobri a obra de Eisenstein, vendo as projeções de 'Greve', de 'Ivan, O Terrível', de 'Outubro' e lembro de, no dia da sessão de 'O Encouraçado Potemkin', haver gente da Repressão tentando impedir que o filme fosse exibido", conta Octavio Costa, atual presidente da ABI. "Durante seus 14 anos de vigência na Associação, o Cineclube exibiu muito cinema a que a gente habitualmente não tinha acesso. Era cinema tcheco, húngaro, soviético..., mas sempre houve espaço para o cinema brasileiro. Lembro de um ciclo do Leon Hirszman importantíssimo. E a gente retoma agora com o trabalho do Ugo Giorgetti sobre um jornalista importantíssimo, que foi o Dines. É a escolha perfeita".
Alma, coração e vida do programa "Observatório da Imprensa", exibido pela TV Brasil de 1998 a 2016, Dines (1932-2018) ingressou na dinâmica profissional da reportagem a partir de 1952 e não demorou a fazer do ofício um meio de transformar a realidade (para melhor). Não à toa, pregava: "Todo jornalismo é investigativo, ou não é jornalismo". Escreveu livros seminais ("Morte no paraíso, a tragédia de Stefan Zweig", de 1981, é um deles) e brigou as muitas brigas que este país travou para preservar sua dignidade. É essa trajetória que capturou o olhar de Giorgetti, diretor-autor de uma obra poética com um pé na melancolia e outro no deboche, numa alquimia singular com a tradição neorrealista do cinema brasileiro, ao unir denúncia e ternura, trançando zoação e saudosismo.
Sua escalação pavimenta - com perfeição - o projeto da diretoria de cultura da ABI (pilotada por Iara Cruz) de dialogar com a nossa produção audiovisual. Esse mesmo fundamento colocou o Macunaíma de pé, lá atrás. Em 1973, sob o garrote do governo de farda verde oliva, uma iniciativa do jornalista Maurício Azedo, juntamente com craques como Fichel Davit Chargel, Luiz Paulo Machado, Ancelmo Gois, Elane Maciel e Jalusa Barcelos, fez nascer o cineclube na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Até o fim da década de 1980, o espaço foi um polo cultural vital, promovendo pré-estreias nacionais e hispano-americano, além de debates com a nata da crítica. Formou plateias, resistindo como palco político e artístico até 1987, quando encerrou suas atividades. Houve uma volta, online, na pandemia, numa ação com a ajuda do documentarista Silvio Tendler (1950-2025) e do crítico Ricardo Cota, estendida pelo empenho de Maria Luiza Franco Busse, que celebrou os 50 anos do Macunaíma, em 2023, exibindo "Azyllo Muito Louco" (1970) no Estação Botafogo, em celebração do trabalho de Fichel e outros pioneiros.
A renovação da sanha cineclubista do Macunaíma no auditório da ABI recoloca em cena uma experiência histórica que articulou poesia, direção de filmes, reflexão jornalística, análise política e defesa dos direitos humanos em um dos períodos mais emblemáticos da história brasileira. Agora, ao exibir filmes para as novas gerações e para os associados (de muito tempo), o Cineclube amplia o perímetro cinéfilo do Rio de Janeiro.
"Existe uma dissertação de Mestrado maravilhosa da (pesquisadora) Claudia Moretz-Sohn, sobre o Cineclube Macunaíma (chamada "Uma História de Resistência"), na qual ela levanta todos os filmes que foram exibidos lá, numa recuperação meticulosa do que vivemos", diz Octavio, com a esperança de que a ABI possa exibir filmes quinzenalmente. "Agora que nós colocamos uma tela retrátil de qualidade e reformamos o auditório, não há razão para não manter o Macunaíma ativo".
SERVIÇO
CINECLUBE MACUNAÍMA
Projeção inaugural com "Alberto Dines - Vínculos de Liberdade"
Auditório da ABI (Rua Araújo Porto Alegre, 71, 9º andar) - Centro)
24/7, às 18h
Grátis