Animação brasileira ganha o mundo em Annecy, Xangai e Munique
Curtas e longas nacionais de animação espalham-se pelos maiores festivais do Velho Mundo, afirmando a vitalidade da produção em diferentes técnicas
Órfãs do Anima Mundi (1993-2019), paralisado na Era Bolsonaro, as animações brasileiras aprenderam a ser globetrotters. Elas seguem ampliando fronteiras, aqui e no exterior, mesmo com a queda de público nas salas e a hegemonia das superproduções hollywoodianas, transformando 2026 num dos anos de mais forte cosmopolitismo já vividos pelo setor. Lotamos - com curtas e o longa "O Filho da Puta" - várias sessões no Festival Annecy, na França, que começou no domingo e segue, terça-feira adentro, na sua intensa programação profissional com o início do Mifa.
É esse o nome dado ao principal mercado mundial de narrativas animadas. Enquanto uma série de cineastas de vários cantos do país tentam sorte no evento, encarado como se fosse o Festival de Cannes para quem faz desenho animado, seguimos em cartaz in loco, em casa, com o eletrizante exemplar do filão nordestern "Cordélicos - A Origem do Cabra da Peste". No Rio, esse faroeste sabor macaxeira está em sessões diárias no Kinoplex Boulevard.
Em meio ao bonde de filmes brasileiros que circula pelas diferentes mostras de Annecy, outro título nacional animado ganha destaque do outro lado do planeta. Na China, "Amadeo e o Hipotético Mundo Novo", dirigido por Brenda Lígia e Edu Felistoque, integra a competição do Festival Internacional de Cinema de Xangai, um dos eventos cinematográficos mais importantes da Ásia. O longa apresenta uma fantasia histórica ambientada no Brasil de 1830 e acompanha Amadeo, jovem negro de origem africana, sensível e genial, que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Com sua criação, ele passa a auxiliar a libertação de pessoas escravizadas enquanto vive uma paixão impossível pela filha de um poderoso barão.
"É uma alegria ver nosso filme 'Amadeo' nascendo do outro lado do mundo", afirmou Brenda Lígia no material de divulgação da produção. "Nossa animação é muito plural, pois é composta por uma equipe diversa".
Paralelamente, outra produção brasileira segue viagem pela Europa. "Papaya", longa dirigido por Priscilla Kellen, exibido antes na Berlinale e no BAFICI (Buenos Aires) prepara sua passagem pelo Festival de Munique, cuja edição de 2026 acontece entre 26 de junho e 5 de julho, reforçando a presença do Brasil em alguns dos mais importantes eventos cinematográficos do calendário internacional. O festival alemão é considerado o maior evento de cinema de verão do país e um dos mais relevantes da Europa para lançamentos e descobertas de novos talentos.
Banho de sinestesia, com um colorido lisérgico sintonizado com a musicalidade de Tulipa Ruiz, "Papaya" é uma aventura a um só tempo ecológica e existencialista segue os rastros de um carocinho de mamão que não aceita se fincar na terra para firmar raiz e estagnar. Observando uma joaninha voar, a protagonista desta dulcíssima animação quer singrar céus, ainda que não tenha asas. Ao perceber a violência do predatismo industrial da agricultura, ela repensa o que é liberdade. O trabalho de montagem de Elaine Steola é de uma destreza ímpar.
Entre Annecy, Xangai e Munique, a animação brasileira confirma uma rara capacidade de ocupar simultaneamente os centros decisórios do mercado internacional e os grandes palcos de exibição artística. Num momento em que o país amplia sua visibilidade global no audiovisual, personagens como Amadeo, a pequena semente voadora de Papaya e os cangaceiros de Cordélicos demonstram que a criatividade brasileira continua encontrando caminhos cada vez mais largos para circular Terra adentro. Em maio, em Cannes, um dos projetos latinos a passar pelo Marché du Film foi "La Marca del Jaguar", que une Brasil e México, sob a realização de Victor Mayorga. A produtora brasileira Origem Content, de Ducca Rios e Maria Luiza Barros — conhecida por Meu Tio José e Revoada - Versão Steampunk —, em sinergia com a distribuidora Tucuman/Fênix, liderada por Priscila Miranda do Rosário, associa-se à mexicana Ocelotl Company para levar o projeto ao circuito internacional. No argumento, Xilacatzin, uma jovem guerreira que ostenta a marca do jaguar no peito, vive uma aventura épica quando a deusa Itzpapalotl rouba os ossos sagrados do Templo Mayor, ameaçando aniquilar a humanidade. Injustamente acusada do roubo, Xilacatzin foge para recuperar os ossos e salvar o mundo.
Nesta quarta, Annecy confere a delícia francesa "Blaise", de Dimitri Planchon e Jean-Paul Guiguie. Em sua trama, a família Sauvage só quer ser amada. A matriarca, Carole, sabe que seus funcionários a odeiam. Jacques, seu marido, sente-se menosprezado, e o filho deles, Blaise, é um introvertido de 16 anos sem muita convicção, que sempre concorda com tudo, ainda que de forma hesitante... exatamente como faz com Joséphine. Ela também é ativista e está pronta para causar a maior confusão.
Annecy segue até domingo.