Festival de Munique homenageia David Duchovny
Dividido entre uma jornada de shows, o cinema e a escrita de romances, o Fox Mulder de 'Arquivo X', hoje com 65 anos, recebe as honras de evento alemão
Sempre que os festivais alemães são listados, a Berlinale, realizada em fevereiro, há 76 anos, é o evento mais lembrado, embora este ano, graças a uma homenagem a David Duchovny, a maratona cinéfila de Munique possa alcançar holofotes similares aos da mostra de filmes da capital de sua pátria. No dia 4 de julho, o eterno Fox Mulder, da série fetiche "Arquivo X", será premiado com o CineMerit Award, pouco antes de o Filmfest München, exibir seu mais recente trabalho como ator: a tragicomédia "See You When I See You".
A honraria chega numa das fases mais multifacetadas de sua trajetória artística, que decolou na década de 1990, na TV. "Tem horas que a gente precisa ir para o rock'n'roll", disse Duchovny num palco da Áustria, há cinco anos, quando sua aposta na música atraiu a mídia internacional.
A curadoria do Festival de Munique justifica o tributo a ele com base na excelência do astro, nascido em Nova York há 65 anos: "David Duchovny é um daqueles artistas capazes de se reinventar sem jamais abandonar os próprios instintos. Com o nosso Prémio CineMerit, queremos homenagear o seu charme inimitável, a sua extraordinária curiosidade e a sua disposição permanente para explorar novas fronteiras criativas. Um verdadeiro ícone da cultura pop está a chegando à cidade", explicam, num comunicado em duo, Julia Weigl e Christoph Gröner, diretores artísticos do evento.
Duchovny prepara o lançamento de seu quarto álbum de estúdio, ainda sem título definitivo divulgado, previsto para chegar ao mercado nos próximos meses. O trabalho vem sendo antecipado pelos singles "Prince of Pieces", lançado em junho e apresentado pelo próprio artista como a faixa central do projeto, e "Stay on the Train", divulgado anteriormente e marcado por reflexões sobre amadurecimento, paternidade e resistência emocional. Embora não tenha anunciado uma turnê internacional para 2026, o ator e cantor mantém a atividade musical como uma das principais frentes de sua produção artística. Em seus shows, continua misturando composições autorais a releituras de clássicos do rock, preservando a influência confessa de David Bowie e das baladas americanas dos anos 1970.
Mas a música é apenas uma parte de um percurso cada vez mais amplo. Na literatura, Duchovny consolidou uma obra que transita entre humor, existencialismo e observação social. Depois de romances como "Holy Cow" (editado no Brasil pela Record), "Real Como Um Relâmpago" (lançado pela Buzz Editora), "Miss Subways", "Bucky F*cking Dent", ele lançou em 2025 seu primeiro livro de poesia, "About Time: Poems", ampliando uma produção literária que já lhe garantiu reconhecimento muito além da televisão e da telona.
A inquietação diante do comportamento humano sempre esteve presente em sua carreira. Revelado no início dos anos 1990 no papel do agente Dennis (em transição para virar Denise) em "Twin Peaks", Duchovny ganhou projeção no cinema com "Kalifornia" (1993), ao lado de Brad Pitt e Juliette Lewis. Foi ofuscado por Pitt, mas provou ter talento e carisma, um binômio essencial para a biosfera televisiva numa época em que seriados, embora bem-sucedidos, ainda não eram o coração da indústria do entretenimento nos EUA. Foi aí que veio "Arquivo X", projeto do jornalista e roteirista da Disney Chris Carter para explorar a mística em torno de ETs. Duchovny foi escolhido para ser Mulder, um agente "chave de cadeia" do FBI, daquele tipo que coleciona encrencas, escolhido para encampar uma divisão nova, dedicada a explorar fenômenos sobrenaturais. Nascia ali um mito da telinha, celebrizado por um bordão: "A verdade está lá fora".
"Eu sei que alguns aqui vieram atrás de Mulder, mas vamos ouvir música agora", diz ele, toda vez que sobe ao palco, ao cantar seu hit principal, "Hell or highwater", que disfarça sua alma melancólica numa batida pop. "Minha ideia é levar ao público uma batida como a das baladas dos roqueiros dos anos 1970. Tento compor minhas músicas sendo o mais universal possível, sem especificar temas. Só tento ser o mais pessoal possível", disse ele ao site AXS.Com.
Cantar letras como "Someone else's girl', uma das canções mais pedida do CD "Every Thrid Thought", hoje é mais significativo para Duchovny do que relembrar a trajetória que fez dele um fetiche das fãs da ficção científica, coroado com um Globo de Ouro, em 1997. A seu lado, havia Gillian Anderson, a cerebral agente Dana Scully. Mulder era pura crença: em ETs, em lobisomens, em fantasmas e na irmã que seres do espaço levaram. Dana era o ceticismo em pessoa, incumbida em impedir o parceiro de fazer loucuras, até perceber que ele tinha razão. Essa percepção fez o seriado multiplicar sua audiência e inspirar um longa-metragem, lançado em 1998, que faturou US$ 189 milhões - menos do que o esperado.
Numa química perfeita, nas aparências, Duchovny e Dana ficaram no ar até o fim dos anos 1990, quando o astro pediu à Fox para sair, ensaindo um protagonismo em Hollywood que nunca colou. O ator Robert Patrick (o T-1000, androide de metal líquido, de "Exterminador do Futuro 2") ficou em seu lugar, como agente John Doggett. Ele foi fazer filmes como a comédia romântica "Feitiço do coração" (2000), com Minnie Driver, e a chanchada sci-fi "Evolução" (1991), que fracassou fragorosamente. Acabou voltando para encerrar a saga de Mulder.
"Hoje o que me mais interessa é ser um músico em evolução, que se arrisca a compor com dedicação", disse ele à imprensa americana ao lançar "Every third thought", repetindo nos shows um outro bordão, que não o "A verdade está lá fora" de Mulder, mas sim o xingamento "Motherfucker!", gritado por seu segundo personagem mais famoso, o escritor mulherengo Hank Moody, de "Californication", que lhe valeu outro Globo de Ouro, em 2014.
Em 2016, ele e Gillian reabriram o "Arquivo X", mas sem o mesmo êxito. A concorrência com séries de canais de streaming, como "Strangers things", da Netflix, era incontornável e desleal, embora, atualmente, haja um novo "The X-Files" em desenvolvimento para a plataforma Hulu, comandada pelo cineasta Ryan Coogler (de "Pecadores"), estrelada por Danielle Deadwyler e Himesh Patel;
Há tempos, a cabeça de Duchovny não está mais "lá fora", entre extraterrestres, mas, sim, em projetos variados. Ele é um criador dos mais plurais. Daí o mimo de Munique.