Cinebiografia de Zeca Pagodinho mostra a virada do sambista

Zeca Pagodinho vira filme, numa recriação de sua trajetória, das lutas de moleque suburbano ao sucesso nas rádios, com Silvio Guindane na direção e o sambista Mosquito no papel central

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Mosquito mostra desenvoltura diante das câmeras em seu primeiro trabalho como ator

Comprometido até 19 de dezembro com a turnê "O Maior Encontro Do Samba", com a qual vai rodar o país em trio com Alcione e Jorge Aragão, de Brasília a Salvador, Zeca Pagodinho não tem shows no Rio agendados para as próximas semanas. Abre brecha para dar um pulinho em Vila Velha, no Espírito Santo, no dia 15 de agosto, para soltar o gogó no Festival Movimento Cidade, no Parque da Prainha. Até lá, é possível que o ator e realizador Silvio Guindane já tenha um primeiro corte de "Deixa a Vida Me Levar", a cinebiografia do curió de Xerém. Aposta quente para as bilheterias de 2027, o novo longa-metragem do diretor de "Mussum, O Filmis" (2023) foi rodado ao longo do mês de maio, pegando uma fatia de junho, em vários pontos do Rio, como a Serrinha e o Rio Comprido, rondando o nosso subúrbio, com uma paradinha na Penha, onde o Correio da Manhã teve a chance de acompanhar um dos sets. É o músico Mosquito (Pedro Assad Medeiros Torres), cria da Ilha do Governador, quem vive o intérprete dos versos "Descobri que te amo demais" em sua fase de galeto ao belo canto, nos anos 1980.

"Pouca gente cantou o Brasil com o Zeca, que é um dos pilares da minha formação musical", diz Mosquito, enquanto caminhava de uma sequência numa mesa de bar para filmar num carro.

Lucas Ramos/Divulgação - O clã de Zeca ganha vida: Ângelo Antônio (Seu Jessé) e Aline Borges (Dona Irinêia)

O trecho dá conta de um momento de virada na vida de Jessé Gomes da Silva Filho, que nasceu em Irajá, em 4 de fevereiro de 1959, e foi criado em Del Castilho. É uma hora em que, na busca por independência, ele resolve viver do próprio esforço, sem ser sustentado pela mãe, Dona Irinéa, e pelo pai, Seu Jessé - vividos no longa por Aline Borges e Ângelo Antônio. Nessa fase, vira apontador do jogo do bicho. A escolha quebra o coração de Irinéa.

"Zeca é um Brasil possível... um Brasil preto e potente... resultante de um sistema que deu errado", diz Guindane, fiel à pedra fundamental temática (decolonial e autoral) de seu cinema, de fugir do "arquétipo do negro cachaceiro" que agrada as elites. "Com sua arte, que conversa com a esquerda, com a direita e com o centro, Zeca transgrediu o pensamento da Casa Grande acerca do que esperar dos corpos pretos e zera qualquer rejeição à sua música. Eu, que nasci preto, na Baixada, e faço audiovisual desde criancinha, quando pegava três ônibus para voltar para casa, quero colocar na tela a pessoa Zeca. Uma pessoa que está na base da população. E eu o faço sem cagação de regra, confiante apenas na retórica que está nas canções dele".

Ex-feirante, ex-camelô, ex-office-boy, ex-contínuo e ex-anotador do bicho, Jessé se torna Zeca nos acordes do partido-alto, na convivência com sambistas experientes, que formaram a base de seu estilo autêntico, espontâneo. No Cacique de Ramos, a lagarta virou borboleta, ao som do batuque e no calor das amizades (e das parcerias) com Arlindo Cruz, Almir Guineto, Beto Sem Braço, Jorge Aragão, Bira Presidente e a diva Beth Carvalho.

"Ele vem de um Rio menos turístico, que não perde a carioquice", diz Nonato Estrela, um dos mais experientes diretores de fotografia da América Latina, que vem mantendo um casamento estético dos mais felizes com Guindane, numa parceria de luz e câmera que é pura ação. "Eu venho de Hugo Carvana, de José Joffily, diretores que têm um espírito cronista no olhar para o Rio, e encontro o Silvinho... um baita ator... agora como diretor, a demonstrar uma capacidade criativa digna desses mestres. É um artista que está descobrindo sua linguagem falando, nesse projeto sobre o Zeca, de uma perspectiva romântica, de cinema italiano, sobre o Rio".

