Um grito de permanência preso no gogó

Por por Rodrigo Fonseca

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Inveja sempre foi a palavra que sedimentou as dramaturgias (nem sempre palatáveis) de "Toy Story", franquia que nasceu em 1995 com o projeto de tornar a computação gráfica um veio de formação de olhar (e de sentimentos) para crianças (inclusive as grandes, de 18 para cima) que viam um milênio terminar, num ctrl alt del prospectivo. Kevin Costner de borracha, o xerife Woody, a quem Marco Ribeiro empresta a voz há 31 anos, odiou Buzz Lightyear, de cara, pelo fato de sua encouraçada estrutura de argonauta estelar ter roubado o coração de seu dono, o menino Andy.

Entre quiproquós, os dois escavaram uma trincheira de trégua e ficaram amigos. Mas a fortuna que o longa-metragem original gerou, ao arrecadar US$ 406 milhões, criou uma necessidade indústria de novas almas invejosas, culminando com a mais vil delas, o urso roxo Lotso, máquina de gerar abandonos apresentado no terceiro e mais bem-sucedido (ainda que seja o mais nocivo) filme da saga. Lotso estetizou uma ideia que permeia toda a franquia: para fazer a sociedade avançar é necessário saber perder, engolir a derrota como parte do processo de amadurecimento e dar às mãos a certeza de que vivências são passageiras. Mais neoliberal, impossível!

Daí o enriquecimento da Pixar, que, numa dada altura, passou a tratar os roteiros de suas produções como divãs em forma de scripts, fabricando sessões de análise animadas. O apagamento do Amigo Imaginário em "Divertida Mente" (2015), um dos campeões de receita do estúdio, é uma das sequências mais violentas que o cinema já viu. Porém... em nome do verbo "crescer", qualquer brutalidade com o carimbo de Mickey Mouse se faz válida. E assim uma das maiores sinergias do mercado animado, entre a Disney e a produtora/estúdio do hoje proscrito John Lasseter se fez gigante.... disfarçando (ou melhor, normalizando) traumas. Só que o quinto capítulo de sua mais popular criação veio vacinada.

Estima-se que os quatro longas anteriores arrecadaram cerca de US$ 3 bilhões, mesmo sem arranharem o nível de adrenalina... e doçura... do novo filme, cuja direção conta com a grife de Andrew Stanton. São dele as minas do tesouro "Procurando Nemo" (2003) e "WALL-E" (2008). Ele volta numa realização em duo com McKenna Harris, cineasta por trás do curta "Oi, Alberto" (2021). Numa metáfora em sinal de alerta sobre IA, o roteiro rodado pelos dois voltar a evocar o ato de invejar. O invejado da hora é Lilypad, um tablet inteligente (interpretado por Greta Lee e dublado por Maísa Silva) que passa a monopolizar o interesse da menininha Bonnie, colocando em xeque a relevância dos brinquedos físicos na vida infantil. Não por acaso, o slogan adotado pela Pixar para "vender" o projeto se resume à frase: "Toy Meets Tech ("Brinquedo encontra tecnologia").

No gogó de Julia Paciello, Bonnie desenvolve uma ligação intensa com o dispositivo eletrônico, descartando suas e seus camaradas de plástico ou de pelúcia, num momento em que a boneca cowgirl Jessie (agigantada na majestosa dublagem de Mabel Cezar) assume posição central no quarto da menina, como líder da brinquedoteca ali presente. Depois que Woody sumiu de casa e casou, resgatando bonecas e bichinhos quebrados, sua antiga parceira assumiu o comando. O coração dela é o primeiro a quebrar, ao se ver sucateada em prol de Lilypad.

Atual apresentador do Oscar, Conan O'Brien interpreta uma das figuras que mais e melhor vão ajudar Jessie nessa trama sobre rejeições e recomeços: o Amigo Rolinho, geringonça digital que ajuda gente miúda a domar seu intestino depois do desfraldar. No Brasil, a brilhante escalação de Rafael Infante para dublá-lo abre a porta dos fundos (e da frente) da inteligência, numa dramédia que celebra - pela primeira vez no desenrolar da franquia - a ideia de laços que não se rompem.

A permanência é um elemento novo para uma Pixar que se põe a prova numa direção de arte de colorido carnavalesco (mais do que acertado), mudando a forma do traço para uma linha menos tecnológica nas sequências de delírios.

Na cena da dublagem, vale (sempre) menção ao que Guilherme Briggs é capaz de fazer com as CNTPS da garganta humana ao encarnar Buzz, agora enamorado. E a paixão dele por Jessie se desenrola sem as travas moralistas castradoras que a Disney herdou da gangue woke, gerando excrementos éticos como o "Branca de Neve" (2025) com Gal Gadot.