O baile da saudade

Após seis dias de festejo à preservação e à restauração de tesouros das telas, a CineOP fecha uma 21ª edição marcada por curtas impecáveis e longas que desafiam códigos documentais

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Festival dialoga com a riqueza arquitetônica das Gerais, dos resquícios da Inconfidência, para celebrar a preservação

Definido pelo cancioneiro popular como "palavra triste", o verbete "saudade" adquire sentidos novos (e políticos), aproximando-se de substantivos como "resiliência" e do verbo "resistir", depois dos modos como foi empregado pela 21ª CineOP. Encerrada na terça-feira nas Gerais, ao fim de seis dias de exibições e debates, a maratona cinéfila de Ouro Preto começa a digerir seus feitos - e foram muitos - só agora. Ela se difere dos ritos habituais dos festivais brasileiros (e dos estrangeiros) por se preocupar com o futuro do pretérito (das imagens) e não com os ineditismos clamados pelo mercado.

A preservação e a restauração de filmes em película e o arquivamento (vivo) de criações realizas em digital é seu foco. É o que temos de mais parecido com o evento europeu Il Cinema Ritrovato, que ocorre em Bolonha, na Itália, para dar voz e vez a manifestações fílmicas das primeiras décadas do século XX, ao mesmo passo em que revisita joias recentes, como é o caso de "Crítico" (2008), primeiro longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho, projetado em telas do Velho Mundo na semana passada.

Rodrigo Fonseca - Fenômeno nacional de bilheteria, 'O Ébrio' (1946) comemorou seus 80 anos na mostra mineira com cópia restaurada

Numa toada similar, a micareta memorial mineira, estruturada por Raquel Hallak na produtora Universo, também abriu tela para títulos bem recentes, ao mesmo tempo em que celebrou os 80 anos de "O Ébrio", de Gilda de Abreu (1904-1979), com projeção em praça pública, e revisitou um marco feminista, "A Entrevista" (1966), feito há seis décadas por Helena Solberg.

São narrativas que estão na ordem do "pra sempre", enquanto, na triagem do agora, fez-se um passeio por exercícios autorais recentes do paulista Carlos Adriano, hoje a mais indecifrável esfinge de nosso audiovisual.

Divulgação - O tempo nunca é perdido com 'Proust Palimpsesto Pastiches e Misturas', de Carlos Adriano

"O passado estará sempre grávido de um futuro", disse o realizador ao Correio da Manhã, logo após projetar a longa-metragem "Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas", um vicejante ensaio cinepoético a ser lançado pela distribuidora Embaúba, construído a partir do único registo filmado conhecido do escritor Marcel Proust (1871-1922), realizado em 1904.

Em paralelo a essa busca pelo tempo proustiano perdido, a CineOP exibiu ainda um curta desse realizador e ensaísta, que (num bloco do eu sozinho) monta, corrige cor e mixa o som de suas criações. No belíssimo "Sem Título #11: Um Analecto à Mula", Carlos Adriano parte da obra do poeta cubano José Lezama Lima (1910-1976) e visita o outrora em busca de sensos e sensações que estão no âmbito da eternidade. Para isso, segue uma linha mais próxima dos fractais da matemática do que dos algoritmos de uma prática audiovisual amordaçada às carências do mercado. Seu processo ganhou fama com o memorável "A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha" (1998) e com "Santos Dumont Pré-Cineasta?" (2010).

"As imagens, para mim, são ruínas, principalmente na questão do trabalho de arquivo. A coisa com que eu mais gosto de trabalhar são restos, fragmentos. O texto do Proust, mais do que pretexto ou pré-texto, para mim é um prisma, onde jogo luz, e encontro sentidos que antes não eram perceptíveis", disse Adriano ao Correio. "Esses sentidos não esgotam".

