Quem é rei (do pop) não perde a majestade
Nas raias de faturar US$ 1 bilhão, 'Michael' se firma como a biopic mais rentável da História
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Falta um peteleco para "Michael" cruzar a raia dos filmes que arrecadaram US$ 1 bilhão, marca só alcançada, este ano, pela animação "Super Mario Galaxy". Com os US$ 978 milhões em sua receita atual, o longa-metragem de Antoine Fuqua (da franquia "O Protetor") há se estabelece como a biopic (épico biográfico) mais rentável da História, embora tenha vencido o segundo lugar, o oscarizado "Oppenheimer" (2023), só por alguns milhares de dólares. Com a renda que tem hoje, a produção já é considerada um potencial concorrente ao Oscar, apesar da marola de mimimi em torno de sua dramaturgia.
Falou-se mal — injustamente, para muitos espectadores — da cinebiografia do Rei do Pop, sob a suposição de ela de suavizar passagens controversas da trajetória do cantor de "Thriller" e "Beat It". Apesar disso, o público de Michael Jackson (1958-2009) soube acolhe-la mimá-la, consolidando-a como um dos grandes fenômenos de 2026 nas telas. Sua arrecadação invejável coroa uma trajetória que começou na mira do risco (de fiasco) dado o tanto de más línguas a alfinetá-la. Em seus primeiros dias de exibição, o longa estrelado por Jaafar Jackson arrecadou mais de US$ 217 milhões mundialmente, com 7 milhões de ingressos vendidos no Brasil, sinalizando que havia algo especial em sua conexão com o público.
Nas salas de cinema, a reação continua a impressionar. Em diversos países, espectadores levantam-se das poltronas para dançar durante as sequências musicais. O fenômeno tem sido alimentado tanto por fãs que acompanharam o auge do astro quanto por uma geração mais jovem, que descobriu sua música por meio das plataformas digitais. Grande parte desse êxito repousa sobre os ombros de Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, que encarou a difícil missão de reproduzir um dos corpos mais reconhecíveis da cultura pop. Em conversa com este repórter, ele explicou que a preparação foi muito mais emocional do que técnica.
"Foi uma das partes mais desafiadoras da construção do personagem. Estamos acostumados a ver Michael no palco, com aquela energia única. O desafio era não simplesmente imitá-lo, mas sentir aquilo dentro de mim", disse o ator ao Correio da Manhã, num webnário organizado com críticos e jornalistas.
Segundo o ator, foram necessários anos de treinamento para alcançar a confiança necessária. "Eu me olhava no espelho durante os ensaios e, às vezes, conseguia me convencer de que aquele giro tinha saído exatamente como ele faria. Mas isso não aconteceu de uma hora para outra. Nos dois primeiros anos, nada era consistente. Eu repetia os movimentos inúmeras vezes, até não aguentar mais. Foi a repetição que me preparou."
Jaafar também precisou modificar o próprio físico para reproduzir a silhueta do tio. "Eu era muito consciente do meu corpo no começo. Precisei entender a transferência de peso, perder peso para alcançar aquela estrutura corporal e desenvolver resistência para repetir uma mesma performance dez, quinze ou vinte vezes durante as filmagens."
O resultado impressionou plateias e crítica. Em muitos momentos, a sensação é a de assistir ao próprio Michael ressuscitado diante das câmeras. Outro destaque da produção é Nia Long, intérprete de Katherine Jackson, a mãe do cantor. Para ela, a força da personagem reside justamente na discrição. "Katherine era uma mulher profundamente religiosa. Havia nela uma graça silenciosa e uma força que sustentavam toda a família. Muitas vezes as pessoas confundem silêncio com fraqueza, mas ela era extremamente poderosa", disse ao Correio.
A atriz acredita que a matriarca dos Jackson foi determinante para a construção do legado musical mais bem-sucedido do século XX. "Quando finalmente a encontrei, disse a ela que nada disso existiria sem sua presença. Não haveria Michael Jackson, não haveria esse catálogo extraordinário de músicas que pertence ao mundo inteiro. Ela é a origem de tudo", conta a atriz.
A meninice do astro também ganha destaque através da interpretação de Juliano Valdi, que confessou ter descoberto um lado pouco conhecido do cantor durante as filmagens. "Eu conhecia muito bem Michael adulto, mas sabia pouco sobre sua infância. Fazendo o filme, aprendi o quanto ele trabalhava duro. Era alguém completamente dedicado ao que fazia."
Essa dedicação é justamente o eixo central da narrativa concebida por Fuqua. Em vez de concentrar-se nos escândalos que marcaram os últimos anos do cantor, o cineasta prefere revisitar sua infância nos Jackson Five, a relação difícil com o pai interpretado por Colman Domingo e a transformação de um menino talentoso em fenômeno mundial. Com linguagem que flerta frequentemente com o documentário, "Michael" recria apresentações históricas com um realismo impressionante. O resultado é um espetáculo cinematográfico de primeira grandeza. Nos cinemas, como nos palcos de outrora, o Rei do Pop segue reinando absoluto.