Neochanchada até a medula

'Os Emergentes' junta um elenco estelar para discutir luta de classes e apostas ilegais numa dinâmica das comédias que, a partir dos anos 2000, levaram o direito ao consumo às telas

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Diferenças de classe social separam (e depois misturam) os casais de 'Os Emergentes'

Num momento de bilheterias nacionais magérrimas, em que toda e qualquer comédia com potência para lotar telas é bem-vinda, "Os Emergentes" chega ao circuito com ares de iguaria chanchadeira e fôlego para cativar plateias. Tirado do papel graças ao empenho da atriz e produtora Jennifer Setti, o longa-metragem foi rodado pelo sino-carioca Hsu Chien Hsin (pronuncia-se Xú Xien Xí), de "Desapega" (2023), e teve suas locações centrais num casarão na Barra da Tijuca. As filmagens foram realizadas em 2025, com base num roteiro escrito pelos atores Paulo Reis e Regiana Antonini. O script e o arder de Jennifer (uma das protagonistas) atraíram astros e estrelas de peso para o elenco, encabeçado por Alexandra Richter, Nelson Freitas e Paulinho Serra.

"Produzir cinema no Brasil sem incentivo público é muito difícil, mas esse filme nasceu graças a parceiros e amigos que acreditaram na ideia", diz Jennifer, um talento egresso de Campo Grande, na Zona Oeste, com a vivência cênica da trupe Tá Na Rua em seu currículo, que hoje transforma boas ideias em filmes (bons) a partir da In Setti Cultural, sua produtora. "O público vai encontrar muito humor, mas também vai sair da sala refletindo sobre as pessoas que muitas vezes passam despercebidas no nosso cotidiano e sobre os perigos das falsas promessas de sucesso".

Em "Os Emergentes", sob a luz da direção de fotografia de Silvia Gangemi, existe espaço para amar (de novo e até para sempre) na figura do casal de aristocratas falidos Beatriz (Alexandra) e Henrique (Nelson). Após perderem tudo o que tinham, eles são forçados a aceitar empregos como mordomo e governanta na mansão de seus antigos empregados - agora milionários. Os ricaços da vez são Letícia, mais conhecida como Pantera, e Inácio (vividos por Jeniffer e um hilário Paulinho Serra), que enriqueceram com Quentinhas. A Feijoada da Pantera é o signo da prosperidade de Letícia e seu companheiro, que passam a empregar a dupla que um dia eles trataram como chefes. Uma chefia bastante opressora.

Entre as figuras que cruzam com esses casais estão personagens vividos por Mônica Carvalho, Lucas Penteado, (um arrasador) Paulo Mathias Jr., Laura Proença, Junior Vieira, Catarina Dantas e um inspirado Nando Cunha.

Misturando sátira de costumes, humor físico e situações típicas da comédia de erros, essa neochanchada procura fazer da gargalhada uma porta de entrada para discussões sobre o Brasil contemporâneo, em especial o tema da luta de classes. As relações entre patrões e empregados domésticos, a proliferação das apostas ilegais (muito além das temidas bets) e a vulnerabilidade de quem acredita em promessas de enriquecimento fácil aparecem como pano de fundo de uma narrativa que pretende divertir sem abrir mão de um olhar social.

"A tela grande tem um poder de imersão único", diz Nelson Freitas. "Cada detalhe importa, da luz ao menor gesto do ator. É um trabalho extremamente exigente, mas que vale a pena justamente porque o resultado envolve completamente o espectador."

"O mais bacana aqui é o fato de humor entrar sem forçar graça", pontuou Alexandra, ao Correio, nas filmagens. "São dois personagens em situação cômica vivendo um drama".

"Os Emergentes" se encaixa nas raias da neochanchada. O filão que lhe abraça, a tal da "nova chanchada", ganhou esse nome em 2012, durante um acirrado debate do diretor de TV Maurício Sherman (1931-2019), a cineasta Betse de Paula e o diretor e produtor Marcelo Lafitte (1963-2019), na Caixa Cultural, sobre a herança das comédias carnavalescas feitas no Brasil (com Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Zé Trindade) sobretudo entre 1934 e 1962. Eram narrativas com sequências musicais, pautadas por machinhas. Porém, o que havia de mais rico, entre os números de canto e dança, eram crônicas de costumes nas quais artesões do humor mediavam conflitos sempre vetorizados por dilemas socioeconômicos.

A partir do doce "Os Paqueras", dirigido pelo ator Reginaldo Faria, em 1969, esse modelo de fazer rir regressa, agora sob o vetor da ditadura militar e da necessidade histórica de se gozar o prazer da liberdade sexual. O nome que adquire: pornochanchada. É um rótulo que vai mobilizar as telas do país por anos a fio, até 1985, quando incursões de David Cardoso ao reino do erotismo fecham a tampa de uma das mais populares expressões de nossa picardia. O paradigma do "chanchar" só volta a ser aberto em 2005, quando "Se Eu Fosse Você", vende cerca de 3,5 milhões de ingressos.

Ali Daniel Filho estabelece a mirada que serve de tônus a Jennifer em "Os Emergentes": as neuroses das classes sociais que se erguem a partir da primeira Era Lula (2003-2010) e das que despencam na pirâmide do consumo nesse mesmo período. Ninguém, nas artes, além do cinema, voltou seu olhar para os fenômenos sociológicos de quem ascendeu das classes C, D e E, deixando para trás a pobreza do Plano Cruzado, dos Cruzados Novos, das URVs ou do princípio do Plano Real. Só a TV, posteriormente, com "Cheias de Charme". Mas a telona o fez antes. Não por acaso, êxitos como "De Pernas Pro Ar" (2010) e "Até Que A Sorte Nos Separe" (2012) viraram franquias rentáveis cartografando sentimentos de personagens que se catapultaram aos olhos do mercado na gangorra cartesiana do "consumo; logo, existo". Fenômeno recente, "Os Farofeiros 2" é a síntese desse princípio. Seus protagonistas são movidos pela pindaíba que podem assombrá-los, obrigados a curtir umas férias frustradas, em bando, para fugir de ruínas profissionais. Essa equação assegurou para o longa de Roberto Santucci, bem escrito por Paulo Cursino (o Midas da neochanchada) cerca de 1,5 milhão de espectadores.

Pratica-se a neochanchada também na Argentina, vide os sucessos de Adrián Suar (como "30 Noites Com a Minha Ex", hoje na grade da plataforma Star ). A Espanha é rainha nessa linha cinematográfica, vide "Chavalas" (2021), de Carol Rodríguez Colás, e as produções do catalão Cesc Gay, como "Sentimental" (2020) e "Histórias Para Não Contar" (2022).

É a vez de sentir como a comicidade de "Os Emergentes" resulta no gosto do público.