Liceu de cinema
Grupo Estação celebra o legado de Ettore Scola, dez anos depois de sua morte, ao projetar 'Nós Que Nos Amávamos Tanto', sucesso do diretor que educou o olhar de gerações
Indicado oito vezes à Palma de Ouro de Cannes, onde ganhou a láurea de Melhor Direção por "Feios, Sujos e Malvados", há 50 anos, o italiano Ettore Scola (1931-2016) partiu há uma década sem pedir licença à saudade da gente. Teve filmes indicados ao Oscar ("Um Dia Muito Especial", "O Baile", "A Família"), entupiu salas de projeção aqui no Brasil com "A Viagem Do Capitão Tornado" (1990) e fez história como um signo de comédias tristes. Escrevia qual um Midas, mesclando inquietude política, afetividade e marotices.
Rodou 41 filmes, entre 1964 ("Fala-me De Mulheres") e 2013 ("Que Estranho Chamar-se Federico"). Foi sucesso entre o público pagante e a crítica mais feroz. Entrou para um Panteão raro de diretores cuja obra é lotada de longas-metragens considerados "o filme da vida" de muita gente. Aquele que mais desponta na preferência do público... numa preferência sentimental... será exibido no Estação Claro Rio nesta segunda-feira, às 21h, numa espécie de tributo póstumo a esse gigante da realização: "Nós Que Nos Amávamos Tanto" ("C'Eravamo Tanto Amati", 1974). Venceu o César, da Academia Francesa, de Melhor Filme Estrangeiro, e ganhou O Troféu de Ouro no Festival de Moscou. É o tipo de longa que nasceu para ficar "pra sempre".
"Eu passei anos encarando os contratempos que a Itália impõe a diretores que almejam contar histórias sem se alinhar a esquemas e sem obedecer às ordens do mercado e fui parando, pouco a pouco, até aparecem jovens, à minha porta, que traziam roteiros para ser debatidos ou traziam a opção de me financiar, com plena liberdade. Assim fui e segui, com a crença de que, apesar de nossos problemas, o meu país deixou um cinema vivo", disse Ettore, em uma de suas últimas entrevistas, feita pelo Correio da Manhã em 2015, quando ele fez uma adaptação de "La Bohème" para a TV italiana.
No ano seguinte, "Nós Que Nos Amávamos Tanto" passou nas areias de Cannes, na seção Cinéma De La Plage. Em sua trama, a fronteira tênue que separa amizade e amor se esgarça na vida de Gianni (Vittorio Gassman), Nicola (Stefano Satta Flores) e Antonio (Nino Manfredi), depois de lutarem nas tropas partidárias, na II Guerra, e amadurecerem juntos ideais fervorosos. Estão no momento em que inventariam tudo o que lhes deixou de ser (presente... importante). Tão logo a paz irrompe, eles seguem caminhos diferentes. Antonio é maqueiro no Hospital San Camillo, em Roma; Gianni torna-se um advogado de sucesso; Nicola leciona em Nocera Inferiore, casa-se e luta, como idealista, por um cinema que transforme a sociedade. Luciana (Stefania Sandrelli), aspirante a atriz que era a paixão de Antonio, arrebata o coração de Gianni, até ele se envolver com outra mulher, por interesse. Ocasionalmente... cada vez mais raramente, essas pessoas se encontram... lavando roupa suja. Depois de muitos anos, as frustrações que carregam alimentam confissões, briga e choro, sobretudo quando se dão conta de pertencer a uma geração incapaz de realizar seus projetos de transformação do mundo.
Responsável por arrecadação milionária, "Nós Que Nos Amávamos Tanto" influenciou cineastas em todo mundo. No fim dos anos 2000, era citado como um molde por diretores como Laís Bodanzky, Miguel Falabella, Carlos Alberto Riccelli e Carlos Reichenbach.
O ponto mais extraordinário do roteiro, escrito por Agenore Incrocci, Furio Scarpelli e pelo próprio Scola, está em utilizar o melodrama amoroso como porta de entrada para uma reflexão sobre três décadas de história italiana. A reconstrução econômica com a derrota fascista, a perda dos ideais da esquerda, a consolidação do capitalismo, o nascimento da televisão de massa e a transformação dos costumes aparecem filtrados pelas escolhas íntimas dos protagonistas. O resultado é um filme simultaneamente político e profundamente humano, onde a História nunca se impõe sobre os personagens, mas os atravessa silenciosamente.
Também é uma carta de amor ao próprio cinema. Scola multiplica referências aos mestres italianos, cita cenas clássicas, brinca com diferentes linguagens visuais e presta homenagem ao neorrealismo. Uma das sequências mais célebres reúne Vittorio De Sica (1901-1974), o realizador de "Ladrões de Bicicleta" (1948), interpretando a si próprio, num momento que celebra o legado neorrealista. Não por acaso, "Nós Que Nos Amávamos Tanto" tornou-se leitura obrigatória para cinéfilos e permanece entre os títulos mais celebrados da filmografia italiana.
No elenco, Stefano Satta Flores faz de Nicola um dos grandes intelectuais fracassados do cinema europeu. Stefania Sandrelli sintetiza, com rara delicadeza, as expectativas e frustrações de uma mulher que atravessa diferentes épocas sem jamais deixar de acreditar no benquerer.
Poucos cineastas souberam articular os códigos da comédia italiana com a elegância com que Ettore os combinava, numa crônica das relações, qual uma Comédia Humana. Seus filmes riem das fraquezas dos personagens, mas jamais riem deles, sem deixar de compreender a sua condição. Que achado do Grupo Estação exibir "Nós Que Nos Amávamos Tanto".