O filme que não estava (nem está) lá

Cinco anos depois de sua consagradora passagem pela Berlinale, 'Albatros' sumiu do rastro das plataformas e desaparece da web, resumindo a um trailer e a memória de quem viu

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

IIgnorado pelo circuito exibidor brasileiro, apesar das críticas elogiosas colhidas em Berlim, em meio à pandemia, "Albatros" (em português, "Albatroz", como a ave do qual tira seu título) não teve nem chance no mercado digital. Desapareceu das plataformas, apesar de ser uma joia do cinema francês recente.

Passou-se um bocado desde a Berlinale 2021, mas a capital alemã não se recupera desse título que ainda reverbera por suas esquinas. Ninguém entendeu como o júri do evento germânico deixou sair sem láureas um filme tão possante, que nos devasta por sua discussão sobre o peso da culpa e importância da catarse como expiação do remorso. Um filme que vendeu 90 mil ingressos em um mês em uma friíssima temporada de vacas magras para o cinema francês, dirigido e escrito por Xavier Beauvois, mesmo cineasta que, em 2010, deslumbrou o mundo com "Deuses e Homens". Seu chamariz é a potência em estado pleno de um ator em estado de graça: Jérémie Renier.

À época em que Beauvois exibiu o longa na disputa pelo Urso dourado, em março passado, a revista portuguesa C7nema escreveu assim: "Existem atores que nos ganham pelo carisma (Gérard Philipe, David Niven, Bill Murray), atores que nos seduzem pelo ativismo político (Yves Montand, Danny Glover) e existem aqueles que nos imantam pelo puro talento (Daniel Day-Lewis, Tony Leung, Denzel Washington, Milton Gonçalves). Mas há uma quarta categoria: a dos atores essenciais. Profissionais que misturando carisma, talento e um certo grau de mobilização política tornam-se símbolos de seu tempo, metonímias vivas do modo como vivemos um certo período da História. Jérémie é um deles".

Hoje com 45 anos, Renier passou pelo Brasil em 2018 para lançar os filmes "O Amante Duplo" (do mesmo François Ozon que abriu esta Berlinale, ontem, com "Peter von Kant") e "Carnívoras" (que dirigiu com seu irmão, Yannick). Em "Albatros", o muso dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, com quem fez pérolas como "A Criança" (Palma de Ouro de 2005), vive Laurent, um policial acostumado à rotina tranquila da Normandia, numa zona portuária. É de secar a garganta a maneira como a câmera de Beauvois, modulada pela fotografia de Julien Hirsch (de "Lady Chatterley" e de "O Exercício do Poder"), flana pela região e consegue deixar uma sensação de aspereza mesmo nos ambientes mais úmidos, de águas onipresentes.

Durão e eficaz em seu ofício, Laurent mantém uma doce relação com a namorada, Marie (Marie-Julie Maille, em impecável em sua atuação). Eles têm uma filha, mas nunca se casaram. Ele, contudo, sonha com uma festa de casamento, e ela, não, quase numa inversão das representações arquetípicas de gênero. Ele sonha ainda em ganhar o mundo num barco. Mas depois que um incidente em seu trabalho, na tentativa de conter um homem descontrolado, termina em tragédia, o oceano de prosperidade desse doce personagem vira uma torrente de pesadelo e só lhe restam as marés.

Até a tormenta bater, Beauvois é plácido... e crente. Ele não se apressa a entrar em pontos de virada ao lidar com o roteiro escrito com Frédérique Moreau e a própria Marie-Julie. Não é um filme SOBRE um incidente, mas COM um incidente, onde o mais importante é saber quem Laurent era e o que ele vai se tornar. É uma mescla de suspense e drama que estuda um personagem a fundo, apoiado no amplo ferramental de um bom ator.

Beauvois não lança nada desde "La Vallée des Fous", de 2024. Renier hoje filma a minissérie "Eldorado".