Ignácio de Loyola Brandão ganha documentário dirigido pelo filho
Longa reúne entrevistas, arquivos inéditos e imagens raras que atravessam a vida e a obra do escritor
O escritor Ignácio de Loyola Brandão, autor de mais de 40 livros e cinco vezes vencedor do Prêmio Jabuti, ganha um documentário que chega aos cinemas em 30 de julho. "Não Sei Viver Sem Palavras", dirigido pelo filho André Brandão — fotógrafo e cineasta —, é uma investigação pessoal sobre a vida e obra do autor nascido em Araraquara (SP) em 1936, que acumula romances, crônicas, livros infanto-juvenis, biografias, relatos de viagens e peças de teatro em seu currículo.
Ignácio, hoje com 89 anos, é nome central da literatura brasileira desde os anos 1960. É conhecido por obras como "Zero" (1975), romance experimental que foi publicado primeiro na Itália por causa da censura da ditadura militar, e "Não Verás País Nenhum" (1981), distopia que retrata uma sociedade devastada ambientalmente. Além dos cinco Jabutis (2000, 2008, 2015, 2017 e 2021), recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra em 2016 e a comenda da Ordem do Ipiranga em 2010. Seus livros foram traduzidos para inglês, alemão, italiano, espanhol, húngaro, checo e coreano.
A ideia do filme nasceu naturalmente. Durante a pandemia, quando André voltou a morar com o pai, começou a filmar o cotidiano entre eles sem pretensões maiores. Depois percebeu que aquele material poderia virar documentário. "O filme é muito caseiro, feito a poucas mãos", resume o diretor. A produção envolveu oito entrevistas de duas a três horas cada, gravadas principalmente na casa de Ignácio, mas também em locais significativos de sua trajetória: o bairro Praça Roosevelt, onde morou dez anos após chegar em São Paulo; a biblioteca municipal; e a estação de trem de Araraquara.
O que torna "Não Sei Viver Sem Palavras" particularmente rico é o material de arquivo. Ignácio mantém uma coleção meticulosamente organizada em seu escritório: caixas com envelopes contendo fotos, cartões postais, programas de peças e exposições, cada um acompanhado de anotações explicativas do próprio escritor. Mas o achado mais significativo foram 38 rolos de Super-8 filmados por Ignácio durante os anos 1970 — imagens que incluem momentos da família, de São Paulo, de Berlim, e até do nascimento de André. Há também um conto escrito por Ignácio durante a internação da mãe de André na maternidade, intitulado "A Montanha Mágica - O Nascimento de André", além de cartas que o escritor enviou ao filho quando este morou fora do Brasil entre 1991 e 1997. Todo esses material integra da narrativa do filme.
André enfatiza que a construção foi coletiva. Além dele, o codiretor Ricardo Carioba, o montador Moraga e os roteiristas André Collazzo e Vivian Brito contribuíram para dar forma ao material. O resultado é um documentário de 81 minutos que equilibra intimidade e distância crítica. "É um pouco uma simbiose, uma passagem de bastão", descreve André. "Ele sempre quis fazer um filme, mas nunca fez. Neste, além de personagem, ele filmou uma parte importante do material e o texto é inteiro dele — as entrevistas, os trechos de livros. Faz com que o filme seja também em parte dele. É algo sutil mas muito forte ao mesmo tempo", comenta.
O documentário já passou por festivais importantes: teve sua première no Festival do Rio em outubro de 2025 e foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, também em outubro.