O riso, enfim, voltou
Fenômenos populares como 'O Diabo Veste Prada 2' e 'Todo Mundo Em Pânico' devolvem a comédia ao topo das paradas, com reforços da China e da França
Ostentando dois longas-metragens cuja arrecadação passou de US$ 1 bilhão cada ("Super Mario Galaxy" e "Michael"), a lista dos maiores faturamentos cinematográficos do ano em venda de ingressos - em números contabilizados de janeiro até a última segunda - traz, pela primeira vez, em anos, duas comédias. O quarto lugar desse ranking, atrás só da dupla de bilionários supracitada e de "Toy Story 5", está "O Diabo Veste Prada 2", que, à força de Meryl Streep, arrecadou US$ 688 milhões. Foi mais que o dobro da receita feita pelo "The Devil Wears Prada" original, há 20 anos: US$ 326 milhões.
Em latitudes distante de Hollywood, na China, uma chanchada automobilística, "Fei chi ren sheng 3", dirigida por Han Han e traduzida no Ocidente como "Pégasus 3", contabilizou US$ 656,5 milhões, mobilizando basicamente sua própria pátria e terrenos asiáticos.
A alegria de um gênero que andava em tempos de vacas magras, acossado pelo politicamente correto, não se limita ao Top Tem.
Em 15° lugar (e subindo), com US$ 228,1 milhões está a farofa "Todo Mundo Em Pânico" ("Scary Movie"), do clã Wayans, retomando uma trilha de paródia que foi iniciada 26 anos atrás. O oceano de palavrões em seu roteiro e a aposta em heróis tortos, como o maconheiro profissional Shorty (papel de Marlon Wayans, do fenômeno "As Branquelas"), valeu à produção saraivadas de críticas azedas.
Esse azedume entre resenhistas americanos e o nariz torcido da ala woke só fizeram fomentar a procura do público por uma aula de ironia avessa a mimimis.
Há uma semana, no Brasil, as narrativas cômicas ganharam o reforço de uma produção que, a julgar pela acolhida calorosa das plateias, pode subir nesse pódio de longas que faturam babas: "O Convite" ("The Invite"), de Olivia Wilde. É uma trama sobre um jantar entre vizinhos. É um jantar fomentado pelo fato de os moradores do andar de cima transarem feito coelhos... ruidosamente... e os anfitriões não se tocarem mais. No piso de baixo vivem o professor de Música Joe e sua esposa, Angela (hoje uma dona de casa), com uma filha de 12 anos, que nunca vemos. Em cima, moram a sexóloga espanhola Pina e o bombeiro Hawk. Respectivamente, o elenco que dá vida a essas figuras inclui Seth Rogen, a própria Olivia, uma Penélope Cruz de cabelos louros e um Edward Norton em estado de graça. No pavimento dessa experiência sobre escuta, num tempo de ruídos, está um dos dramaturgos de maior viço do teatro popular nos anos 2010 e 2020: o catalão Cesc Gay, artista que faz do cotidiano um campo de batalha... para rir, em cartaz também na Netflix com "53 Domingos".
"Escrever é saber dominar as caricaturas relativas às representações do excesso, seja o excesso de dor ou da euforia", disse Cesc, ao Correio a Manhã, numa entrevista por telefone ao levar ao Festival de San Sebatián seu filme "Sentimental" (2020), adaptação da peça de sua autoria "Els Veïns De Dalt" ("Los Vecinos De Arriba"), que serviu de base para "O Convite".
Neste exato momento, há uma outra versão dela em curso na Bélgica, "De Bovenburen", com direção de Simone van Dusseldorp, e há uma adaptação em filmagem em Portugal, com o título "O Pecado Mora Em Cima" e direção de Rui Pedro Sousa. Sabe quem está cena? Os eternos Caco Antibes e Magda: Miguel Falabella e Marisa Orth. Todas essas versões apostam no riso frouxo, ainda que pontuado de dor. São estratégias que a comédia buscou para sobreviver, diante de um patrulhamento pesado.
