A longa vida das sombras

De Sófocles a Andy Garcia, noir continua a iluminar o lado mais obscuro da arte

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Em meio à acertada celebração romena pela Palma de Ouro dada a "Fjord", de Cristian Mungiu, Cannes terminou sua edição n° 79, no dia 23 de maio, sem entender por que "Diamond", um thriller protagonizado e realizado por Andy Garcia, não disputou o prêmio mais cobiçado de seu certame. Nas últimas três semanas, frente à forte procura pelo longa-metragem do astro de "10 Coisas Para Se Fazer Denver Quando Você Estiver Morto" (1995), essa pergunta só fez se expandir. Na saga cheia de metalinguagem de um detetive às voltas com feridas d'alma, Garcia abriu um dos territórios mais fascinantes da história do cinema: o noir. Embora o termo costume ser associado aos policiais americanos dos anos 1940, suas origens são muito mais antigas do que Hollywood. O noir não nasceu como gênero. Nasceu como visão de mundo.

É possível rastrear seus primeiros sinais até as tragédias gregas. Em Sófocles, Ésquilo e Eurípides já estavam presentes personagens esmagados por forças que não compreendiam plenamente, vítimas de paixões destrutivas, erros morais e destinos inevitáveis. Édipo, perseguindo uma verdade que acabará por destruí-lo, possui mais afinidades com os futuros detetives do noir do que muitos investigadores modernos.

A literatura do século XIX aprofundou essa herança. O romance gótico trouxe atmosferas de decadência, medo e fatalidade. Edgar Allan Poe acrescentou o fascínio pelo crime e pela psicologia do criminoso. Mais tarde, autores como Émile Zola e Fiódor Dostoiévski mergulharam em universos onde culpa, obsessão e degradação moral se tornavam motores dramáticos.

Mas o nascimento efetivo do noir moderno ocorreu nas páginas da chamada literatura hard-boiled americana. Durante a Grande Depressão, escritores como Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain abandonaram os mistérios elegantes do romance policial clássico para retratar cidades corrompidas, investigadores desencantados e personagens aprisionados em dilemas morais sem solução. Foi essa matéria-prima literária que alimentou Hollywood.

Ao mesmo tempo, cineastas europeus exilados nos Estados Unidos fugiam do avanço do nazismo. Eles levaram consigo a estética do expressionismo alemão, marcada por sombras duras, contrastes violentos de luz, cenários opressivos e enquadramentos angulados. A fusão entre essa linguagem visual e a literatura policial americana daria origem a obras como "Relíquia Macabra", "Pacto de Sangue", "Laura" e "À Beira do Abismo".

Curiosamente, os realizadores daqueles filmes jamais se definiram como autores de noir. A expressão surgiu apenas em 1946, quando o crítico francês Nino Frank percebeu semelhanças entre diversos thrillers americanos lançados durante a guerra. Inspirado pela coleção literária Série Noire, ele cunhou o termo que atravessaria décadas e fronteiras.

O noir clássico desapareceu no final dos anos 1950, mas sua influência jamais cessou. Surgiu então o neo-noir, capaz de adaptar seus princípios a novas realidades sociais. O fatalismo permaneceu. A ambiguidade moral também. Apenas mudaram os cenários, as tecnologias e os contextos históricos.

Hoje, o noir é uma linguagem global. Na Austrália, "Limbo" (2023), de Ivan Sen, transformou o deserto do país numa paisagem de culpa e exclusão social. Na Índia, "Monica, O My Darling" (2022) reinventou os códigos do gênero através de humor ácido e conspirações corporativas. No Japão, "Missing" (2021), de Shinzo Katayama, incorporou elementos noir a uma investigação marcada pela alienação contemporânea. Já a China produziu um dos exemplos mais celebrados dos últimos anos com "Only the River Flows", de Wei Shujun, policial existencial que mistura mistério criminal e crise psicológica numa atmosfera carregada de melancolia.

As plataformas de streaming também se tornaram abrigo privilegiado para o gênero. A Netflix disponibiliza títulos contemporâneos como "Monica, O My Darling", além de clássicos neo-noir como "Nightcrawler". A MUBI frequentemente acolhe produções asiáticas e europeias do filão. Já serviços como Prime Video e Apple TV alternam entre thrillers policiais recentes e obras históricas que dialogam com a tradição noir. A procura por esse tipo de narrativa permanece constante porque seus temas continuam atuais.

É justamente aí que reside a força do noir. Mais do que um gênero, ele é uma maneira de olhar para o mundo. Um universo onde a verdade nunca é completa, onde as instituições raramente são confiáveis e onde o desejo costuma conduzir à destruição. Das tragédias gregas aos romances policiais, dos becos enfumaçados de Los Angeles às paisagens da China contemporânea, o noir continua a lembrar que as maiores sombras não pertencem à noite. Pertencem à natureza humana. E é por isso que filmes como "Diamond" ainda encontram eco num público que, geração após geração, continua fascinado pelos mistérios da escuridão.