Brasil para a degustação do Leopardo de Ouro
Festival de Locarno reafirma laços históricos com a autoralidade brasileira ao escalar o pernambucano 'A Margem do Rio' em sua disputa principal e acolher longa de Ana Vaz em seção paralela
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Em Locarno, o Brasil é de casa, pelo menos nas mostras competitivas do festival que, há quase oito décadas, transforma, a cada mês de agosto, a pequena cidade suíça de língua majoritariamente italiana — situada a cerca de duas horas de Milão — em um dos mais efervescentes polos da cinefilia mundial. Desta vez, ou melhor, uma vez mais, o cinema nacional volta a marcar presença na competição pelo Leopardo de Ouro, prêmio máximo do evento conquistado em 2022 por "Regra 34", da carioca Julia Murat: seu representante na briga por esse troféu, entre 5/8 e 15/8, será "A Margem do Rio".
Ligado à efervescência de Pernambuco nas telas, o longa-metragem é dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, que filmaram em coprodução com a Alemanha. Essa dupla é responsável por "Caranguejo Rei" (2019) e "Queimando Por Dentro" (2024) e, enquanto construíam uma parceria autoral, os dois integraram a equipe de "Bacurau" (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, experiência decisiva para a formação de um olhar cinematográfico que alia rigor visual, interesse pelas tensões sociais do Nordeste e uma permanente abertura ao fantástico.
Nas primeiras imagens divulgadas no site de Locarno, que descreveu "A Margem do Rio" como um diálogo com o cinema erótico, um jovem de uniforme (Caique Copque) caminha com um carrinho cheio de produtos de limpeza até um local onde uma água caindo compulsivamente num escoadouro gradeado evoca um clima de mistério. Ítalo Martins, Artia Lauandah, Renna Costa, Robério Diógenes e Ísis Broken integram o elenco dessa narrativa de forte dimensão sensorial, que parece confirmar o interesse autoral de Farias e Enock por personagens em conflito com a paisagem e com a própria identidade. A presença do filme na competição internacional reafirma a força da produção nordestina num dos festivais mais prestigiados do circuito autoral.
Integrante do chamado G7 dos grandes festivais internacionais — ao lado de Cannes, Veneza, Berlim, Roterdã, Toronto e San Sebastián —, Locarno mantém uma longa relação com o cinema brasileiro. Julio Bressane passou mais de uma vez pelo evento, enquanto "Pixote - A Lei do Mais Fraco" conquistou ali, em 1981, o Leopardo de Prata, primeiro grande reconhecimento internacional da obra-prima de Hector Babenco. Três anos depois, Murilo Salles recebeu o Leopardo de Bronze por "Nunca Fomos Tão Felizes". Já neste século, o festival premiou produções como "Luz nas Trevas" (2010), de Helena Ignez, "Era Uma Vez Brasília", de Adirley Queirós, "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra, e "A Febre", de Maya Da-Rin, consolidando a cidade suíça como uma das mais receptivas vitrines internacionais para a inventividade do cinema brasileiro. Giona, desde que assumiu a chefia dessa maratona, deu a maior moral para nossos filmes, destacando-se o fato de que, em sua primeira edição como gestor, o curta-metragem carioca "Fantasma Neon", de Leonardo Martinelli, foi laureado.
Contam-se nos dedos os diretores artísticos de festivais — sobretudo daqueles classificados como de categoria AA — capazes de discorrer com igual entusiasmo sobre o cinema chinês mais radical e, na frase seguinte, citar um título pouco lembrado da filmografia de Sylvester Stallone, como "F.I.S.T." (1978), drama sindical dirigido por Norman Jewison. Giona A. Nazzaro é um deles. Crítico, pesquisador e curador apaixonado, ele reinventou Locarno desde que assumiu sua direção artística, em 2021, enfrentando um desafio cronológico que poucos conseguiriam contornar: situado entre Cannes e Veneza no calendário internacional, o festival costuma perder filmes tanto para quem disputa a Palma de Ouro quanto para quem prefere estrear em busca do Leão de Ouro. Ainda assim, graças à sua capacidade diplomática e ao prestígio conquistado junto à comunidade cinematográfica, Nazzaro fez de Locarno um destino obrigatório para autores como Aleksandr Sokurov, Lav Diaz, Naomi Kawase, Wang Bing e Radu Jude, além de ter convencido Brad Pitt a abrir a edição de 2022 com "Trem-Bala". Admirador confesso de Rogério Sganzerla, ele explicou ao CORREIO DA MANHÃ, logo após assumir o cargo, que "uma curadoria pode ser tudo, menos chata e previsível".
Foi exatamente essa filosofia que orientou a seleção da 79ª edição, marcada para acontecer entre 5 e 15 de agosto. O festival recebeu um recorde de 7.759 inscrições — quase 22% a mais do que em 2025 — e escolheu 233 filmes, sendo 103 estreias mundiais, oriundos de 69 países. Entre os 16 concorrentes de "A Margem do Rio, estão Hong Sang-soo, Denis Côté, Florin erban, Gurvinder Singh, Salvatore Mereu e Basil Da Cunha (realizador luso-suíço).
O Brasil amplia sua presença em Locarno também por meio da mostra Cineasti del Presente, dedicada a primeiros e segundos longas-metragens, onde entrou Ana Vaz, com "Hanabi (Fire Flower)". Sua inclusão reafirma a força de uma realizadora que vem construindo uma das filmografias mais experimentais e prestigiadas da produção contemporânea. A Piazza Grande, montada ao ar livre, exibirá o thriller "Paper Tiger", de James Gray, que tem Rodrigo Teixeira como produtor. Já na seção Fuori Concorso, o destaque é a estreia mundial de "Seize Moments de Ma Vie", novo trabalho do catalão Albert Serra, um dos cineastas mais influentes do cinema europeu contemporâneo.