Parece armação do Lex Luthor

Por crítica FILME | SUPERGIRL

Kara Zor-El (Milly Alock) encara conflitos estelares para salvar o cão Krypto

Embevecida hoje com o bilhão de dólares faturado por "Super Mario Galaxy" e pelos US$ 959 milhões arrecadados por "Michael", Hollywood anda num namoro com os filmes derivados de videogames e com as biopics de aves canoras como Michael Jackson. Longas-metragens com super-heróis da Marvel e DC parecem coisa do passado, ainda que a expectativa por "Homem-Aranha: Um Novo Dia" (agendado para 29 de julho) e "Vingadores: Doutor Destino" (atração do dia 17 de dezembro) esteja grande.

Esse "grande" só não está tão eivado de certezas como se viu nos tempos em que Sam Raimi fez de Tobey Maguire seu Peter Parker, em luta contra o Duende Verde (em 2002) ou o Doutor Octopus (2004). Tampouco se vê a mesma reverência (até da crítica) que cercava a trilogia "Batman", com Christian Bale, de Christopher Nolan. A derrapada no jogo se deu quando (o horrendo) "Thor: Amor e Trovão" (2022), de Taika Waititi, e "Adão Negro", de Jaume Collet-Serra, ambos de 2022, deram sinais de rouquidão num veio - a adaptação de HQs - que parecia ter o canto da sereia para atrair multidões.

Num tempo de risco para essa vertente do pop, as fragilidades a granel de "Supergirl" comprometem todo um sistema simbólico (de lucro). Existe nele uma dimensão urgente e bem-vinda de combate ao sexismo, o que justifica sua existência (e clama por respeito). Mas a burocracia em sua direção fala mais alto do que os componentes políticos em seu arranjo formal.

Há um ator em cena... só um... em estado de graça: David Krumholtz (de "Lousy Carter"), que vive Zor-El, o pai da protagonista, Kara, a Supergirl do título. Ela, que deveria reluzir, não tem brilho algum, na atuação sem viço e sem carisma de Milly Alock (a jovem Rhaenyra Targaryen de "A Casa do Dragão"), que parece deslocada em cena. A direção do australiano Craig Gillespie não foi capaz de empolga-la, nem consegue contagiar o público, numa linha narrativa despida de poesia e de carga épica. Parece que um gerente de banco dirigiu a saga de Kara para salvar seu cão, Krypto, de um envenenamento provocado por um bando de saqueadores estelares liderado por Krem (o belga Mathias Schoenarts, distante da exuberância que esbanjava em "Ferrugem e Osso"). O vilão tornou órfã uma jovem, Ruthye (Eve Ridley), que conta com o apoio de Kara para se vingar. Entre as duas e o bandidão, aparece Lobo, um ferrabrás digno do Wolverine, temido no universo dos quadrinhos da editora DC Comics, a quem Jason Moma reduz a um arremedo de Deadpool.

Reciclada, repaginada e renovada nas artes gráficas graças ao trabalho da quadrinista paulista Bilquis Evely, na minissérie "A Mulher do Amanhã" (2021), lançada aqui pela Panini, a Supergirl é prima de Kal-El, o Superman (agora encarnado por David Corenswet), mas não vive à sombra dele. É signo de empoderamento desde que foi criada, na sagacidade do roteirista Otto Binder (1911-1974) e do desenhista Al Plastino (1921-2013), em maio de 1959, na revistinha "Action Comics" nº 252. Gillespie, que extraiu atuação seminal de Margot Robbie em "Eu, Tonya" (2017), não parece ter entendido essa dimensão empoderada, ao filmar o script da roteirista (de DNA brasileiro) Ana Nogueira. Perdeu-se na kryptonita. Lex Luthor há de aplaudi-lo.