Um taxímetro que não baixa há 50 anos
Longa-metragem que coroou Martin Scorsese com a Palma de Ouro de Cannes comemora seu cinquentenário no Festival de Tribeca, na mesma frenética Nova York que 'Taxi Driver' radiografou
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Disponível em streaming no Brasil na Prime Video, da Amazon, "Taxi Driver" voltou a ocupar o centro das atenções do cinema mundial no último fim de semana ao ganhar uma exibição comemorativa de seus 50 anos no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, onde uma nova cópia restaurada do clássico de Martin Scorsese foi apresentada ao público. Cinco décadas depois de sua estreia, o longa-metragem que fez de seu realizador um titã continua a ser tratado como uma obra fundamental da arte audiovisual, capaz de atravessar gerações sem perder a força de seu discurso sobre solidão, violência e desintegração social.
A homenagem promovida por Tribeca recolocou em evidência um filme que nasceu de forma modesta, mas acabou transformado num marco da sétima arte. Produzido com um orçamento de cerca de US$ 1,9 milhão, "Taxi Driver" encerrou sua carreira comercial com uma arrecadação de US$ 28,6 milhões, desempenho expressivo para uma produção autoral lançada em meados dos anos 1970. O sucesso consolidou a ascensão de Scorsese e transformou Robert De Niro em um dos rostos mais emblemáticos da chamada Nova Hollywood.
Hoje associada de forma inseparável ao diretor de "Os Bons Companheiros" e "O Irlandês", a produção teve uma origem bem diferente. Quando o roteiro escrito por Paul Schrader chegou às mãos dos produtores Julia e Michael Phillips, a intenção inicial era confiar a direção a Robert Mulligan (1925-2008), realizador de "O Sol é para Todos". Jeff Bridges era o nome mais cotado para viver Travis Bickle, o veterano do Vietnã que passa a trabalhar como taxista nas madrugadas de Nova Iorque e mergulha num processo de radicalização psicológica.
Em determinado momento, Brian De Palma também esteve entre os possíveis candidatos à direção. Mas o impacto provocado por "Caminhos Perigosos", lançado por Scorsese em 1973, alterou completamente o destino do projeto. Os produtores perceberam que aquela história exigia um cineasta mais próximo das inquietações de uma geração que começava a romper convenções estéticas e narrativas em Hollywood. A aposta em Scorsese revelou-se decisiva.
Com ele vieram Robert De Niro e Harvey Keitel, que ajudariam a transformar "Taxi Driver" numa das mais contundentes radiografias urbanas já realizadas pelo cinema americano. Na trama, Travis Bickle regressa da guerra incapaz de se readaptar à vida civil. Dirigindo pelas ruas de Manhattan durante a madrugada, ele observa prostitutas, traficantes, cafetões e pequenos criminosos, passando gradualmente a enxergar a cidade como um organismo moralmente contaminado que precisa ser purificado. Era o Cordeiro de Deus a tirar os pecados dos EUA.
Ao ser homenageada no Festival de Marrakech, em dezembro, Jodie Foster que vive a garota de programa que Travis tenta salvar, explicou o que viveu naquele set e na passagem pela seleção competitiva de Cannes: "Não sei se alguém viu o novo documentário do Scorsese da Rebecca Miller, que está na Netflix — é um tesouro. Conta-se muito desse episódio ali. Eles foram todos a Cannes… Marty, De Niro, Harvey Keitel. Ninguém queria levar-me porque não queriam gastar dinheiro comigo. Eu estava a filmar 'Se Eu Fosse Minha Mãe' nessa altura. A minha mãe insistiu: 'É importante. Ela fala francês. Isto é Cannes.' Então pagámos as nossas próprias passagens. Fomos as duas. Estavam todos muito paranoicos em relação à recepção que o filme teria, porque ainda não tinha estreado. Havia muito falatório sobre violência, a possibilidade de levar classificação X. Fizemos a conferência de imprensa juntos. Depois disso, ficaram todos com medo e não saíam dos quartos no Hôtel du Cap. Então acabei por fazer todas as entrevistas em francês por toda a equipe de 'Taxi Driver'. Foi uma experiência inesquecível".
O retrato de Nova Iorque construído pelo filme permanece impressionante. A fotografia de Michael Chapman enfatiza a sujeira, a poluição visual e o ambiente de decadência que marcavam a cidade na década de 1970. Já a trilha sonora composta por Bernard Herrmann, em seu último trabalho antes da morte, mistura melancolia, romantismo e ameaça constante, contribuindo para a sensação de desconforto que acompanha toda a narrativa.
