'Cada vez mais, a tecnologia evolui para registrar o aumento da barbárie'

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Fernando Ceylão

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

Dramaturgo e encenador consagrado nos palcos por "Como é Cruel Viver Assim" e "Meu Nome é Reginaldson", Fernando Ceylão já fez de tudo no audiovisual (é roteirista, ator, músico e já foi comediante fixo no "Mais Você", de Ana Maria Braga), alimentando o sonho de menino de um dia ser cineasta, como o Spielberg que tanto ama. Há cerca de duas semanas, o festival Cine PE, no Recife, oficializou esse projeto de vida dele com o carimbo da excelência, ao laurear o longa-metragem de estreia desse multiartista carioca, "Resta Um", com os prêmios de Melhor Filme e Melhor Roteiro. A produção de tons distópicos venceu ainda nas categorias de Interpretação Coadjuvante, coroando Perla Carvalho e Ítalo Martins.

Ceylão filmou outro longa, o drama edificante "Cartas Para Deus", enquanto "Resta Um" estava em montagem. A trama premiada no Recife se passa num futuro torto, onde um homem (Caco Ciocler) precisa vencer debates online, promovidos pelo governo, para sobreviver. Temendo pela vida e pela possibilidade de deixar sua esposa doente (Maria Ribeiro) sozinha, ele se torna um vencedor implacável, mas pode se perder nessa realidade, onde a dor vira entretenimento.

Agora consagrado como realizador, Ceylão fala de sua arte para o Correio da Manhã.

De que maneira o formato de distopia de "Resta Um" se alinha com o olhar que você busca sobre o Brasil e de que forma o seu filme pode ser um sinal de alerta?

Fernando Ceylão - Curiosamente, esse filme não nasceu da necessidade de contar uma história ou de dizer algo. Ele nasceu da necessidade de realizar um filme. Eu tinha, naquela altura, 62 ideias anotadas no meu arquivo "filmes que quero fazer um dia". Nenhuma delas cabia em um baixo orçamento. "Resta Um" nasce, essencialmente, dessa necessidade de ter um roteiro que, em último caso, eu pudesse fazer com dinheiro do bolso e um grupo de amigos. Quase que "de trás para a frente" no processo de criação. Aos poucos, fui juntando ideias. Pensei em uma velha ideia para um curta ao estilo da série "Além da Imaginação", em que a sociedade precisaria escolher quem deveria seguir vivo e quem deveria ser eliminado. Pensei que passamos grande parte do tempo diante de telas. Em algum momento, comecei a entender que o que mais me preocupava naquela altura — e continua me preocupando hoje, até porque não se passou tanto tempo — era a possibilidade que a internet trouxe da ascensão do idiota a cargos de poder. Eu me assusto demais ao ver como pessoas que não têm qualquer projeto de Brasil se tornam ídolos e acabam se elegendo para cargos públicos. A situação piora pelo fato de essas pessoas serem, em sua maioria, cidadãos que estavam à margem em suas respectivas funções e são movidos a rancor e ressentimento.

Como essa premissa vira dramaturgia?

Hoje, alguém que brade palavras de ordem violentas e destrutivas é admirado por uma fatia grande da população. Um jogo criado pelo governo, no qual os votantes podem eliminar aqueles que não consideram "cidadãos de bem", é uma ideia que acaba canalizando tais medos e, assim, torna-se um alerta, sobretudo em mais um ano de eleições, que será decisivo para o futuro da democracia. Cada vez mais, a tecnologia evolui para registrar o aumento da barbárie.

O que a premiação em Recife aponta como futuro para a sua estreia?

Conversando com jornalistas que estavam na coletiva do filme, fui entendendo como vencer um dos maiores festivais do país volta os olhares para a obra. Um jornalista chegou a me dizer que agora se torna urgente lançar o filme, e isso não só me animou bastante, mas me fez transmitir essa sensação para a distribuidora. Por ser um filme não tão parecido com os que eles costumam lançar, acho que esperavam alguma repercussão ou resultado como esse, do Cine PE, para então lançá-lo. Gostaria muito de estrear o filme ainda este ano. Afinal, é ano de eleição e teremos inúmeros debates.

Como foi o papel de Patrícia Chamon para a trajetória de "Resta Um" e "Cartas Para Deus"?

Criei o filme para, em último caso, poder filmá-lo da forma mais guerrilheira possível. A vida acabou me colocando diante da Patrícia por acaso. Ela tinha uma verba e procurava um projeto. Queria uma comédia, a princípio, mas acabou se apaixonando pelo projeto. Ela foi fundamental para que o filme existisse, mas, acima disso, foi fundamental na minha vida. Quero dirigir cinema desde os nove anos de idade, e ela foi a primeira pessoa que me permitiu isso. Escrevi vários roteiros que tentei dirigir e jamais me deixaram dirigir. Ela deixou. Não só o meu primeiro filme, mas também o segundo e o terceiro. Infelizmente, ela veio a falecer. Morreu de câncer, tal qual o personagem principal de "Cartas Para Deus". Isso dá ao filme um caráter muito especial e delicado. Há de ser feito um lançamento com tamanha responsabilidade. "Cartas Para Deus" é um filme com bastante apelo popular e foi filmado com o mesmíssimo cuidado de "Resta Um".

Qual foi a principal lição que "Resta Um" lhe trouxe?

Que dirigir um filme é se afastar do sonho a cada minuto. Você idealiza um filme, desenha-o inteiro, pensa em cada cena, cada detalhe, cada easter egg (referência escondida). Depois vai para o set e vive a realidade de ter que resolver um problema a cada minuto. Sabe aquele cronômetro do xadrez que o enxadrista aperta quando termina de pensar a jogada? No cinema, o diretor aperta esse botão a cada minuto.

Que planos você tem para "Resta Um" agora? O que filma em seguida?

Além de lançar o filme, gostaria de pensar em formas de fazê-lo "virar assunto" e tentar que ele faça algum barulho. Em um mundo tão segmentado, o natural é um filme estrear e nada, absolutamente nada, acontecer. Isso acontece no mundo todo. "Cabo do Medo", na versão série, por exemplo, estreou e ninguém deu muita bola. Gostaria muito de encontrar um jeito de o filme virar assunto. Fora isso, na coletiva em Recife, o crítico Miguel Barbieri falou uma coisa que ficou na minha cabeça: "Resta Um" tem potencial para ser vendido para diversos países que fariam suas respectivas versões. Confesso que fiquei com esse sonho. Além disso, tenho três projetos muito diferentes, um em cada produtora: um filme de fé com algo semelhante a "Cartas Para Deus", uma comédia romântica policial e uma comédia envolvendo extraterrestres. O que sair primeiro será o que filmarei primeiro.