Viagem à eternidade... de Fernando Coni Campos
Cineasta baiano que criou uma obra compacta (mas, genial) da década de 1960 até sua morte, em 1988, ganha sobrevida graças a um documentário de seu filho, Luis Abramo
Em seu empenho para mostrar que restaurar e preservar filmes também é a maior diversão, a CineOP, encerrada na terça-feira em Ouro Preto, depois de cinco dias de exibições e debates, escancarou uma festa em nossa memória audiovisual que leva a um tesouro pouco explorado (mas valiosíssimo) das artes brasileiras: a filmografia do baiano Fernando Coni Campos (1933-1988).
A redescoberta de seu legado, na paisagem das Gerais, teve um componente filial de afeto. Respeitado como diretor de fotografia por seu requintado trabalho com a luz nos sets, Luis Abramo, filho de Fernando, foi quem se incumbiu de buscar para seu pai um prestígio (ainda que póstumo) à altura de seu engenho. Para isso, dirigiu (em duo com Pedro Rossi) um documentário sobre essa figura paterna das mais raras, imbuída de poesia e circundada por um cinema de encantarias.
O longa, "Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha", passou no É Tudo Verdade, em abril, mas ganhou novo fôlego na CineOP. É, de longe, um dos melhores longas do ano, mesmo sem chegar a circuito. Sua narrativa é uma espécie de acerto de contas entre nossas Telas e a História. Revive momentos de alta voltagem lúdica de Fernando, como o longa "O Mágico e o Delegado", produção ganhadora do troféu Candango de Melhor Filme no Festival de Brasília de 1983. Esse exercício autoralíssimo periga ser - ao lado de "O Profeta da Fome" (1970), de Maurice Capovilla - a mais potente alegoria sobre a escassez de alimentos no Brasil dos coronéis, capitães e outros braços armados da Lei. É um filmaço muito menos visto do que merecia. Na Mostra de São Paulo de 2020, essa quase fábula foi projetada e, como a maratona paulistana bem definiu à época, ele ainda "revela um autor tropicalista, experimental e com forte influência da literatura".
"Meu pai sempre escreveu cartas para defender os seus filmes", conta Abramo, que fotografou cults como "Proibido Proibir" (2006). "Vejo esse documentário, meu e do Pedro Rossi, como uma grande carta dele para que seja escutado, para que suas ideias e seus filmes sejam vistos. O que mais nos deixa feliz é ver, após as suas exibições, o desejo de muitas pessoas na plateia de buscarem a sua cinematografia, de reverem os seus filmes. A tarefa agora é de conseguir colocar todos os seus longas em condições de serem vistos dignamente. Uma dura tarefa".
Em 2020, Abramo trabalhou em outro projeto ligado a pais simbólicos de nosso cinema: rodou com Paloma Rocha (o avassalador) "Antena na Raça", chancelado pelo Festival de Cannes. É um estudo sobre o programa de TV de Glauber Rocha (1939-1941), o "Abertura", que se amplia para outras façanhas do titã por trás de "Terra em Transe" (1967), baiano como Fernando Coni Campos. Não por acaso, ambos trabalharam com um mesmo ator, também da Bahia: Antonio Pitanga. Ele foi um dos astros de "Ladrões de Cinema" (1977), que é, para muitos, a obra-prima de Fernando. Essa comédia, sobre moradores de uma favela empenhados na realização de um longa, passa regularmente na TV Brasil.
Pitanga é um dos convidados especialíssimos do trabalho de escuta feito por Rossi e Abramo em seu documentário. Os dois ainda resgatam outra pérola de Fernando: "Viagem ao Fim do Mundo", uma espécie de reinvenção de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, laureada com o Leopardo de Prata no Festival de Locarno de 1968.
"Sou parceiro do Pedro Rossi há bastante tempo. Já escrevemos um roteiro juntos, até. Mas foi depois de ver o seu filme 'Rubens Gerchman o Rei do Mau Gosto', que nos conectamos para realizar um filme sobre o Fernando Coni Campos", conta Abramo. "Eu já desenvolvia de certa forma, com os meus irmãos, um acervo de memórias de amigos e parentes do meu pai. A princípio, pensamos em usar uma estrutura semelhante àquela do 'Viagem ao Fim do Mundo'. Assim, desenvolvemos um roteiro usando essa liberdade narrativa que aquele filme tem. Nessa perspectiva, tinha muito desejo de contar lembranças, minhas e dos meus irmãos. No meio do caminho, encontramos uma gravação de uma fita perdida, há muito tempo, que redesenhou um pouco o nosso desejo, para atender quase um pedido para o Fernando contar a sua própria história. Pedro foi fundamental também nessa articulação dos materiais de arquivo com as ideias do Fernando sobre o seu cinema".
De um lirismo atípico, Fernando fez uma trajetória singular, da infância em Castro Alves, no interior da Bahia - como irmão mais velho das suas seis irmãs, ouvindo histórias e fábulas e imaginando realidades mágicas - à adolescência rebelde, não se ajustando às disciplinas rígidas dos colégios de Salvador. Depois, foi cair direto dentro de uma acirrada luta ideológica no Curso de Gravura do MAM, em São Paulo. No Rio, nos anos 1960, entre o mundo da poesia e das artes plásticas, Fernando entra em contato com a turma de designers radicais que, estudando semiótica e semântica, questionavam a validade da Arte e o conteúdo social dela, discutindo até que ponto essa arte engajada não era uma redundância. Ali, Fernando encontra o cinema como uma possibilidade de expressão. Fez-se a luz.