Festival na Transilvânia celebra 25 anos com cinema de vários países

Há 25 anos, o Festival de Transilvânia faz da terra natal de Vlad, o Empalador, um perímetro de celebração das potências autorais, com espaço rarefeito para a América do Sul

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Praça de Cluj-Napoca decorada com os motivos celebrativos do festival

Coroada com a Palma de Ouro de 2026, em Cannes, há cerca de um mês, pela excelência de "Fjord", de Cristian Mungiu, a Romênia tem um patrimônio cultural inestimável, embora dos mais controversos, na figura de Vlad III, ou Vlad, o Empalador, chamado na língua deles de Draculea, líder político e senhor da guerra que nasceu em 1431 e morreu em 1476, ali pelos 45 anos, entrando para a posteridade (e para ficção) como o mais famoso vampiro de que se tem notícia.

O cantinho da Valáquia onde governou é conhecido pela Transilvânia, região do centro de sua pátria, cercada pelos Montes Cárpatos e marcada por extensas áreas florestais. Ocupa, nos marcadores da Geografia, cerca de 100 mil quilômetros quadrados do território romeno e abriga uma população estimada em 6 milhões de habitantes. Seu principal centro urbano é Cluj-Napoca, cidade localizada a aproximadamente 450 quilômetros de Bucareste — percurso que demanda entre seis e sete horas de carro, dependendo das condições de tráfego.

O tanto que se fala em Drácula por lá, fala-se de cinema, sobretudo nesta época do ano, em que aquele perímetro de uma Europa mais empobrecida abriga um dos mais respeitados festivais de filmes do planeta, de 2002 (quando surgiu) para cá. Com sessões por salas tradicionais de sua zona urbana e por espaços alternativos, além de projeções ao ar livre, aquela maratona cinéfila, hoje celebrando 25 edições, abriu tela no Dia dos Namorados e encerra seus trabalhos no domingo, com a projeção da comédia canadense "Folichonneries", de Eric K. Boulianne.

 

Divulgação - 'Folichonneries', do Canadá, fecha a grade de exibições da terra de Vlad Tepes

O Brasil não teve vez por lá este ano, mas a América do Sul se destaca na competição central (a lista ao lado) com "Hangar Rojo", do Chile, que veio consagrado da Berlinale. Dirigido por Juan Pablo Sallato, com base num orçamento de US$ 700 mil e apenas 16 dias para dar conta da tarefa de recriar a América do Sul da década de 1970 na província de Mendoza, na Argentina, este thriller político não contou com o apoio do estado chileno. A marola de dificuldades não limitou seu talento ao rever a saga de um capitão da Força Aérea que enfrentou suas autoridades fardadas durante o golpe que tirou Salvador Allende do Poder, em 1973. É um estudo delicado sobre a psiquê dos militares que rechaçaram ditaduras. Sallato encara um júri que conta com a programadora holandesa Sandra den Hamer, executiva do Netherlands Film Fund; o ator irlandês Aiden Gillen; o diretor de fotografia e cineasta romeno radicado no México Noaz Deshe; a cineasta sérvia Ivana Mladenovic; e o distribuidor polonês Roman Gutek.

Villano - 'Hangar Rojo' remonta às origens da ditura no Chile, em 1973, em coprodução com a vizinha Argentina

A Não ficção reina na Transilvânia na seção "What's Up, Doc?", que completa cinco anos como mostra independente, com júri próprio. Disputam o prêmio principal "We Were Left Alone", de Adrián Canoura (Espanha); "Goodbye Sisters", de Alexander Murphy (França); "Bouchra", de Orian Yani Barki e Meriem Bennani (Estados Unidos); "Motel Paraiso", de Jose Eduardo Castilla Ponce (México); "Hex", de Maja Holand (Noruega); "Variations on a Theme", de Jason Jacobs e Devon Delmar (África do Sul); "Of Mud and Blood", de Jean-Gabriel Leynaud (França); "The Seoul Guardians", de Kim Jong-Woo, Kim Shin-Wan e Cho Chul-Young (Coreia do Sul); "Memory", de Vladlena Sandu (França); e "Far From Maine", de Roy Cohen (França). Segundo a curadora Craita Nanu, apesar das diferentes origens geográficas, os filmes dialogam em torno de temas como afeto, proximidade humana, memória e busca pela verdade.

Divulgação - 'Truly Naked', de Muriel d'Ansembourg, é parte da retrospectiva dos Países Baixos na maratona romena

Destaques paralelos

Um dos destaques paralelos da edição é o foco dedicado ao cinema dos Países Baixos. A mostra reúne produções recentes e clássicos fundamentais da cinematografia neerlandesa. Entre os títulos mais conhecidos pelo público brasileiro estão "O Silêncio do Lago" (1988), um thriller de George Sluizer que se tornou cult em âmbito global; "Sem Controle" ("Spetters", 1980), de Paul Verhoeven, marco da carreira do realizador antes de sua mudança para Hollywood; e "Truly Naked", estreia de Muriel d'Ansembourg. A curadoria dessa seção foi assinada por Evgeny Gusyatinskiy, integrante da equipe do Festival de Roterdã.

Outro holofote da programação da Transilvânia é a retrospectiva dedicada ao realizador Corneliu Porumboiu, um dos maiores nomes da chamada Primavera Romena. Diretor de "La Gomera" (2019), "O Tesouro" (2015) e "Polícia, Adjetivo" (2009), o cineasta de 51 anos tornou-se referência internacional pela combinação de humor seco, observação política e rigor formal.