É difícil crer, mas o filão que nos deu de Dercy Gonçalves a Will Ferrell há tempos não se comunicava mais com as multidões via telonas. Basta ver o que se dá no Brasil. Aqui, onde a chanchada foi filão imperial nos circuitos - matéria essencial para a nossa formação cinéfila, dos anos 1930 aos 60 -, o último grande feito da seara da gargalhada soma dois anos: "Minha Irmã e Eu" (2023), com Ingrid Guimarães e Tatá Werneck, que vendeu cerca de 2,2 milhões de tíquetes. Em 2024, "Os Farofeiros 2" arranhou essa mesma média, ficando pouca coisa atrás. De lá para cá, até pintaram tramas engraçadas, aqui e ali, mas nada com tamanha força, vide o nosso campeão do ano, "Velhos Bandidos", que mal chegou a 500 mil pagantes.
Em Hollywood então, até o bonde de "O Diabo Veste Prada 2" e dos Wayans voltar, a risada raramente se fez blockbuster, brilhando mais nas plataformas digitais. Os streamings estão cheios de graça, como comprova o recente e imperdível "Bola Pra Cima", de Peter Farrelly (codiretor de "Debi & Loide"), hoje na Prime Video, que usa o Brasil e o futebol, em tom de Copa do Mundo, para criar uma trama mucho loca com Mark Wahlberg e Paul Walter Hauser.
A maneira como esse longa-metragem retrata a geografia do Rio de Janeiro (subvertendo as nossas altitudes e latitudes) e caricatura a população brasileira seria destroçada se "Balls Up" (título original) fosse a circuito, sob a guilhotina afiada da correção política e das patrulhas ideológicas. No digital, contudo, ele gruda no olhar de assinantes, na quietude do lar, no sapatinho... onde o cancelamento não chega.
Antes que você, leitora ou leitor, fale em "Se Beber, Não Case" - que custou US$ 35 milhões, faturou US$ 469 milhões e ainda papou o Globo de Ouro de Melhor Filme Cômico -, atenção: o longa-metragem que consagrou o diretor Todd Philips é de 2009, e suas duas continuações, menos notáveis, de 2011 e 2013. A última vez em que um estúdio hollywoodiano viu uma trama cômica driblar a concorrência dos blockbusters de super-heróis, de animações Pixar e aventuras à la "Transformers" ou "Top Gun: Maverick" foi em 2012, quando "Ted", de Seth Macfarlane, que custou US$ 50 milhões, faturou US$ 549 milhões pelo mundo afora.
Teve ainda "Missão Madrinha de Casamento" (2011), uma comédia milionária, que chegou a disputar estatuetas do Oscar. Fez de Melissa McCarthy uma estrela. Mas nem ela consegue mais formar filas nas portas dos cinemas pra ver uma narrativa engraçada.
Em 2025, "Corra Que A Polícia Vem Aí!" meteu as caras, renovando a estética da paródia, com o apoio de Liam Neeson para homenagear Leslie Nielsen (1926-2010). Deu certo? Sim. Faturou US$ 102 milhões. Porém isso era menos do que se esperava e menos do que seu orçamento, em torno de US$ 42 milhões, necessitava para emplacar um bom lucro. Valeu o esforço. Valeu por ter peitado as patrulhas.
Elas são ferozes. Os milhões que a comédia americana registrava nos anos 1980, sendo picante ("A Última Festa de Solteiro") ou abilolado ("Top Secret"), e nos anos 1990, com grifes estelares (caso de Jim Carrey, em "Débi & Lóide" ou "O Mentiroso") ou com debates comportamentais (caso de "American Pie"), sumiram. Houve alguma migração para as séries no streaming, vide a bombada "Leanne", pepita da Netflix.
Lá, no grande N do streaming, Adam Sandler fez seu ninho. Revelado na TV, conhecido pelo humorístico "Saturday Night Live", ele deu um pontapé em seus concorrentes de prestígio (Carrey e Robin Williams) em 1998, ao emplacar um sucesso inesperado nas telonas: "O Rei da Água". Dali pra diante, tudo o que ele fez entre 1999 ("O Paizão") e 2011 ("Esposa de Mentirinha") explodiu no gosto popular e passou da marca de US$ 100 milhões na arrecadação. Até uma obra-prima adorada pela crítica ele emplacou: "Como Se Fosse A Primeira Vez" (2004). Mas com a recepção áspera a "Cada Um Tem a Gêmea Que Merece", lançada aqui no carnaval de 2012, Sandler percebeu que era hora de mudar. Saiu do cinema e passou a ser um astro exclusivo da Netflix. No streaming, ele ampliou sua força com títulos como "O Halloween do Hub" (2020) e "Mistério no Mediterrâneo" (2019), este com a estrela da gargalhada Jennifer Aniston. No ano passado, tomou a Netflix para si com o delicioso "Um Maluco No Golfe 2". Até um cult (sério) ele protagonizou: "Joias Brutas", em 2019. Mas o êxito contínuo de Sandler já não inclui as salas exibidoras.
