Na mira de Liam Neeson

Por Rodrigo Fonseca

Liam Neeson tenta salvar uma criança de perigos numa trama à la Client Eastwood em The Marksman, que a Globo exibe como "Na Mira Do Perigo"

Em meio ao calor da Copa do Mundo, quando o futebol monopoliza as atenções da televisão aberta, a Globo resolveu remar contra a maré. O Cinema Especial desta quinta-feira exibe "Na Mira do Perigo" ("The Marksman", 2021), apostando no magnetismo de Liam Neeson, que completou 74 anos e continua a ser um dos atores estrangeiros de maior apelo junto ao público brasileiro. A escolha não é casual: poucos astros de Hollywood mantêm uma relação tão sólida com a audiência nacional, construída tanto pelos sucessos de ação quanto pelos dramas que marcaram sua carreira.

Dirigido por Robert Lorenz, "Na Mira do Perigo" acompanha Jim Hanson, um fazendeiro e ex-fuzileiro naval que vive na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Quando uma mulher mexicana é morta por integrantes de um cartel, ele assume a missão de proteger o filho dela, Miguel, levando o garoto até familiares em Chicago enquanto é perseguido pelos criminosos. É um thriller de perseguição que combina o perfil de "herói cansado" cultivado por Neeson desde o estrondoso sucesso de "Busca Implacável" ("Taken"), fórmula que transformou o irlandês numa verdadeira marca do cinema de ação do século XXI. Lançado em plena pandemia, o filme arrecadou cerca de US$ 24 milhões no mundo e liderou as bilheterias americanas em seu primeiro fim de semana, ainda que tenha dividido a crítica, que elogiou a atuação do astro, mas apontou excessiva familiaridade na narrativa.

No Brasil, porém, há um detalhe que sempre fez diferença: a voz. Durante décadas, Armando Tiraboschi tornou-se praticamente inseparável de Liam Neeson. O dublador, um dos grandes nomes da profissão, costuma dizer que o ator exige uma interpretação precisa, sem exageros. "Liam é um artista muito meticuloso, faz teatro e tem noção de interpretação de um grande ator clássico. É muito econômico na atuação. Exige muita atenção para percebermos as nuances da fala e da expressão", explica Tiraboschi. "Procuro dar a ele uma alma com um toque de brasilidade para que o espectador se identifique. Não é uma dificuldade; é um prazer." Além dos incontáveis thrillers protagonizados pelo ator, Tiraboschi também esteve ao seu lado em dramas como "A Lista de Schindler" e "Nosso Amor".

Por isso mesmo, a escalação de Sidney César para dublar Neeson em "Na Mira do Perigo" foi recebida com estranhamento por muitos admiradores do astro. Trata-se de um profissional talentoso, mas cuja identidade vocal não remete imediatamente ao ator irlandês. Ao longo de mais de duas décadas, foi a voz grave, pausada e carregada de personalidade de Armando Tiraboschi que ajudou a consolidar, entre os brasileiros, a imagem cinematográfica de Neeson. Em tempos em que a continuidade da dublagem é tratada quase como patrimônio afetivo do público, a mudança pesou.

Aos 74 anos, Neeson também demonstra que está longe de desacelerar. Depois de brincar com sua própria imagem na comédia "Corra que a Polícia Vem Aí!" (The Naked Gun), lançada em 2025, ele já tem uma agenda cheia para os próximos meses. Em 2026, aparece no terror de ficção científica "Alerta Apocalipse" (Cold Storage), vivendo um veterano agente de combate ao bioterrorismo chamado para enfrentar um fungo mutante que ameaça a humanidade. Também integra o elenco de "Hotel Tehran", thriller internacional de espionagem, e da aventura policial "4 Kids Walk Into a Bank", adaptação da cultuada graphic novel homônima.

O horizonte para 2027 continua movimentado. Entre os projetos anunciados estão o thriller de ação "The Mongoose", no qual interpreta um piloto envolvido numa perseguição de alta velocidade; a sequência "Noite Sem Fim 2" (Run All Night 2), retomando um de seus personagens mais populares; além dos filmes "Charlie Johnson in the Flames" e "The Riker's Ghost", ambos ainda em desenvolvimento.

Com mais de quatro décadas de carreira, indicações ao Oscar, ao BAFTA, ao Globo de Ouro e uma filmografia que já ultrapassou US$ 11 bilhões em bilheteria mundial, Liam Neeson continua ocupando um espaço raro em Hollywood: o de um veterano capaz de atrair tanto quem o descobriu em clássicos como "Excalibur", "A Missão" e "A Lista de Schindler", quanto um público que passou a conhecê-lo distribuindo socos, tiros e frases secas em filmes de ação. A Globo aposta justamente nessa fidelidade de gerações para enfrentar a concorrência da Copa. E, quando o assunto é Liam Neeson, nunca convém subestimar o poder de fogo de um astro que fez da maturidade seu maior trunfo.