Um (Colman) Domingo de luz

Um dos destaques do 'Dia D de Spielberg', astro que viveu o pai de Michael Jackson na biopic dirigida por Antoine Fuqua, recém-chegada à marca do bilhão, vive fase de apogeu nas telas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Transformado em Joe Jackson, após um vasto trabalho prostético de caracterização, Colman Domingo desafiou maniqueísmos

Existe uma ironia curiosa nas escolhas profissionais que hoje levam Colman Domingo a ser um holofote de excelência no cinema, aos 56 anos. Em setembro de 2024, quando "Sing Sing" ("Sing Sing") emocionou o Festival de Toronto e consolidou seu segundo caminho consecutivo rumo a uma indicação ao Oscar, ele defendia um homem preso injustamente, que buscava recuperar a dignidade pela arte. Dois anos depois, vive outro personagem encarcerado... mas, agora, numa prisão muito diferente... a da ganância: Joseph Jackson.

E Coube ao ator dar vida ao patriarca de um clã de aves canoras de onde brotou o maior fenômeno da música pop do século XX: Michael Jackson (1958-2009). O momento não poderia ser mais favorável, visto que "Michael", dirigido por Antoine Fuqua, acaba de ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais, tornando-se a cinebiografia musical de maior sucesso da história. O êxito eleva ainda mais o prestígio de Domingo, que vive uma das fases mais férteis de sua carreira.

Divulgação - 'Sing Sing' rendeu a Colman uma indicação ao Oscar, em 2025

Nascido na Filadélfia, vencedor de um Emmy, de um Olivier Award e de dezenas de distinções da crítica americana, ele soma duas indicações às estatuetas da Academia de Hollywood, por "Rustin" ("Rustin"), em 2024, e por "Sing Sing" ("Sing Sing"), em 2025. Agora, prepara-se para estrear nas telas brasileiras, em 13 de agosto, com "63 Horas de Pânico" ("Dead Man's Wire"), de Gus Van Sant, enquanto integra o elenco de "Dia D" ("Disclosure Day"), novo projeto de Steven Spielberg.

No turbilhão provocado pelo êxito de "Michael", Domingo conversou com jornalistas do mundo inteiro, via zoom. Coube ao Correio da Manhã dissecar sua proposta de interpretação ao compor Joe Jackson. "Minha porta de entrada para Joseph foi contextualizá-lo em seu tempo. Era um homem do Arkansas, operário de uma siderúrgica, pertencente à geração marcada pela Guerra do Vietnã. A maneira como ele entendia o amor pela família era muito diferente da visão contemporânea que temos", disse Colman.

Em vez de partir da imagem pública do pai abusivo eternizada por décadas de reportagens e depoimentos, Domingo preferiu buscar referências pessoais. "Olhei muito para meu padrasto. Ele fazia parte de uma geração que acreditava que o papel do homem era prover sustento, impor disciplina e dar estrutura à família, enquanto à mãe cabia oferecer carinho e acolhimento. Joseph entendia que amor significava rigor, estrutura e disciplina. Era assim que ele demonstrava afeto."

A chave da composição foi inverter o ponto de vista. "Quando passei a enxergar Joseph pelos olhos dele próprio, precisei vê-lo antes de tudo como um pai de nove filhos. Um homem que queria sustentá-los e que percebeu um talento extraordinário naquelas crianças. Talvez ele não tivesse muito a oferecer, mas queria extrair delas o melhor que podia. Se isso parece autoritário ou amoroso depende de quem observa. Na cabeça dele, estava fazendo o melhor possível." Assim, a leitura de Domingo foge deliberadamente do maniqueísmo: "Todo mundo gosta de transformar alguém em vilão", disse, sorrindo. "Mas todas as pessoas têm complexidade e nuances. Essa era justamente a tarefa."

Esse esforço exigiu meses de pesquisa. O ator descobriu um Joe Jackson muito diferente daquele cristalizado pela cultura popular. "O que mais me surpreendeu foi seu senso de humor", revelou. "Convivendo com Jaafar Jackson, com Marlon e com alguns netos, ouvi histórias deliciosas. Descobri vídeos em que ele brincava com os netos, inventava apertos de mão especiais e se divertia sendo aquele avô que todos conheciam. Vi um homem comum sentado ao lado da esposa Katherine, cercado pela família."

Para desaparecer sob Joe Jackson, Domingo enfrentou duas horas e meia diárias de maquiagem protética, alterando sobrancelhas, nariz, testa, contornos do rosto e até a cor dos olhos por meio de lentes especiais. "Era quase uma máscara. O desafio foi justamente atuar menos. Encontrar Joseph apenas pelo olhar", lembra o ator.

Universal Pictures - Na marca dos ETs de Spielberg, em 'Dia D'

Enquanto Antoine Fuqua lhe ensinava a pensar emocionalmente os movimentos de câmera durante as apresentações musicais, Spielberg lhe oferecia outra lição no set de "Dia D". "Steven conduz tudo com uma alegria contagiante. Antoine trabalha em silêncio e intimidade com os atores. Os dois me ensinaram muito sobre como a câmera pode dançar junto com as emoções", explica o astro, que volta este ano às telas com o suspense "An Innocent Girl", sob a direção do espanhol Jaume Collet-Serra.

Com "Michael" transformado num fenômeno global e uma continuação já confirmada, Domingo acredita que o sucesso vai além da nostalgia.

"Precisávamos de um filme que reunisse as pessoas novamente. A música continua sendo um dos maiores conectores da humanidade", celebra Colman. "Podem dizer muitas coisas sobre Michael Jackson, mas ninguém pode negar o impacto permanente que ele teve na nossa cultura. É isso que está levando gerações diferentes ao cinema para celebrar juntas".