Essa transformação foi tão grande que o recém-encerrado Festival de Buenos Aires, o BAFICI, criou uma seção paralela chamada Comédia, para festejar a longevidade do humorismo no cinema. Lá estava a produção brasileira "O Rei da Internet", um thriller bem-humorado com João Guilherme e Marcelo Serrado.
Há uma razão histórica para essa mudança comportamental. Historicamente, toda a vez que o mundo entra num conflito bélico coletivo, como a I e a II Guerra, a comédia sobe. A carreira de um gênio como Frank Capra (1897-1991) foi fruto desse estado de coisas, em que a risada serve de analgésico ao temor. "A Felicidade Não Se Compra", lançada por Capra em 1946 cresceu no imaginário cinéfilo mundial no pós-guerra, como refluxo dos horrores da batalha contra Hitler, evocando a necessidade de um filme de celebração do amor familiar. Mas hoje, mesmo com os massacres no Irã, a Guerra da Ucrânia e o conflito feroz na Palestina, o assombro do planeta passa pelas vias econômicas, por colapsos financeiros que alimentam a presença de políticos conservadores no Poder. Em tempos assim, como se viu, por exemplo, no crack da Bolsa de 1922, a comédia cai e os filmes de monstro e os suspenses noir (pautados na ambiguidade moral) crescem. É o que vivemos hoje em Hollywood. É contra esse percalço da História que Meryl Streep e Anne Hathaway e seu hilário "O Diabo Veste Prada 2" lutam.
Na Europa, a Itália é um dos países que mais apostam em comédias, sempre numa linha de chanchada. Checco Zalone é o senhor da graça por lá, estrelando tramas popularescas como "Buen Camino" (2025), hoje na Netflix. Ninguém cultiva tanto as tramas cômicas do que o cinema francês, que viu "Marsupilami", aventura cômica de Philipe Lacheau, somar 6,1 milhões de pagantes. Não por acaso, quem abriu o 79° Festival de Cannes, foi um roteiro para fazer multidões rirem: "La Vénus Électrique", de Pierre Salvadori. Teve comédia lá, como "A Riviera Não É Aqui", que vendeu 20 milhões de ingressos, em 2008.
No Brasil, a partir do êxito de "Se Eu Fosse Você", que vendeu 3,6 milhões de ingressos em 2005, a comédia encontrou espaço nobre nas telonas, inventando até um subgênero pra si, a neochanchada, caracterizada por seu humor escancarado, sem sutileza, graficamente explícito nas piadas, ao analisar as peripécias das classes C e D que emergiram na primeira Era Lula. Uma série de fenômenos, como "Até Que a Sorte Nos Separe" (2012-2015) ou "De Pernas Pro Ar" (2010-2019), consagraram novas fórmulas do riso. Em 2013, Paulo Gustavo (1978-2021) foi responsável por uma revolução nos cinemas, desafiando tabus do conservadorismo nacional, ao aparecer vestido de mulher à frente da franquia "Minha Mãe É Uma Peça". O primeiro rendeu 4.582.788 tíquetes. O segundo foi visto por 9.307.612 pagantes. O terceiro superou todas as expectativas dos analistas de mercado e somou 11.608.254 espectadores.
Aí veio a pandemia. Naqueles tempos de máscaras e confinamento, só duas comédias fizeram sucesso à altura do esperado: "Tô Ryca! 2" (2022), com Samantha Schmütz, e "Desapega! O Filme", com Maisa e Glória Pires. Nos streamings, as parcerias do roteirista Paulo Cursino com o diretor Roberto Santucci e o ator Leandro Hassum (nosso Peter Sellers), tipo "Tudo Bem no Natal Que Vem", seguem brilhando - mais do que em circuito. Nas plataformas, Hassum não perde a majestade do gênio que é.
Santucci volta este ano com "Os Farofeiros 3" e "Picaretas Não Vão Pro Céu" e pode brilhar com os dois. A partir de 3 setembro, o Brasil pode encher os pulmões da comédia de ar de novo com "Se Eu Fosse Você 3" e "Minha Melhor Amiga", juntando as grifes de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli.