O visionário (exagerado) do BRock

Rodrigo Pinto costura documentário e ficção e até IA para apresentar a trajetória do jornalista, produtor e compositor que descobriu Cazuza e o Barão Vermelho

Por

Affonso Nunes

Oque seria do rock brasileiro sem Ezequiel Neves (1935-2010)? O jornalista que escrevia sobre rock quando pouca gente na imprensa brasileira se importava com o gênero foi um dos personagens mais controversos da música brasileira. Foi o produtor que descobriu Cazuza e o Barão Vermelho, e letrista de sucessos como "Exagerado". Sua trajetória repleta de histórias vira tema de um filme que não é bem documentário nem bem ficção: "Ninguém Pode Provar Nada - A Inacreditável História de Ezequiel Neves", dirigido por Rodrigo Pinto.

Essa docuficção chega a São Paulo para sua estreia nacional no 18º In-Edit Brasil, festival internacional dedicado a documentários musicais, que ocorre de 17 a 28 de junho. A obra participa da competição nacional e terá três exibições na capital paulista. A primeira acontece no dia 21 de junho, às 15h, na sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, com debate posterior envolvendo diretor e equipe. No dia 27, o filme passa no Cinesesc, às 18h. A terceira sessão ocorre no dia 28 de junho, às 19h30min, na sala Paulo Emilio do Centro Cultural São Paulo.

A escolha por uma linguagem híbrida — no meio do caminho entre documentário e ficção - é para o próprio diretor um retrato da própria natureza de Ezequiel. Nascido em Belo Horizonte em 1935, ele começou como intelectual atuante no teatro e nos bares da cidade nos anos 1960, depois migrou para o cinema underground carioca como ator. Mas foi na imprensa que deixou marca: durante quase duas décadas, trabalhou em veículos tradicionais e alternativos como crítico de música, sendo pioneiro ao escrever sobre rock em um Brasil que ainda não reconhecia o gênero como expressão artística legítima.

Nos anos 1980, Neves transitou para a produção musical. Na gravadora Som Livre, foi responsável por lançar o Barão Vermelho e por orientar Cazuza quando o vocalista saiu em carreira solo. Junto com Cazuza, assinou composições que se tornaram clássicos do rock nacional: "Exagerado" e "Codinome Beija-Flor" figuram entre suas criações mais conhecidas. Sua influência na formação desses artistas é reconhecida até hoje.

O longa mergulha em um acervo vasto para costurar as histórias do personagem. O diretor utilizou mais de 150 horas de entrevistas inéditas — 60 delas apenas com o próprio Neves —, além de fotografias, vídeos e documentos de arquivo. O diretor decidiu incluir entrevistas recriadas por inteligência artificial, trechos de filmes que foram inventados mas deveriam ter existido, e arquivos falsos. "Ezequiel era controverso e um inventor de histórias", explica o diretor. "Um modelo padrão como obra ficcional ou documentário não funcionariam para ele, porque Ezequiel podia ser tudo, menos padrão."

O carioca Rodrigo Pinto já havia explorou a vida de músicos brasileiros em trabalhos anteriores. Dirigiu o documentário "Continuação" (2009), sobre o compositor Lenine, e criou séries como "Minha Loja de Discos" (com quarta temporada prevista para 2027), "Londres Assim" (2012), "Sons Urbanos" (2015), além de "Barão 40" e "Samba Nave-Mãe", ambas lançadas na plataforma Globoplay.

A produção é assinada pela Giros Filmes e Ton Ton Filmes, com Belisário Franca, Bianca Lenti, Maurício Magalhães e Rodrigo Pinto na função de produtores. O filme já passou pelo 27º Festival do Rio em 2025 e tem estreia no circuito comercial e em plataformas de streaming prevista para os próximos meses. Sua participação no In-Edit Brasil marca um passo importante na circulação de uma obra que desafia as categorias convencionais de documentário e ficção — exatamente como seu personagem desafiou as categorias convencionais da música brasileira.