Ao lado de De Niro, o elenco reúne Cybill Shepherd, Harvey Keitel, Peter Boyle, Albert Brooks e uma então desconhecida Jodie Foster, que tinha apenas 13 anos quando interpretou Iris, a adolescente explorada pela prostituição cuja trajetória se cruza com a de Travis. O desempenho da atriz ajudou a consolidar uma carreira que a transformaria numa das figuras mais respeitadas do cinema contemporâneo, coroada com uma Palma de Ouro Honorária em 2021, em Cannes.
O reconhecimento internacional veio rapidamente. Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 1976, "Taxi Driver" conquistou a Palma de Ouro e consolidou o prestígio internacional de Scorsese. Mais tarde, receberia quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, embora tenha saído da cerimônia sem estatuetas. A relação entre Scorsese e os festivais de cinema permanece íntima até hoje. Ao longo de sua carreira, o realizador sempre destacou a importância desses eventos para a formação de sua identidade artística. Em uma conversa pública realizada em Marrakech, ao recordar os anos 1970, ele descreveu o ambiente criativo que cercava sua geração. "Era uma época em que sabíamos onde estava cada objeto de uma cena filmada por diretores como Raoul Walsh, a quem eu idolatrava e ainda idolatro. Era uma geografia de set", afirmou.
Na mesma ocasião, o cineasta explicou que o surgimento de "Taxi Driver" ocorreu num período em que o cinema americano ainda permitia experiências radicais. "Era um tempo de risco", resumiu. A frase ajuda a compreender a natureza do filme, que desafiava convenções narrativas e apostava num protagonista profundamente perturbado, distante dos heróis tradicionais de Hollywood.
Ao exibir "Oh, Canadá!" em competição em Cannes, em 2024, Paul Schrader afirmou que, depois de uma crise de conteúdo, o cinema americano entrou num período de reinvenção que permitiu o aparecimento de personagens mais contraditórios e moralmente ambíguos. Travis Bickle tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa transformação.
"Aquela era uma época em que nós queríamos, sim, mudar o cinema e sabíamos disso", explicou o roteirista e cineasta
Durante a seção de sabatina chamada Tribeca Talk, realizada após a exibição comemorativa deste fim de semana, a permanência da atualidade do filme foi um dos temas centrais da conversa. Os participantes destacaram que a obra continua a provocar impacto porque retrata um indivíduo incapaz de encontrar pertencimento social, transformando isolamento e ressentimento em obsessão. Também foi ressaltado que a Nova Iorque retratada por Scorsese já não existe fisicamente, mas continua viva como símbolo de tensões urbanas que permanecem reconhecíveis em diferentes partes do mundo.
Poucos filmes deixaram marcas tão profundas na cultura popular. A sequência diante do espelho, em que Travis ensaia um confronto imaginário repetindo a frase "You talkin' to me?", tornou-se uma das cenas mais citadas e parodiadas da história do cinema. Sua influência pode ser identificada em dezenas de obras posteriores, de thrillers psicológicos a dramas urbanos produzidos em diferentes países.
No Brasil, "Taxi Driver" também construiu uma trajetória particular. Em crítica publicada em outubro de 1976, o lendário Bonequinho de O Globo, o lendário professor da PUC-RJ Miguel Pereira, definiu o filme como "uma reflexão sobre os caminhos do homem urbano, com uma narrativa dinâmica, envolvente e nervosa". Décadas depois, a análise continua pertinente diante da capacidade da obra de dialogar com questões sociais contemporâneas.
Entre restaurações, redescobertas e homenagens, "Taxi Driver" segue a desafiar o tempo. A sessão de Tribeca não celebrou apenas um clássico restaurado, mas uma obra que continua a ser revisitada por novas gerações em busca de respostas para perguntas que o cinema ainda não conseguiu superar. Ao revisitar Travis Bickle, o público reencontra um personagem desconfortável, fascinante e profundamente humano.
Uma das projeções mais aguardadas da reta final do Festival de Tribeca será a celebração dos 30 anos de "The Cable Guy" (1996), conhecido em Portugal como "O Melga" e no Brasil como "O Pentelho". A comédia de tons sombrios realizada por Ben Stiller regressa ao grande ecrã este sábado, no Teatro SVA, em Nova Iorque, numa nova cópia restaurada em 4K, cuja estreia mundial foi preparada especialmente para a ocasião. A sessão será seguida de uma conversa com o realizador Ben Stiller e o ator Matthew Broderick, protagonista do filme ao lado de Jim Carrey. O encontro terá moderação de Leah Wyar, presidente da People, Inc.
Até sexta-feira serão conhecidos os filmes vencedores de Tribeca, onde o Brasil concorre com o longa "Funk", de Aly Muritiba.