Resiliência autoral

Herdeiro dos titãs da Itália dos anos 1940, 50 e 60, Marco Tullio Giordana volta às telas do Brasil com o drama familiar 'A Vida À Parte', criado sob a bênção de Marco Bellocchio

Por

Marco Tullio Giordana

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Custa cada vez mais a aparecer um filme italiano (sobretudo um bom) no circuito brasileiro, em meio à recessão que prejudica a rotina de artesões como o realizador milanês Marco Tullio Giordana, hoje com 75 anos. Enquanto buscava os primeiros holofotes de uma carreira mundialmente premiada, no início da década de 1980, o diretor viu o cinema de sua pátria - um país que gerou Rossellini, Fellini, Antonioni, Lina Wertmüller, Dario Argento e mais uma tonelada de titãs da direção - entrar numa entressafra audiovisual. As ideias estavam lá. Já os meios de produção (sobretudo o dinheiro) começaram escassear, indo para a TV, deixando cineastas míticos de outrora em apuros.

Ainda assim, o ganhador do Leopardo de Ouro de Locarno de 1980 por "Maledetti Vi Amerò" (conhecido como "To Love the Damned") não foi abalado por crises e seguiu filmando. Sua trajetória de quase 45 anos de arte justifica sua presença em nossas salas de projeção, para onde retorna, a partir de quinta, com "A Vida À Parte" ("La Vita Accanto"), seu mais recente exercício criativo, finalizado em 2024.

"A Itália construiu sua relevância nas telas por filmes que não se submetiam a fórmulas, sem se render aos algoritmos, que reinam nos tempos de hoje. O algoritmo é o contrário da poesia, pois quando percebemos as fórmulas, a essência se perde", disse Giordana ao Correio da Manhã, via Zoom. "Hoje, eu vejo o público do audiovisual preso em soluções formulaicas, confinado a uma ideia estúpida de controle. O futuro do cinema só será viável quando o olhar de quem dirige se libertar de convenções".

Fã do Brasil, Giordana tem em seu currículo cults como "Os Cem Passos" (Melhor Roteiro no Festival de Veneza em 2000) e o épico "O Melhor da Juventude" (Prêmio de Júri Popular no Festival de Roterdã de 2004). Há dois anos, visitou Locarno para receber uma láurea honorária pelo conjunto de sua obra. Lançou "A Vida À Parte" por lá. Agora, almeja conhecer a reação da cinefilia do Rio e de SP (depois dos demais estados desta nação) diante de uma trama familiar de perdas e de reinvenções.

"É um filme sobre quatro solidões que correm em paralelo, presas numa armadilha afetiva da qual não se pode fugir", explica Giordana. "O código de sangue que as une parece ampliar as angústias daquela redoma sentimental onde estão confinadas. A escolha de ter personagens gêmeos me dá a chance de ampliar o tema da cumplicidade dentro de uma narrativa sobre pessoas que buscam uma conexão. Aprendi com o cinema de Luchino Visconti, e seus filmes magníficos, a contar o máximo possível sobre a condição humana ao me centrar na cumplicidade".

Na base de "A Vida À Parte" há um roteiro assinado pelo aclamado diretor Marco Bellocchio, de "O Sequestro do Papa" (2023) e "Vincere" (2009). A trama que encantou os olhos de Locarno narra a dor de uma jovem rejeitada pela mãe ao nascer com uma marca de nascença que se transforma numa pianista ao seguir os passos de sua tia musicista.

"Esse projeto nasce de um romance de Mariapia Veladiano e Bellocchio queria filmá-lo há muito tempo. Ele chegou a fazer uma versão do roteiro, tentou rodá-la, mas acabou desistindo. Quando ele me mostrou o script, eu gostei muito do que li e ele se propôs a me produzir. Na ocasião, ele falou: 'Meta a mão no que escrevi e faça do seu jeito, siga o seu próprio caminho'. Quando vi o filme em Locarno, percebi que fiz algo completamente diferente do que ele fazia", diz Giordana. "A experiência de ser produzido por um artista, sobretudo alguém do porte de Bellocchio, é algo singular, por que você sente estar trabalhando com alguém que pensa na arte em primeiro plano e, não, no orçamento, nas contas".

Bellocchio inspirou faz pouco o longa mais recente do cearense Karim Aïnouz, exibido na briga pelo Urso de Ouro da Berlinale: "Rosebush Pruning", com Elle Fanning e Callum Turner.