O Velho Mundo reage... nas telas

Festival de cinema italiano, com filme dirigido por Johnny Depp, e longas da Alemanha, da Polônia e da França reforçam a excelência da Europa no circuito exibidor brasileiro

Por Rodrigo Fonseca

Nanning (Jasper Billerbeck) aprende verdades sobre a II Guerra na ilha de Amrum em "Uma Infância Alemã", de Fatih Akin

Festival de cinema italiano, com filme dirigido por Johnny Depp, e longas da Alemanha, da Polônia e da França reforçam a excelência da Europa no circuito exibidor brasileiro

Rodrigo Fonseca
É tempo de “Supergirl”, o que pode alavancar a receita de Hollywood – e dos filmes baseados em HQ – em 2026, mas, simultaneamente, é também tempo de Europa no circuito nacional. É hora de mais uma edição da “8 ½ Festa do Cinema Italiano” nas telas do Estação, nas salas de Botafogo e da Gávea. O evento é só uma fatia... embora seja das mais polpudas e suculentas... da forte presença do cinema autoral do Velho Mundo entre nós. Já em seu arranque, nesta quinta, o evento da Itália entre nós exibe uma joia aplaudida em Cannes: “Fuori”, drama estrelado por Valeria Golino que concorreu à Palma de Ouro celebrando o filão das narrativas de prisão. É um trabalho maduro do diretor Mario Martone, que revisita feitos da escritora Goliarda Sapienza, detida em decorrência de um delito nunca devidamente comprovado. Após sua libertação, a amizade entre ela e as outras detentas continuou, num relacionamento dos mais fiéis, que gerou desentendimentos nos círculos intelectuais em que ela frequentava. Avai ter sessão de Martone neste sábado, às 16h25, no Shopping da Gávea.


No sábado, às 18h35, “8 ½ Festa do Cinema Italiano” conta com a luxuosa presença de Al Pacino na telona do Estação Claro Rio em “Modi – Três Dias Nas Asas Da Loucura” (2024), que conta com Johnny Depp como seu realizador. No mesmo dia, esse filmaço será projetado pelo Estação Claro Gávea, às 20h40. Trata-se da cinebiografia do artista plástico Amedeo Modigliani (1884-1920. Lançado em sessão de gala no Festival de San Sebastián, há dois anos, o segundo longa de Depp como realizador (“O Bravo”, de 1997, foi o primeiro) traz Pacino no papel do colecionador Maurice Gangnat. Seu embate com Modigliani (interpretado pelo galã Riccardo Scamarcio) é mercado por diálogos antológicos.

Um dos longas mais badalados da seleção hors-concours de Cannes em 2025, “Uma Infância Alemã” (“Amrum”), do diretor teuto-turco Fatih Akin (de “Contra a Parede”) levou um ano e um mês para encontrar vaga em nossos multiplexes. A demora é compensada pela estonteante beleza de sua fotografia, assinada por. Sua trama remonta aos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, quando o menino Nanning (Jasper Billerbeck), de 12 anos, enfrenta o mar traiçoeiro para pescar e trabalha na fazenda próxima para ajudar sua mãe (Laura Tonke) a sustentar a família. Apesar das dificuldades, a vida na ilha de Amrum quase parece um paraíso. Aquele Éden é visto sob a ótica de um garoto que cresceu sob a ideologia do III Reich, no início dos anos 1940, sem saber das atrocidades cometidas por seu país sob o cabresto da SS. Agora, um segredo de família há de abalar a frágil paz do canteiro idílico onde ele vive.

“Fatih tem um instinto singular no set”, disse Laura Tonke ao CORREIO DA MANHÃ, em Cannes. “Existe algo que o cerca que me aborrece. Fatih é sempre definido, no meu país, como um turco-alemão. A identidade turca é sempre usada não para destacar as raízes de sua família, mas para supor que ele não é germânico. Acontece que, sim, ele tem um pensamento germânico consigo e aplica isso ao que faz”.

Temos ainda cinema polonês dos bons entre nós, com “Chopin, Uma Sonata Em Paris”. Lar de vozes autorais cinematográficas ribombantes (de Andrezj Wajda a Agnieszka Holland, passando pelo divo da hora, Pawel Pawlikowski), o cinema polonês hoje testemunha o caminhar de Michal Kwiecinski rumo à consagração, carregando em seu currículo de direção o premiado “Servindo Nazistas” (2022). Ali firmou uma parceria sólida com o ator Eryk Klum. O talento do jovem intérprete é fundamental para fazer da saga de Chopin um oásis de excelência no terreno das biopics (épicos de tom biográfico). Qual o “Bohemian Rhapsody” (2018), de Bryan Singer, esta recriação histórica da vida de um músico avesso a normas funciona mais como um painel de uma Europa em fase de adoecimento do que como um verbete de Wikipedia sobre um musicista virtuoso.


“Chopin, Chopin” (título original) tem a tessitura e o colorido retido das massas de sangue escarradas por seu personagem central em meio à tuberculose. Frédéric François Chopin... ou Fryderyk Franciszek Chopin (1810-1849) sangrou pulmões afora, em decorrência do bacilo de Koch, em paralelo à sua trajetória de composições lendárias, amores frustrados e rivalidades com Franz Liszt (papel dado a Victor Meutelet), além da paixão pela escritora George Sand (Joséphine de La Baume). Com um orçamento de US$ 19 milhões, Kwieciski teve quatro meses de filmagem para reinventar a Europa do século XIX, apoiado em 260 atores, 5 mil figurantes e cerca de 600 profissionais em sua equipe.

A França entra nesse gramado com “Fanon”, de Jean-Claude Barny. Alexandre Bouye tem uma atuação devastadora neste recorte biográfico dos feitos do psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon (1925-1961), o pensador que ousou enfrentar o sistema colonial francês, expressando suas ideias em livros como “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952). Na Guerra da Argélia, a trajetória teórica dele redefiniu a Psiquiatria e a luta decolonial, mas a própria ideia de liberdade.

Com tantas pepitas europeias nas telonas, Hollywood que se cuide.