Os pequeninos bilionários do universo da animação
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Coadjuvantes em "Meu Malvado Favorito" (2010), que gastou US$ 69 milhões para ser feito e faturou meio bilhão de dólares, os Minions viraram paixão global entre crianças e gente grande. Chegaram ao ponto de virar no Brasil sinônimo de gente facilmente manipulada. Já está em cartaz nos cinemas, a nova aventura dessas criaturinhas amarelas, fãs de vilões, cuja composição química tabela periódica alguma explica. E voltam chancelados pela Cannes dos desenhos animados.
Quando os organizadores do Festival de Annecy escolheram a mais recente peripécia dessa turminha amarela - "Minions & Monstros", de Pierre Coffin, para abrir sua edição de 2026, de 20 a 27 de junho, o gesto foi interpretado por muita gente como uma rendição da mais prestigiosa vitrine artística da animação mundial à lógica dos blockbusters. Tal interpretação é um indício de miopia simbólica.
O que aconteceu na cidade francesa foi o reconhecimento de uma grife criativa: nenhuma marca animada produzida no Ocidente, que tenha aparecido nos últimos 20 anos, exerce hoje tanto poder comercial quanto os personagens da Illumination Studios.
O longa-metragem atual, exibido em sessão especial de abertura em Annecy, foi recebido com ardor por uma plateia lotada. Agarrou o coração da crítica em segundos e já desponta como um potencial concorrente ao Oscar. Com o mimo de Annecy, a Minionmania adentra um espaço tradicionalmente associado à experimentação estética e à descoberta de novos talentos.
O simbolismo da escolha tornou-se ainda maior quando se nota o percurso de Annecy numa edição marcada pela consagração de narrativas com forte influência asiática, como "The Violinist", de Singapura, vencedor de sua competição oficial. O Brasil esteve lá com pepitas como "O Filho da Puta", que traz o veterano gaúcho Otto Guerra em sua confecção.
De um lado, estavam as pequenas animações indies que continuam renovando a linguagem do setor. Do outro, uma franquia bilionária. Segundo dados internacionais consolidados, o universo formado por "Meu Malvado Favorito" e os filmes derivados dos Minions ultrapassou a marca de US$ 5,6 bilhões em arrecadação global antes mesmo da estreia do novo capítulo. Junte aí tudo o que venderam em lancheiras, roupas, bonecos e até guloseimas.
A história da Illumination, a empresa que inventou essa turminha, começou em 2007, quando Chris Meledandri deixou a Fox para fundar um estúdio baseado numa ideia simples: produzir animações mais baratas que as da Pixar e da Disney, mas igualmente capazes de atingir audiências globais. O primeiro teste veio em 2010 com "Meu Malvado Favorito". O resultado foi imediato. A aventura do vilão Gru arrecadou US$ 544,7 milhões no mundo e lançou uma das propriedades intelectuais mais lucrativas do século XXI. O campeão individual continua sendo "Minions", lançado em 2015, com arrecadação superior a US$ 1,1 bilhão.
O mais impressionante é a regularidade. Enquanto outras séries sofrem oscilações drásticas entre um lançamento e outro, praticamente todos os filmes da franquia orbitam entre US$ 900 milhões e US$ 1,1 bilhão... e com um custo pequeno para o padrão do setor no âmbito das superproduções. Seu gasto foi de US$ 89 milhões. Para Hollywood, na equalização entre custo e receita, isso equivale a encontrar uma mina de ouro que se renovar a cada dois ou três anos.
A influência da Illumination, porém, vai muito além de Gru e seus ajudantes amarelos. O estúdio construiu sucessos como "Pets - A Vida Secreta dos Bichos", "Sing", "O Grinch" e, sobretudo, "Super Mario Bros. - O Filme", que redefiniu o potencial comercial das adaptações de videogames e abriu uma parceria estratégica com a Nintendo. "Super Mario Galaxy" foi o único título lançado de janeiro para cá a passar da fronteira do bilhão. "Toy Story 5", que já arrecadou US$ 594 milhões, pode chegar lá também, mas não será fácil.
O sucesso da Illumination coincide com uma transformação profunda do mercado mundial da animação. Durante décadas, Disney e Pixar ocuparam praticamente sozinhas o topo da cadeia alimentar do setor. Hoje, a disputa envolve uma pluralidade de modelos. O Japão domina o consumo juvenil com seus mangás adaptados para o cinema e a televisão. A França continua a funcionar como laboratório artístico do Ocidente. A China investe pesadamente em produções digitais de grande escala, como "Ne Zha 2: O Renascer da Alma", o maior êxito de bilheteria de 2025, com US$ 2,2 bilhões de arrecadação. Por sorte, festivais como Annecy tornaram-se espaços onde pequenas produções conseguem dialogar com gigantes da indústria.
É justamente nessa convivência entre arte e mercado que reside a força atual da animação de Pierre Coffin, diretor francês que emprestou sua voz aos Minions. Em seu retorno às telonas, eles estão à cata de uma criatura assustadora com quem possam rodar um longa de terror. Como são abilolados até dizer chega, eles conseguem desenrolar as ataduras da múmia e dar alho ao Drácula. O riso vem daí.