Enquanto a dupla expressão do cineasta de SP contagiava Ouro Preto, a cidade usou a sala de projeção de seu Museu da Inconfidência para revisitar um marco (também paulista) da época da Retomada (período de 1995 a 2010, no qual a produção nacional se reinventou com o fim da Embrafilme e a ação da Lei do Audiovisual) repleto de prêmios: "Um Céu de Estrelas" (1996), de Tata Amaral. À sua época, o longa foi precursor na forma de retratar a violência doméstica e o feminicídio, com foco no violento reencontro da cabelereira Dalva (Leona Cavalli) com o ex-noivo chave-de-cadeia Vítor (Paulo Vespúcio Garcia) na casinha onde ela vive com a mãe. Em poucas horas, explode o ódio, em sua vertente mais sexista. Pavimentada num texto literário de Fernando Bonassi, Tata registra aquele lar como um microcosmos de desajustes que fervem até estourar aos olhos de uma mídia que canibaliza tragédias.

Divulgação - 'Vivo 76' mostra como Alceu Valença usou um megafone para promover em Copacabana o show 'Vou Danado Pra Catende'

Num outro espaço, a CineOP serviu de ribalta a um óvni de DNA pernambucano que se vende como documentário, mas parece uma ficção científica (daquelas que o quadrinista Moebius fazia nas HQs, como "O Rola-Doida" e "Arzach") chamada "Vivo 76". Aparentemente, seria um resgate dos bastidores do LP lançado por Alceu Valença há 50 anos, só que o diretor Lírio Ferreira não se aguentou e, num faniquito de invenção, transformou em performance (ativa) a massa de recortes de época que tinha e o próprio músico. Faz do rapsodo lisérgico Alceu o seu Major Grubert (o herói psicodélico e psicotrópico de Moebius). O resultado dessa metafísica de Lírio é um bicho indomável que "avoa" nas telas avesso a rótulos. Ou seja: um filmaço.

Sintonizado com as pautas decoloniais, a CineOP buscou um achado de 2020, que cruzou com as tosses da pandemia, mas sobreviveu a ela: "Chico Rei Entre Nós", de Joyce Prado. A sessão dessa pérola documental épica foi comovedora. Retratada em nosso cinema num cult de 1985 de Walter Lima Jr. que passava até na "Sessão da Tarde" na década de 1980, a história de Galanga - monarca guerreiro do Congo capturado por portugueses e escravizado em Vila Rica -revive no olhar de Joyce como um estudo sobre táticas de inclusão.

Naquela esfera da "saudade" em redescoberta(s) mencionada lá em cima, os curtas da CineOP bailaram nietzscheanamente felizes, no eterno retorno de figuras preciosas da cultura nacional, como Eduardo Coutinho (1933-2014). Completam-se 50 anos do roteiro mais famoso que esse mito da não ficção escreveu ao longo de uma carreira paralela a seu ofício de documentarista: o script (assinado também por Leopoldo Serran) de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976). A love story em trisal entre a quituteira Florípedes (Sonia Braga), o farmacêutico Teodoro (Mauro Mendonça) e o fantasminha camarada Vadinho (José Wilker) levou 10,7 milhões de pagantes às salas de exibição, sob a direção de Bruno Barreto, e pode ser visto na plataforma MUBI. Não se fala dele, nem se menciona essa efeméride e, tampouco, discute-se o investimento (sazonal) do diretor de "Jogo de Cena" (2007) na ficção em "Habitar o Tempo", curta-metragem com que a diretora Cristiana Grumbach estilhaçou os corações de Ouro Preto. Nem por isso, a produção deixa de ser um documento precioso sobre Coutinho.

