Depois de horas...de violência, veio o amor
Cinemateca do MAM revisita nesta quarta um raro flerte de Martin Scorsese com tramas românticas, 'A Época da Inocência', rodado no início dos anos 1990 e coroado com o Oscar
Consagrado há 50 anos com uma Palma de Ouro por sua imersão na violência endêmica ("Taxi Driver") e celebrado nas décadas seguintes por seus estudos sobre a fé ("A Última Tentação de Cristo", "Kundun" e "Silêncio"), Martin Scorsese fez filmes seminais de máfia ("Os Infiltrados", "Cassino", "Os Bons Companheiros") e ainda filmou a granel a decadência das ruas da América ("Depois de Horas", "Vivendo no Limite"). Houve um momento de sua carreira, no comecinho da década de 1990, em que ele decidiu flanar por outra praça, a do amor romântico, ao levar aos cinemas o livro "The Age of Innocence", de Edith Wharton.
Extraiu de Daniel Day-Lewis uma atuação avassaladora no papel de um advogado bifurcado entre dois quereres, vividos por Michelle Pfeiffer e Winona Ryder. Essa faceta ultrarromântica da filmografia do mítico cineasta de Nova York será revistada em tela grande nesta quarta-feira (15), às 18h30, quando a Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) exibe "A Época da Inocência".
Essa produção de 1993 que ocupa um lugar singular na carreira de Scorsese. Nele, o diretor (hoje com 83 anos) mergulha nas convenções da aristocracia nova-iorquina do século XIX para construir um drama de paixão, marcado pelo peso das aparências e o rigor das normas sociais.
Adaptado por Scorsese em parceria com Jay Cocks a partir do romance homônimo publicado por Edith Wharton (1862-1937) em 1920, o longa cartografa as angústias de Newland Archer (Day-Lewis), um respeitado advogado da alta sociedade que está prestes a se casar com May Welland (Winona). A condessa Ellen Olenska (Michelle, em estupenda atuação) vai mexer com seus brios e desejos. Ela é prima de sua noiva, que regressa aos EUA depois de um casamento fracassado na Europa e transforma a vida do sujeito num conflito entre o dever e o querer. Archer descobre em Ellen uma mulher independente e pouco disposta a se submeter aos códigos sociais que regem a elite americana, enquanto percebe que o casamento planejado representa a manutenção de uma ordem da qual jamais havia duvidado.
Scorsese transforma esse triângulo amoroso num estudo sobre repressão emocional. O cineasta substitui explosões de violência por olhares, silêncios e gestos mínimos, revelando um universo em que qualquer transgressão pode significar o banimento social. O refinamento visual da produção, dos figurinos aos cenários e à direção de arte, contribui para dar forma a um mundo de luxo cuja elegância esconde sentimentos intensos e permanentes renúncias.
Winona foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por sua composição da aparentemente ingênua May Welland. O filme ainda conquistou o Oscar de Melhor Figurino e recebeu indicações nas categorias de Roteiro Adaptado, Direção de Arte e Trilha Sonora Original, além de render a Miriam Margolyes o BAFTA de atriz coadjuvante.
Em sua carreira comercial, "A Época da Inocência" arrecadou cerca de US$ 68 milhões em todo o mundo e acabou consolidando-se como uma das obras mais elegantes de Scorsese, provando que sua filmografia sempre foi maior do que os retratos da criminalidade que ajudaram a definir sua imagem pública. O cineasta dedicou o longa ao pai, Luciano Charles Scorsese (1913-1993), falecido pouco antes da estreia.
Um outro Scorsese tem corrido o mundo, desde abril. Conhecido como "o filme que deu a Paul Newman seu único Oscar", "A Cor do Dinheiro" ("The Color Of The Money", 1986) deu lucro, 40 anos atrás: custou US$ 14,5 milhões e faturou US$ 52,2 milhões. Vai faturar mais um troco agora que inicia uma volta ao circuito, na celebração de suas quatro décadas, num regresso que começou via Buenos Aires, na reta final do BAFICI. Há três meses, o festival da Argentina - um dos mais prestigiados da América Latina na atualidade - rendeu-se ao jovem Tom Cruise num embate contra o veterano Newman (morto em 2008, aos 83 anos) numa mesa de sinuca, tendo Scorsese como árbitro - na telona.
Este ano, o realizador já deu as caras, como ator, em "Consequência" ("Outcome"), ao lado de Keanu Reeves. É um filmaço, centrado na relação entre um ator em crise e seus entes queridos, e está na Apple TV, podendo ser acessado via Prime Video. Além disso, Scorsese teve sua voz usada em "Star Wars: O Mandaloriano e Grogu", que estreou no dia 22 de maio. Integrou, assim, o universo criado por seu amigo George Lucas.
Até o Natal deste ano, Scorsese deve lançar "What Happens at Night". Seu elenco tem Jennifer Lawrence, Mads Mikkelsen e o xodó do cineasta, Leonardo DiCaprio. É uma adaptação de um romance de Peter Cameron. Em suas páginas, um casal americano visita uma cidade europeia coberta de neve. Num misterioso hotel, conhecem figuras das mais estranhas: uma cantora cheia dos enigmas, um empresário de índole duvidosa, um curandeiro. A realidade se confunde com o devaneio... e com o pesadelo... naquele espaço.
No próximo dia 23, o MAM abre espaço para o que promete ser um dos eventos do ano no Rio: a retrospectiva do titã lusitano Manoel de Oliveira (1908-2015), com cults como "Francisca", de 1981, e "Aniki Bobó", de 1942.