E, de repente, o sucesso
Paul Rudd, super-herói na Marvel, junta-se ao Jonas Brothers Nick para estrelar 'Hit para Dois', comédia de acordes dramáticos e musicais do cultuado diretor irlandês John Carney, que estreia no Brasil
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Confeccionada para se transformar num daqueles cults à inglesa com potencial pop de pegar a "Sessão da Tarde" (tipo "Yesterday" ou "Um Lugar Chamado Notting Hill"), a dramédia "Hit Para Dois" ("Power Ballad") conquistou vagas em festivais de prestígio (SXSW, BAFICI) graças à direção autoralíssima do irlandês John Carney, consagrado há 20 anos com "Apenas Um Sonho" (2006). Música é o seu universo e a lealdade é a sua bossa. Ele volta ao Brasil neste fim de semana e pode lotar multiplexes.
"Eu me sento para escrever no computador e acabo ficando entediado. Então vou para o piano", contou o cineasta ao Correio da Manhã, numa coletiva online, afirmando que teve dificuldade, desde moço, para permanecer muito tempo concentrado numa única tarefa, até ter encontrado um equilíbrio entre composição musical e escrita de roteiros. "É um lugar muito feliz para mim, ir do laptop ao piano e voltar ao laptop. Eu não planejei que fosse assim. Só é".
Cria de Dublin, Carney filma sua pátria com humor irônico, multiplicando pequenas piadas sobre hábitos locais ("nunca vi ninguém na Irlanda recusar bebida", ouve-se, num momento crucial de "Hit Para Dois"). As autocríticas não anulam, o modo como o realizador celebra o seu país em sua nova narrativa, orçada em US$ 10 milhões, e atravessada por uma mirada nada idealizada da América, com passagens por Los Angeles, onde a paternidade surge como instância (analgésica) de amor, embora a condição de ser pai não seja o eixo central do enredo.
Na trama, (o poço de carisma) Paul Rudd é o músico Rick Power, um compositor que sempre sonhou em brilhar nos palcos. Quis o destino que ele se limitasse a ser vocalista de uma banda de casamentos nos confins de uma Irlanda cheia de cerveja nas ideias. Em um dos seus shows, ele conhece Danny Wilson (Nick Jonas, um dos Jonas Brothers), ex-astro pop adolescente que, à sua maneira, agora adulto, também tenta encontrar sua voz enquanto músico solo.
Num encontro inesperado, entre uma birita e outra, Rick apresenta uma de suas composições para o rapaz, acreditando estar diante de um novo amigo. O que ele não esperava era que Danny faria da sua música um hit global, mas, com um grave senão: não deu ao verdadeiro autor nenhum crédito. Rick, então, sai em uma jornada em busca de reconhecimento, sem perceber que pode acabar perdendo tudo o que realmente importa na vida.
Questionado pelo Correio sobre a célebre frase do cineasta Wim Wenders, de que o rock-n-roll salva vidas, Rudd, o Homem-Formiga da Marvel, afirmou que a potência melódica funciona como uma âncora para seu personagem.
"A música, mais do que qualquer outra coisa, tem essa capacidade de nos fazer sentir sãos. Faz a gente se sentir visto. A música nos mantém ligados ao mundo e, ao mesmo tempo, nos permite voar acima dele", diz Rudd. "Quando você está muito triste, ouvir música pode salvá-lo. Não acho que Wim Wenders esteja exagerando. Se alguém como Rick está sentindo algo profundo, a única coisa que ele pode fazer é escrever sobre isso. Transformar aquilo em alguma coisa".
Durante a coletiva, Rudd admitiu que chegou às filmagens cercado de inseguranças por contracenar com músicos profissionais, como Nick Jonas e o próprio Carney.
"Eu gosto de tocar e cantar como qualquer pessoa gosta, mas não sou aquele guitarrista para quem as pessoas pedem para tocar alguma coisa", brincou o astro de "Bem-vindo aos 40" (2012). Ainda assim, afirmou que a convivência com artistas experientes o estimulou. "Estar cercado de músicos de verdade faz você querer corresponder".
Aos 57 anos, preparando-se para voltar a circuito como Homem-Formiga em "Vingadores: Doutor Destino", Rudd também falou sobre a ligação afetiva que mantém com a Irlanda, onde a trama se passa. Frequentador do país desde a juventude por influência do pai (que é um historiador), Rudd descreveu Dublin como um lugar onde a música faz parte da identidade cultural. "Sou fã da música irlandesa, dos pubs, da literatura. Interpretar um músico naquele ambiente foi um papel dos sonhos", explicou o astro, cuja trajetória profissional ganhou vulto há três décadas, ao aparecer em "As Patricinhas de Beverly Hills" (1995).
Visto faz pouco ao lado de Selton Mello na versão 2025 de "Anaconda", Rudd comparou a carreira a um gramado sendo aparado aos poucos. "Você vai cortando um pedaço de cada vez e, quando olha para trás, percebe que aparou um gramado enorme".
Em "Hit Para Dois", essa busca por significado encontra eco na própria essência da história: a canção pop como espaço de criação, consolo e reinvenção. Uma ideia que une o diretor e os seus protagonistas, cada um à sua maneira, numa celebração do poder transformador da arte de tocar e cantar.