Pitadas de dor num cardápio sem estereótipos
Um tiquinho antes de começar a pandemia, o texto teatral "Els Veïns De Dalt" lotou sessões a granel em Buenos Aires ao ser encenado com Diego Peretti, sob o título "Los Vecinos De Arriba", proliferando-se cinema adentro, depois de ser filmada pelo próprio Cesc Gay.
A versão americana, lançada em janeiro no Festival de Sundance, foi idealizada em 2022 e teria o casal Valerie Faris e Jonathan Dayton como seus realizadores, trabalhando com base em um roteiro concebido pela atriz Rashida Jones e o ator Will McCormack.
Originalmente, a trupe deles contaria com Amy Adams, Paul Rudd e Tessa Thompson. Depois de atrasos no processo de desenvolvimento do projeto, que se estenderam por três anos, Olivia Wilde apareceu e quis filmar, além de atuar, trazendo consigo o canadense Seth Rogen, um comediante e produtor hoje no ápice do prestígio por conta da série "O Estúdio". Com ele vieram Penélope Cruz e Edward Norton, a injetar frescor no quadro de desajustes e desatenções pintado por Cesc ao retratar falta de empatia nas relações.
Além de Rogen, Olivia importou de "O Estúdio" o diretor de fotografia Adam Newport-Berra, que lhe oferece elegância sinuosa em sua narrativa de planos e contraplanos. A montagem de Yorgos Mavropsaridis e Anthony Boys também amacia a engenharia de observação de falências que a dramaturgia oferece ao perceber o ódio acumulado entre Joe e Angela (papéis de Rogen e Olivia) ao longo de anos de indelicadezas e omissões. O arquétipo da latina em chamas que Penélope descasca, ao viver Pina, salva-se do estereótipo, desgrudando-se de um lugar comum histórico, na sagacidade de sua estrela ao driblar chavões.
A sequência acerca da pronúncia da palavra flan é um achado. Norton se agiganta também, só que mais pelos gestos, criando um sedutor plácido, que sabe usar a vulnerabilidade a seu favor. O estudo autoral de Cesc sobre os engasgos da masculinidade encontram nele tradução fina e acham em Rogen o Elo Perdido da virilidade. O musicista vivido por ele é pura queda, é só hipocrisia.
Esses sensos sobre identidade sexuais, que eram hilários no longa "Sentimental", dada a comicidade natural de Cesc encontram contornos mais rascantes (e dolorosos) na releitura de Olivia, que tem na trilha sonora de Devonté Hynes um analgésico. O emprego da canção "Our House", de Crosby Stills Nash and Young, é o golpe de misericórdia do longa.