Marcos Santuário: 'Cada filme escolhido para Gramado representa dezenas de outros igualmente relevantes'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Marcos Santuário, Curador do Festival de Cinema de Gramado

Com a leveza bem-humorada de um David Niven, mas de sangue gaúcho, com brasilidade na veia, Marcos Santuário tem anunciado as atrações do 54° Festival de Gramado, da semana passada para cá, com a perseverança de quem vem cartografando renovações na autoralidade nacional, nas telas, há 15 anos. Em 2012, esse jornalista e crítico de cinema de Caixas do Sul - que é editor-assistente de Cultura do diário "Correio do Povo" (RS) - foi convocado para integrar a equipe curatorial da maratona competitiva cinéfila mais popular do país. Não saiu mais do posto.

Seria uma perda inestimável se saísse. Afinal, sem a acurada visão dele, a micareta cinematográfica sulista não teria se reinventado a ponto de - só da pandemia para cá - ter revelado joias do Acre, de Goiás, do Mato Grosso do Sul, além de ter inaugurado a carreira brasileira de cults como "O Som ao Redor" (2012) e "Marte Um" (2022). Santuário entrou para a curadoria ao lado de dois titãs, ambos radicados no Infinito e na nossa saudade (Rubens Ewald Filho e José Wilker), apoiado na pujança analítica de suas resenhas (marcadas por seu delicado manuseio dos ditongos, tritongos e hiatos na arte de escrever) e também na sua aguerrida dedicação ao ensino. Leciona Produção Audiovisual e Jornalismo na Feevale, em Novo Hamburgo, onde formou cabeças a granel, sem formatar suas turmas com algoritmos. Desde que entrou para o Olimpo gramadense, Santuário vem selecionando concorrentes ao troféu Kikito em parcerias com (outras) mentes brilhantes. Atrizes de versatilidade GG, Ana Flavia Cavalcanti e Camila Morgado hoje compõem com ele o comitê de seleção de Gramado.

Esta tarde, numa cerimônia em São Paulo, no Hotel Laghetto Stilo, será feito o anúncio das escolhas dessa trinca acerca dos longas documentais e dos curtas-metragens que estarão em disputa de 14 a 22 de agosto na serra gaúcha. No papo a seguir, Santuário explica ao Correio da Manhã os rumos que o deus-sol dos Pampas, o Kikito, iluminou em sua vida.

Como você explica a sua permanência de 15 anos na curadoria de Gramado?

Marcos Santuário - Entro em cada edição sabendo que esse não é um lugar permanente. Desde 2012, quando José Wilker, Rubens Ewald Filho e eu fomos convidados a pensar um novo olhar para o festival, a proposta era: criar um desenho curatorial que trouxesse para perto o cinema artisticamente potente brasileiro e, ao mesmo tempo, atrair intérpretes, diretores e produtores que tivessem reconhecimento do público, da crítica e do mercado para cruzar o tapete vermelho. O festival abraçou essa ideia e, mesmo com a renovação da equipe de curadoria, ela permaneceu. Essa continuidade mostra que o modelo segue fazendo sentido para Gramado.

Qual foi o caminho que o levou até a curadoria do festival?

Nasci em Caxias do Sul, a cerca de 40 quilômetros de Gramado, e frequento aquela cidade desde criança. Depois vivi oito anos fora do Brasil, passando por 13 países latino-americanos em um movimento cultural ligado à música. No Uruguai, concluí o curso de Jornalismo e mergulhei no trabalho da Cinemateca Uruguaia. Quando voltei ao Brasil, estabeleci uma atuação como jornalista cultural e crítico. O convite para integrar a curadoria veio justamente pelo olhar que eu exercia sobre o festival: reconhecer seus acertos e apontar, de forma construtiva, aquilo que poderia melhorar.

O que representa hoje a competição de documentários dentro do Festival de Gramado?

A mostra documental encontrou um espaço muito importante no audiovisual brasileiro. Havia o desejo antigo de separar ficção e documentário, e isso finalmente se concretizou. O Brasil produz documentários de altíssimo nível, e percebemos um crescimento constante nas inscrições de obras inéditas. Muitos filmes que chegam até nós sequer passaram pelo "É Tudo Verdade", que é uma das maiores vitrines do setor. Isso demonstra que Gramado também passou a ser visto como uma primeira vitrine para esse tipo de produção.

Como é o desafio de selecionar apenas quatro documentários?

É uma responsabilidade enorme. Não escolhemos quatro porque os demais não tenham qualidade, mas, sim, porque o festival tem um limite de espaço. Procuramos fazer com que cada obra represente uma vertente importante da produção brasileira. Quando selecionamos filmes sobre gênero, raça, música ou povos originários, por exemplo, estamos tentando refletir a diversidade do documentário nacional... e do próprio país. Dessa forma, cada filme escolhido para Gramado representa dezenas de outros trabalhos igualmente relevantes.

Qual filme despertou em você um orgulho especial pelo cinema gaúcho?

Eu sou, de certa forma, contemporâneo do Carlos Gerbase, um grande cineasta que também é professor - assim como eu. Há um filme dele, "Tolerância", que foi um marco para mim. Ali percebi a força da produção gaúcha, sua criatividade e capacidade de dialogar com o restante do cinema brasileiro. A partir daquele momento passei a olhar a produção do Rio Grande do Sul com muito carinho, mas sem fazer concessões regionalistas.

Gramado é, também, uma instância de celebração da memória. Qual é a tua memória mais antiga como cinéfilo? Em que sala do Rio Grande do Sul você viu seu primeiro filme?

Ainda adolescente, eu saía de Caxias do Sul para passar tardes inteiras no Cinema Cacique, em Porto Alegre. Via clássicos como "Casablanca" e "O Encouraçado Potemkin", muitas vezes sem compreender totalmente aqueles filmes, mas já intuía que havia ali uma grandeza que eu queria aprender a entender. Essas sessões, seguidas das conversas com meu irmão durante a viagem de volta, foram decisivas para a minha formação cinéfila.