'Madame Satã' abre mostra Quem Quer Queer? 2026 no Rio

Cult do cearense Karim Aïnouz pede passagem pelo cinema de Botafogo em retrospectiva queer, desafiando tabus, à espera do novo longa de Karim Aïnouz

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O jovem Lázaro Ramos tem atuação colossal em "Madame Satã" (2002)

Regado a autoralidades em sua luta para debelar o preconceito, a edição 2026 da retrospectiva Quem Quer Queer?, do Grupo Estação abre a telona da Voluntários da Pátria nº 35, às 17h10 desta terça-feira, pra "Madame Satã" (2002), no empenho de fazer um dos mais eletrizantes cults da Retomada cativar novas gerações. Lançado há 24 anos, via Cannes, o longa-metragem de estreia do cearense Karim Aïnouz não apenas revelou um cineasta de imaginação febril, interligado com as artes visuais, como abriu uma avenida inédita para a dissidência passar. É um ensaio sobre o que o statuos quo apelidou de desviante, a fim de opor a marginalidade às suas normas na invenção de identidade no cinema brasileiro contemporâneo.

Inspirado na trajetória do pernambucano João Francisco dos Santos (1900-1976), figura lendária da noite na Lapa, que atravessou a primeira metade do século XX entre a malandragem, a boemia e a resistência social, o filme de Karim rejeita a armadilha da cinebiografia convencional e não se rende aos feitos do homem que o impulsiona. Karim nunca se interessou por transformar Madame Satã em monumento histórico, nem buscar dar reverências a ele. Seu interesse - reconhecido pela plateia da mostra Un Certain Regard de Cannes, onde nasceu - está em captar uma força vital em permanente combustão.

A câmera do diretor de fotografia paraibano Walter Carvalho segue gulosa os corpos comprimidos pela pobreza, pelo racismo e pela violência institucional, a se destacar a voz de Eduardo Coutinho, pilar do documentário, a encarnar uma autoridade que enuncia seu destino, sem ser vista. Walter, em fricção com o desejo de descoberta de Karim, ajuda a incendiar a mítica de reinvenção. O Satã bom de briga vivido por Lázaro Ramos surge como um sujeito em errância plena, que desafia interditos. É pai (adotivo)... e dos mais afetuosos, é artista dos palcos, costuma ainsa ser um criminoso ocasional na ladroagem. Fora isso, é um amante voraz de homens suados e carentes. É um sobrevivente e um símbolo de liberdade. O devir diva lhe dá força, no sonho de brilhar na arte do canto e da dança, embalado nos versos "Aurora... vem raiando... anunciando".

Na virada dos anos 1990 para os 2000, quando o cinema nacional ainda buscava consolidar os caminhos da chamada Retomada, "Madame Satã" apareceu como um corpo estranho, a um só tempo refinado e feroz. Sua encenação visceral, de uma sensualidade tensa, afastava-se tanto do realismo televisivo quanto do naturalismo predominante em parte da produção da época. Karim fazia da Lapa uma arena de tesões e compassos de capoeira.

Cerca de duas décadas e meia depois de seu lançamento elogiado, a Madame Satã de Lazinho ainda impressiona por sua ousadia formal, sem medo de ser belo. Questões ligadas à identidade de gênero, à performatividade, à ocupação dos espaços urbanos e à construção política dos corpos aparecem ali, despidas de didatismo, livres dos AITs da correção política. Nada vira bandeira. Tudo se dá à flor da pele e explode como reconhecimento da experiência sensível.

A força de "Madame Satã" também ajuda a compreender a trajetória posterior de Karim. "Praia do Futuro" (2014), (sua obra-prima) "A Vida Invisível" (2019) e "Motel Destino" (2024) batem cabeça para almas deslocadas.

No segundo semestre, em dobradinha com a MUBI, ele lança "Rosebush Pruning", apresentado na competição da Berlinale de 2026. Na capital alemã, ele rachou opiniões com a opulência com que retrata uma família aristocrática dos EUA, alocada na Espanha e abalada pela perda da matriarca (Pamela Anderson). Fez um "Dallas" cheio de tesão. Incesto, traição e ataques de lobos desenham essa releitura que o diretor de Karim fez (com elenco internacional classe AA) do cult italiano "De Punhos Cerrados" (1965), de Marco Bellocchio. A fotografia da francesa Hélène Louvart é seu trunfo. O desempenho do dramaturgo e ator Tracy Letts como um patriarca cego é memorável. Que estreie logo...