Para orgulho de Robert De Niro
Festival criado pelo ator no trauma do 11 de setembro de 2001 contabiliza os achados de sua edição comemorativa de 25 anos, incluindo thriller com Chino Darín e comédia colegial
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Na fase final de suas atividades em 2026, depois de fazer do brasileiro "Funk", de Aly Muritiba, o hit sul-americano de Nova York, premiando suas atrizes (Duda Santos e MC Nem), o Festival de Tribeca começa a contabilizar as joias de sua 25ª edição, na qual as narrativas de gênero (o suspense e o romance) tiveram destaque na triagem de temas sociais. O Chile atropelou a concorrência qual um aríete com "Summer War", de Alicia Scherson, num resgate da América do Sul de 1989.
Na ocasião, o regime de Pinochet está em declínio e o campeão de jogos de guerra de mesa Udo Berger está de férias com a namorada num resort à beira-mar. Quando um amigo desaparece de repente, Udo convida um misterioso habitante local para se juntar a ele numa partida.
A literatura (de prosa com Roberto Bolaño) é o eixo desse ensaio geopolítico tenso. Tensão foi a palavra de Tribeca, como comprovam dois thrillers, de toadas muito distintas, lá aclamados. De um lado aparece o canadense "Labrador - Autopsie du Silence" (sinuoso até a medula) e, do outro, o espanhol "Dante" (visceralmente sangrento). Ambos estrearam mundialmente na maratona criada em 2001 por Robert De Niro e figuram entre os títulos mais comentados da seleção de 2026.
Dirigido, escrito e produzido por Rodrigue Jean, "Labrador - Autopsie du Silence" foi o vencedor da Competição Internacional de Narrativas de Ficção, onde "Funk" ganhou uma láurea especial para suas intérpretes, Duda e MC Nem. Seu protagonista, Alupa Tulugak, mecânico indígena de origem inuíte vivido por Christopher Angatookalook, trabalha num cargueiro no Atlântico Norte. Quando um assassinato a bordo rompe a rotina da embarcação, ele passa a ser o principal suspeito, num indício de racismo institucional. Ao mesmo tempo em que tenta lidar com o luto pela morte do cozinheiro Alex, que era seu amante secreto, Alupa se encontra encurralado por uma investigação policial que expõe tensões ligadas à classe, à sexualidade e à sua conexão com os povos originários daquele quinhão de mundo, onde a língua francesa lhe é imposta. Com sagacidade, Jean discute o tratamento dispensado a populações chamadas de "ameríndias" dentro das estruturas institucionais canadenses. O próprio Tribeca destaca o filme como uma reflexão sobre a colisão entre poder, preconceito e identidade, construída a partir de uma atmosfera contemplativa e assombrada.
Frenético, "Dante", novo longa do espanhol Hugo Ruíz (de "Uma Noche Com Adela"), entrou na micareta cinematográfica de NY na seção Escape From Tribeca, dedicada a produções regadas a sangue. Seu personagem central é Eduardo, um jovem paramédico interpretado por Chino Darín, filho do divo argentino Ricardo Darín.
Convocado para um atendimento aparentemente comum, ele encontra um chefão do crime gravemente ferido e dois homens armados que o obrigam a mantê-lo vivo. A partir desse momento, a narrativa mergulha numa espiral de violência, perseguições e reviravoltas ao longo de uma única noite. Apoiado numa montagem febril, o longa amplia a ousadia visual do diretor, intensificando a brutalidade que ele busca em suas crônicas de costumes (moralmente torpes).
Nesta sexta, Tribeca tem um encontro inusitado com um tipo de comédia (a de humor colegial, à la "Curtindo A Vida Adoidado") como não se faz mais, com a sessão de "Never Change!", de Marty Schousboe. Seus personagens são antigos de escola. Décadas depois de se formarem, uma brecha burocrática descoberta por acaso revela que aquela turma de conclusão do ensino médio da North Meadows High School jamais recebeu oficialmente seus diplomas. Agora, já na casa dos 30 anos, todos são obrigados por lei a voltar ao colégio para concluir os estudos. Antigos romances, segredos enterrados e a humilhação muito particular de ser um adulto plenamente formado dentro de uma instituição dominada por adolescentes explodem na tela.
Entre os achados americanos deste Tribeca, muitos elogios cercaram a atriz Margo Martindale) em seu desempenho como CJ, uma experiente caminhoneira, em "The Long Haul", de David Drake. Trata-se de uma motorista de carretas que passou anos cruzando o sudoeste dos Estados Unidos e construiu cuidadosamente uma vida marcada pelo distanciamento em relação ao seu passado. No entanto, uma carta da Comissão de Liberdade Condicional ameaça derrubar as barreiras que ela levou tanto tempo para erguer. Diante da perspectiva da aposentadoria e de um acerto de contas que evitou durante anos, CJ precisa finalmente encontrar coragem para parar, refletir e encarar o futuro.
Artesã do terror, aplaudida por "A Lenda de Candyman" (2021) e "Extermínio: O Templo dos Ossos" (lançado no início deste ano), Nia DaCosta ampliou seu prestígio como realizadora de verve autoral ao levar para Tribeca uma nova cópia de seu "Passando dos Limites" ("Little Woods"), de 2018. Numa trama ambientada em Dakota do Norte, duas irmãs afastadas uma da outra são levadas ao limite quando a mãe morre, deixando-lhes apenas uma semana para quitar a hipoteca da casa. Tessa Thompson e Lily James são as estrelas.
Tribeca encerra seus trabalhos do domingo.