Lucas Ramos/Divulgação - A maquidora Fabiola Gomez prepara Mosquito e Talita Younan, que interpreta Mônica, amor e pilar de Zeca

Parte desse clima romântico, de que Nonato fala, remonta à presença de Mônica Silva, paixão da vida de Zeca, em sua travessia da juventude pobre ao sucesso da maturidade. Talita Younan é quem interpreta essa figura que é um signo de força feminina.

"Depois que eu conheci a Mônica pessoalmente, eu entendi tudo daquela relação: ela é a força do Zeca. Merece ser homenageada em qualquer discurso que se faça sobre o Zeca, pois ela sempre soube acolhê-lo, sempre esteve lá para apoiá-lo, como homem, como artista", exalta Talita, constatando, no coração da Zona Norte, uma verdade sobre o protagonista de "Deixa a Vida Me Levar". "Em qualquer lugar desse país que você for, vai ter um lugar tocando as músicas do Zeca".

Ao lado dela, um expoente da nova geração de bardos do RJ, Arlindinho, preparava-se para contracenar com Mosquito, de quem é amigo e parceiro musical na vida privada. Ele interpreta o próprio pai, Arlindo Domingos da Cruz Filho, que morreu no dia 8 de agosto de 2025, aos 66 anos. Faz jus, em cena, ao hino imortalizado pelo pai, aquele "O Show Tem Que Continuar", imortalizado nos tímpanos deste país.

"Zeca é um padrinho que acompanha a minha caminhada desde os meus primeiros dias de vida, com quem eu já bebi muita cerveja. Esse filme, de uma certa forma, é uma extensão da minha vida. É duplamente uma eternização de amizades. De um lado a amizade do Zeca com o meu pai e, do outro, a amizade minha pelo Mosquito", explica Arlindinho.

Pertinho dele, estava Ângelo Antônio, intérprete de Seu Jessé. Na ocasião da visita do Correio - o feriado de Corpus Christi -, o astro celebrava seu aniversário. Uma vez mais, a estrela de "2 Filhos de Francisco" (2005) se encontra às voltas com uma figura paterna forte.

"Jessé é tranquilo, fala baixinho, carrega amor por aquele filho", diz ator, celebrizado como o Beija-Flor de "O Dono do Mundo" (1991) antes de ser abraçado pelo cinema.

Lucas Ramos/Divulgação - Sílvio Guindane orienta Mosquito no set de filmagens

Um mesmo abraço se ensaia sobre Mosquito na rodagem de "Deixa a Vida Me Levar", cuja dramaturgia vai de 1982 a 1995, inspirada no livro "Zeca: Deixa o Samba Me Levar", de Jane Barbosa e Leonardo Bruno. Com produção de Marco Altberg, fundador e CEO da Indiana Produções, longa foi roteirizado por Roberto Faustino, que também é coprodutor.

"Zeca trazia consigo várias boas histórias de vida... muitas, mas não necessariamente elas davam filme, sobretudo, um bom filme, que é a nossa meta. A partir delas, eu busquei um recorte, que dura 13 anos e me apresenta um anti-herói muito brasileiro", diz Faustino. "Zeca é aquele cavalinho que sai em último lugar na raia, mas cruza a linha de chegada em primeiro, sem que ninguém apostasse naquele pangaré. Ali está a jornada".

Já no forno, "Deixe a Vida Me Levar" tem patrocínio da Ambev e da Naturgy, distribuição da Paris Filmes e coprodução da Claro, Riofilme, FSA/Ancine. É uma mirada que tempera o social com uma esperança pagodeira. Não por acaso, o próprio Zeca acompanhou as gravações ao lado da equipe do filme, nas tomadas em Xerém, e encontrou seu amigo de longa data, o ator e diretor Antônio Pitanga, participando de sequências que prometem surpresa e, pra ganhar o nosso amor, darão rasteira na nossa emoção.

Lucas Ramos/Divulgação - Quando as filmagens passaram por Xerém Zeca Levou Antônio Pitanga para passear em seu famoso triciclo

"Uma vez, o Cacá Diegues, um dos meus mestres, disse: 'Eu não tenho compromisso com a miséria, mas tenho o dever de dar protagonismo aos miseráveis'. Eu levo essa frase bonita e generosa para a travessia do Zeca, um artista do Irajá que foi para Xerém, já consagrado, num gesto de quebrar com o sistema, sem vestir o paletó de capitão do mato oferecido aos pretos a quem a elite deseja ter por perto", analisa Guindane, que trouxe de "Mussum, O Filmis" a iluminada sabedoria de Nonato, parte da equipe técnica e Aílton Graça, escalado para viver um tio determinante no crescimento de Zeca. "Biografar uma pessoa viva é um desafio. Mas essa pessoa que é o Pagodinho compensa a bronca. Ele dá orgulho".