Helena Solberg reluz nas Gerais

Com uma obra essencial para a consolidação de um cinema moderno e feminista no Brasil, a diretora ganha homenagem e retrospectiva na arrancada da maratona cinéfila de Ouro Preto

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A cineasta Helena Solberg em sua casa no Rio

São muitas (sempre muito necessárias e todas bem-vindas) as razões para a realizadora Helena Solberg ser a artista homenageada na edição que marca a maioridade da mostra CineOP, nas Gerais, a começar pela efeméride de 50 anos de sua estreia na direção, com a "A Entrevista". Na seleção dos títulos de sua filmografia, separados pelo evento mineiro para ilustrar o quão essencial sua obra é (sobretudo para o amadurecimento do cinema brasileiro moderno), foram resgatadas suas andanças pela América hispânica ("A Dupla Jornada", de 1975), e pelos EUA ("A Nova Mulher", de 1974).

Com carreira reconhecida internacionalmente, vide os prêmios estrangeiros dados a "Carmen Miranda: Bananas Is My Business" (1995), a cineasta também foi laureada em festivais de forte adesão popular deste país, como o de Gramado. Ganhou por lá o troféu Kikito de Melhor Longa-Metragem, em 2004, por "Vida de Menina" - uma ficção. Hoje, em paralelo a seus compromissos em Ouro Preto, ela tem um projeto novo sobre a população evangélica no forno e não para de ter ideias.

"Esse novo filme é centrado em uma figura de liderança evangélica que se chama Wesley Teixeira. Ele vive em Duque de Caxias, na região do Morro do Sapo. O filme acompanha sua trajetória e me permite conhecer melhor essa cultura da periferia. O Wesley é um evangélico de esquerda que sobreviveu numa realidade violenta. Ele mesmo considera um fenômeno o fato de ter chegado aos 30 anos, sendo um homem negro, naquela área, do estado do Rio, onde a violência é pesada. O filme sobre o Wesley está me apresentando um Brasil que eu não conhecia. E isso é uma das coisas mais bonitas do documentário: ele nos obriga a continuar aprendendo. Cada filme abre uma porta para um mundo novo", explica Helena.

Na triagem das justificativas (acertadas) da direção artística da CineOP em celebrar os feitos de Helena por trás das câmeras, sua formação como cineasta é marcada por encontros que, em si, renderiam filmes. Na rodagem de "A Entrevista" (1966), ela convidou o pintor e cineasta Mario Carneiro (1930-2007) para a fotografia e teve o titã Rogério Sganzerla (1946-2004), realizador de "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), no comando da montagem. Ficaram amigos para o resto da vida. Dali, ela foi a São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) para assistir às filmagens de "O Padre e a Moça", a convite de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988). Trabalhou ainda como continuísta do igualmente titânico Paulo Cezar Saraceni (1932-2012) em "Capitu" (1968). Na troca com os gigantes do Cinema Novo, o documentário acabou se desenhando como a forma de expressão cinematográfica mais afim às motivações e objetivos. Mas não foi premeditado.

"É por meio de personagens... pessoas... que consigo acessar os temas que abordo", diz a realizadora, que abriu o festival É Tudo Verdade, em 2024, com "Um Filme Para Beatrice", discutindo como vão as mulheres no Brasil.

À época de sua exibição no Rio, Helena disse ao Correio da Manhã: "O cinema foi uma ferramenta que mais de uma vez me aproximou de uma realidade suspeitada, mas, até então, desconhecida, e, como em todo documentário, acho que saí mais sábia e enriquecida por haver escutado o outro/a outra e juntas (o feminismo) vamos continuar atrás de respostas".

No site da Mostra, o https://cineop.com.br/, onde os filmes de Helena podem ser vistos online, a equipe curatorial, representada por Juliana Gusman e Cleber Eduardo, explica a força política (de inclusão) por trás da celebração da diretora. Escrevem: "Helena Solberg, carioca nascida em junho de 1938, foi uma das primeiras realizadoras a torcer hierarquias visuais de um cinema brasileiro até então - e talvez até hoje - predominantemente masculinizado. Em 'A Entrevista' (1966), que virgula a nossa historiografia ao se tornar o primeiro curta-metragem feminino e feminista do cinema moderno nacional, Solberg reúne uma série de depoimentos de jovens de 19 a 27 anos que comentam, com notáveis discordâncias, sobre questões que orbitam sua experiência cotidiana aburguesada. (...) A obra é atravessada por uma insolucionável ambiguidade ao tensionar falas que comprovavam tanto a alienação das jovens da classe média alta brasileira, quanto suas justificadas insatisfações com os papéis de gênero que lhes eram atribuídos. De qualquer forma, o filme apresentaria temáticas nunca trabalhadas no cinema nacional a partir de um manejo de linguagem igualmente inovador".

"Eu não gosto muito de dissecar o meu processo criativo, pois ficar consciente demais dos mecanismos me dá um certo pânico. Isso poderia até me paralisar", diz Helena. "Acredito que a memória, o tempo e a identidade fazem parte de uma forte intuição. Essa intuição, poética, é alimentada pela pesquisa, pelo conhecimento, mas também pelo cinema enquanto ferramenta de expressão. No documentário, principalmente, essa ferramenta ajuda a organizar os elementos da realidade".

A CineOP vai até 30 de junho.