Fatih Akin: 'A Alemanha vive traumatizada pela culpa'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O diretor teuto-turco Fatih Akin

Dono de um currículo invejável tanto para a Alemanha, onde nasceu e cresceu, quanto para a Turquia de seus pais, Fatih Akin consolidou sua reputação autoral como cineasta com o Urso de Ouro dado a "Contra a Parede", 22 anos atrás. Ampliou a fama com o Globo de Ouro entregue a seu "Em Pedaços" (2017), emendando um sucesso de bilheteria em sua pátria: "Rheingold: O Roubo do Sucesso" (2022). Sempre debruçado sobre as interseções culturais das nações que o formam, o diretor abre cicatrizes da II Guerra em "Uma Infância Alemã" ("Amrum"), um dos longas-metragens mais bem resenhados do Festival de Cannes de 2025. O filme acaba de estrear por aqui, via Imovision. Seu enredo remonta aos últimos dias do conflito entre o Eixo e os Aliados, quando o menino Nanning (Jasper Billerbeck), de 12 anos, enfrenta o mar traiçoeiro para pescar e trabalha na fazenda próxima para ajudar sua mãe (Laura Tonke) a sustentar a família. Apesar das dificuldades, a vida na ilha de Amrum quase parece um paraíso. Aquele Éden é visto sob a ótica de um garoto que cresceu sob a ideologia do III Reich, no início dos anos 1940, sem saber das atrocidades cometidas por seu país sob o cabresto da SS. Agora, um segredo de família há de abalar a frágil paz do canteiro idílico onde ele vive.

Nesta entrevista ao Correio da Manhã, em Cannes, Akin, hoje com 52 anos, faz um balanço geopolítico do passado germânico e de sua identidade artística.

O título original de "Uma Infância Alemã" é o nome da ilha onde a trama se passa, Amrum, o que abre uma reflexão acerca do quanto a sua narrativa personifica aquele espaço. O quanto aquele cenário insular é um coprotagonista?

Fatih Akin - Sempre que se filmou uma ilha... ou que se escreveu sobre uma, como se lê em "Robson Crusoé", o espaço geográfico vira um tema e ganha um simbolismo icônico ligado ao isolamento. Crusoé, por exemplo, encontrava em seu ambiente um dilema de sobrevivência na luta contra a fome. No romance "O Senhor das Moscas", William Golding faz de uma ilha uma instância para uma reprodução paradoxal da sociedade ocidental que conhecemos. O que eu busco, com uma ilha, é demarcar uma fronteira espacial entre diferentes grupos populacionais da Alemanha e criar uma metonímia simbólica daqueles que se isolaram de todos os valores humanos ao se bandearem para a dimensão insular do nazismo.

Existem limites para um cineasta alemão falar do nazismo?

A Alemanha vive traumatizada pela culpa. Apesar disso, ela apoia Israel em seu armamentismo. De certa forma, "Uma Infância Alemã", ao falar de despertar, parte do passado para fazer um alerta sobre o que vivemos agora.

Qual é o maior aprendizado que essa mirada infantojuvenil sobre a II Guerra lhe trouxe?

A percepção de que humanos são capazes de gerar horrores uns entre os outros.

Você vive na Alemanha, em Hamburgo, onde nasceu, e filma parte de sua obra num retrato da vida germânica (como em "O Bar Luva Dourada") e parte no olhar sobre a realidade turca, que retratou em cults como "Do Outro Lado", pelo qual recebeu o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, em 2007. O que te identifica como alemão?

Filmar na Alemanha, com a liberdade que filmo, é a minha definição de ser alemão. Se eu tivesse satisfeito com o país de onde venho, não seria cineasta. Filmo para reagir, sem o desejo de retomar caminho que já percorri. Até o início dos anos 1990, mesmo com toda a segregação que vivemos na II Guerra Mundial, você não poderia se considerar alemão, mesmo nascendo na Alemanha, se o seu sangue não fosse germânico. E o meu sangue é turco, assim como parte da minha identidade, que se formou vendo melodramas da Turquia na TV e vendo um VHS de "A Fúria do Dragão", com Bruce Lee, dublado em alemão. Nesse caldo cultural, eu me criei. A TV alemã da década de 1980 exibia um programa que se chamava "40 Anos Atrás…". Por meio dele, ali em 1981, 82, a minha geração informou-se do que se passou no Holocausto, embora o distanciamento histórico fosse pequeno.

Como se deu a descoberta de Jasper Billerbeck, seu jovem ator, e a criação de Nanning?

Não busquei atores mirins para o elenco e, sim, crianças que tivessem conexão de berço com a natureza, com a experiência de crescer entre abelhas. Quando vi o teste de Jasper, gostei da timidez dele. Pensei: "Essa será a minha escolha". Desenvolvi estratégias na direção para soltá-lo... e deu certo.

De que forma a figura de Hark Bohm (1939-2025) pavimenta "Uma Infância Alemã"?

Ator e diretor que integrou elencos em alguns filmes de Fassbinder, Hank foi meu professor e era meu amigo. Esse projeto era dele. Sua obra como cineasta, pouco conhecida hoje, era muito atenta à infância. Ele me procurou, já no fim da vida, sem condições de filmar o argumento, e me disse: "Eu estou te oferecendo a minha história". Minha empresa, a Bombero, precisava de um projeto, à quela época, e eu acabei assumindo a realização.

Quais são seus próximos projetos?

Há um filme sobre a diáspora turca em preparação e um documentário sobre um cantor turco a caminho.