'O mal nasce quando as pessoas acreditam possuir uma missão especial'
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Entre as 51 láureas conquistadas em sua carreira como cineasta, de 2012 até hoje, o turco Emin Alper ostenta o Grande Prêmio do Júri da última Berlinale, materializado na forma de um Urso de Prata, como um aríete para fazer "Salvação" ("Kurtulus") chegar a um público mais amplo do que seus filmes anteriores. "Abluka" (premiado no Festival de Veneza) e "O Conto das Três Irmãs" (condecorado em mostras na Bulgária e na Bósnia) fizeram sucesso e lhe abriram as portas de Cannes, onde exibiu "Dias Ardentes", na briga pelo Prix Un Rertain Regard de 2022.
Há, contudo, uma centelha de popularidade maior no longa-metragem mais recente desse diretor de 51 anos, já em circuito no Brasil. Ele nos leva a uma aldeia remota nas montanhas da Turquia, onde o regresso de um clã exilado reacende uma disputa por terras que se arrasta há décadas. Enquanto antigos ressentimentos voltam à superfície, Mesut (Caner Cindoruk), irmão do líder local, passa a ser atormentado por visões perturbadoras, às vésperas de se tornar pai. Com a certeza de que se tratam de avisos divinos, Mesut desafia as autoridades e insurge à frente de uma rebelião armada. Fã do diretor Yilmaz Güney (1937-1984), conhecido aqui por "Yol" (1982), Alper - hoje envolvido com a direção de uma série para a HBO Max - aponta o escritor Yasar Kemal (1923-2015), autor de "Contos Anatólicos", como o pavimento inspiratório de sua elogiada obra, sobre a qual fala nesta conversa com o Correio da Manhã, via zoom.
Seu cinema costuma sugerir fatos trágicos mais do que mostrá-los. Em "Salvação", porém, a violência ganha uma dimensão mais explícita, a ponto de desafiar a natureza silenciosa que costuma marcar sua filmografia. O que mudou aqui?
Emin Alper - Nos meus filmes, tenho o hábito de mostrar como uma catástrofe é construída e quais circunstâncias a tornam inevitável. Em geral, evito mostrar o momento exato da explosão, em parte por respeito às pessoas que sofrem com tragédias similares. Desta vez, fiz uma escolha diferente. Talvez porque a história tenha sido inspirada por acontecimentos muito concretos. Eu queria oferecer ao público um vislumbre da tragédia. Não mostrar tudo, mas permitir que ela fosse sentida de forma mais direta. Foi um desafio enorme, especialmente porque filmes de arte são difíceis de financiar na Turquia e cenas dessa escala custam caro.
Elementos sobrenaturais norteiam "Salvação", mas eles também são uma perspectiva nova na sua obra. Como lidou com o fantástico?
Sempre quis trabalhar com sonhos e com uma dimensão misteriosa da experiência humana. No caso do meu protagonista, Mesut, tudo começa como algo individual. Ele é um homem atormentado, que acredita receber sinais através dos sonhos. Mas o que me interessa é mostrar como uma crença privada pode se tornar coletiva. Na tradição sufi, os sonhos têm uma importância enorme. E isso não acontece apenas no sufismo. Muitas tradições místicas enxergam nos sonhos uma forma de revelação. As pessoas de sua aldeia já desejam um novo líder antes mesmo de Mesut assumir esse papel. De certa forma, elas preparam a chegada desse líder. Os sonhos não surgem apenas do sobrenatural. Eles também refletem desejos coletivos. As pessoas precisam acreditar em alguma coisa e acabam projetando suas expectativas numa figura que supostamente recebeu uma missão divina. O perigo vem daí.
Ao assistir ao filme, é difícil não pensar em Shakespeare. Mesut lembra personagens como Macbeth ou Otelo. Houve uma alusão explícita a eles na sua escrita de roteiro?
Shakespeare era obcecado pelo poder e as suas consequências. Seus personagens são consumidos por essa obsessão e acabam conduzindo todos ao desastre. Vejo algo assim na jornada de Mesut. Ele é um homem cheio de defeitos, seduzido pela ideia de poder. A fim de preservá-lo, arrasta toda a comunidade para a tragédia, por acredita que está do lado do Bem.
Mesut é falho, imperfeito, mas tem arquétipo de herói. Que heroísmo o define?
Essa foi uma das questões mais difíceis do filme. Não existe um herói clássico em "Salvação". Mesut é uma espécie de anti-herói ou talvez algo ainda mais sombrio. Eu queria entrar na mente de alguém capaz de cometer atos terríveis sem se enxergar como uma pessoa má. Sabia que a plateia não iria se identificar de cara com ele, mas queria entender sua lógica.
A tentativa de compreender o mal parece ser uma obsessão na sua obra. O que ela revela?
Ninguém acorda pensando que é uma pessoa má. Os líderes autoritários não acreditam que são maus. Os ditadores não acreditam que são maus. O Mal nasce quando as pessoas acreditam possuir uma missão especial. Quando acreditam estar defendendo algo sagrado, corrigindo uma injustiça, salvando uma comunidade. São ideias perigosas.
Seu filme dialoga diretamente com a Turquia contemporânea?
Sem dúvida. A Turquia é um país profundamente dividido. Existem divisões étnicas, religiosas e políticas muito fortes. Há tensões entre turcos e curdos, entre diferentes correntes do Islã e entre setores mais secularizados e grupos mais conservadores.
Apesar desse cenário, o cinema turco continua conquistando espaço internacional. Como você vê a situação da indústria cinematográfica em sua pátria?
O cinema turco cresceu muito nos últimos 20 anos. Existe um mercado comercial forte e também um cinema de autor relevante. Durante muito tempo, o Ministério da Cultura ajudou a financiar filmes independentes. Eu mesmo comecei graças a esses recursos. Mas hoje estou numa lista informal que me cancela. Sou identificado como alguém da oposição, o que tira meu acesso aos fundos públicos. Felizmente, meus primeiros filmes tiveram êxito e eu consegui encontrar investidores privados. Mas isso está se tornando cada vez mais difícil. Existe censura nos mecanismos de financiamento e a inflação reduz o valor dos recursos disponíveis.
Qual foi o orçamento de "Salvação"?
Aproximadamente 800 mil euros.
A masculinidade é outro tema central da sua filmografia. Como ela aparece neste filme?
A masculinidade na Turquia é muito poderosa, mas também extremamente frágil. O poder traz responsabilidades difíceis de carregar. Muitos homens acabam se tornando inseguros, contraditórios e até violentos. Em meus filmes, procuro mostrar que o patriarcado beneficia os homens em muitos aspectos, mas os aprisiona. Algumas mulheres reproduzem os mesmos mecanismos de poder. O patriarcado é uma ideologia que aprisiona toda a sociedade.