Divulgação - 'Habitar o Tempo' é uma comovente metonimia de Eduardo Coutinho

Há mais banzo do que informação no filme de 15 minutos dirigido (na chave da doçura) pela realizadora de "Morro da Conceição" (2005) a partir do resgate dos registros de um encontro com o artesão do real, de quem foi amiga e colaboradora. A sinopse dela até parece poesia (mas seu filme, também): "Lua cheia de maio. Seis amigos. Dois poemas. Uma noite, há 23 anos". Num evento que celebra a recordação e faz da linguagem documental o eixo de sua programação (e de suas reflexões), como é a CineOP, a produção de Cristiana é uma pedra preciosa à altura dos minérios no solo daquele aurífero perímetro das Gerais. E o é sobretudo por celebrar um autor cinematográfico famoso por uma Comédia Humana pautada pela palavra e pela escuta, com títulos como "Edifício Master" (2002) em sua filmografia. Vemos metonímias de Coutinho salpicando a narrativa de "Habitar o Tempo" numa leitura coletiva de poemas de João Cabral de Melo Netto (1920-1999).

Cristiana Grumbach também se faz ver entre esses recortes, assim como outras figuras ligadas às artes e às Ciências Sociais, como Renata Baldi, Eliska Altman, Geraldo Pereira e Fernando Fragozo. Cada qual lê um verso, ou mais de um... Cada verso traz uma prerrogativa suicida ou analgésica sobre o amor. Estrofe a estrofe, minuto a minuto, um mosaico de sensações forma um colosso sinestésico de catarse e de busca, deflagrando recordações... as de Cristiana e as de quem viu Coutinho em seu devir Paracelso de transformar o chumbo da vida em ouro documental. Há poucos dias, seu longa de maior fama, "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), passou pela Austrália, no Festival de Sydney, numa retrospectiva estruturada pelo supracitado Kleber Mendonça Filho, o aclamado diretor de "O Agente Secreto" (2025), sobre brasilidades.

Cavídeo - 'Helena! Cinema!' mirou Ouro Preto com olhos nos olhos para celebrar Helena Ignez

Outro dos deslumbres da seleção de curtas da CineOP 2026 é a viagem que Cavi Borges e Christian Caselli fizeram pelo legado vivo e ativo da atriz e diretora Helena Ignez no ensaio "Helena! Cinema!", que conta com a voz melíflua de Patrícia Niedermeier para representar os fluxos de pensamento e de inquietude da estrela de "A Mulher de Todos" (1969). É um retrato afetivo que foge das imagens mais repetidas que costumam circundar os merecidos tributos a essa multiartista da Bahia. Caselli, que é um dos montadores mais engenhosos do país, funde biopic (épico biográfico) com estéticas do Cinema de Invenção construindo sequências que mais parecem haicais. É um poema sobre uma musa de muitas gerações e de muitas artes, entre o palco de Brecht e o audiovisual de Rogério Sganzerla (1946-2004), seu companheiro de um tudo.

Dos muitos momentos que vão eternizar a CineOP de 2026, poucos carregam uma centelha de luta contra opressões históricas tão forte quanto o discurso de Benedita da Silva resgatado por "Eunice Gutman Tem Histórias", trova filmada que Lucas Vasconcellos fez. Seu foco está na realizadora que é ícone do feminismo em nossas telas. Com linha de cetim, o cineasta alinhava imagens preciosas dos .docs que fizeram de Eunice uma referência, ainda ativa.

Em seu adeus, a CineOP foi buscar o ganhador da Mostra de Tiradentes (festival do qual é irmã caçula): "Anistia 79", de Anita Leandro. Professora da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, a realizadora mineira abriu uma caixa de Pandora que estava fechada há quase 47 anos, com sentimentos, vivências, engasgos e catarses de quem precisou sair do Brasil sob a pressão do regime fardado (de 1964 a 1985). Seu filme encontra registros raríssimos da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, que foi realizada em Roma, em junho de 1979. Foi o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Ali há fatos essenciais para se entender a manutenção do aparato repressivo militar e a impunidade dos torturadores.

Terminada a CineOP, o circuito festivaleiro das Gerais, arquitetado por Raquel Hallak, aquece as turbinas da 20ª CineBH, a caçula dessa trinca de mostras, agendada de 22 a 27 de setembro.