'O Funk tá cheio de gente que, de dia, faz seus corres pra na noite poder viver sua arte'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Dois meses depois de entregar o belíssimo "Barba Ensopada de Sangue" ao circuito exibidor de todo o país, Aly Muritiba vai busca o aplauso do Festival de Tribeca (em sua edição de 25 anos), em Nova York, expandindo em âmbito mundial a ocupação de tela (e a consagração) do cinema brasileiro com o que periga ser melhor filme: "Funk". Mais do que respaldada por seu êxito na TV, a atriz Duda Santos explode agora em telas dos EUA, num longa-metragem que une grifes como a de Heitor Dhalia e Manoel Rangel na produção, no papel da MC Sabrina. No Morro dos Prazeres, ela peita todo o sexismo que existe dentro e fora dos bailes para se firmar como nova ave canora funkeira, ainda que sua mãe, Priscilla (vivida por MC Nem) lhe sirva como âncora, no modo afetivo e na vida profissional, numa relação tensa. No papo a seguir, o diretor de cults como "Para Minha Amada Morta" (2015) e "Deserto Particular" (2021), explica o Rio do longa.
Existe na saga de Sabrina com a rota de autoafirmação no gogó do "funk putaria" uma linha narrativa que poderia se estender a sagas de superação do pobre contra o mundo, de "Rocky, Um Lutador" (1976) a "The Last Showgirl" (2024), passando por "8 Mile - A Rua das Ilusões" (2002). O quanto você reconhece dessa genealogia cinéfila? O quanto Sabrina se articula na linhagem do "heroísmo do rendimento", tradição de personagens que driblam a pobreza com a sua destreza?
Aly Muritiba - Se pensarmos nos personagens vividos por Stallone em "Rocky" e Eminem em "8 Mile", a gente logo identifica sujeitos ordinários, mas com um talento muito específico que os torna extraordinários. Esses personagens se agarram nesse talento e usam-no para enfrentar uma realidade dura. São personagens de certo modo vira-lata (os norte-americanos têm toda uma tradição de protagonistas underdogs), meio autodestrutivos, carregando uma certa revolta, e tudo isso é combustível para que eles superem as dificuldades que vão aparecendo. E tudo que descrevo acima pode ser aplicado à figura de Sabrina. Uma coisa que me fascina nessa personagem da Duda Santos é que ela pode ser a moça que te atendeu no balcão de um bar ao meio dia, alguém em que você talvez nem tenha prestado atenção, uma dessas trabalhadoras invisibilizadas, mas que quando pega o microfone e solta sua rima, transforma-se numa baita artista, dessas que te faz se perguntar "de onde saiu esse talento todo?". O Funk tá cheio de gente assim. Gente que de dia trabalha, faz seus corres, pra na noite poder viver sua arte.
De que maneira o funk marca a tua vida? Há intimidade com esse universo melódico?
Talvez soe estranho vindo de um baiano que morou tanto tempo em Curitiba, mas a verdade é que eu amo Funk, Rap e Trap. São gêneros musicais que não saem da minha playlist. Mas só fui me aproximar desses gêneros nos anos 2000. Primeiro pelo Rap, que me levou ao Trap, que me levou ao Funk. Eu sou um sujeito extremamente musical. Tudo que faço, faço ouvindo música. A Fernanda, minha companheira, diz que eu sou um Spotify ambulante com botão random ligado o tempo todo. E Funk eu ouço pra correr e malhar. É o ritmo que me energiza, sabe?
De que forma (realista) o teu "Funk" pode ser visto (também) como um musical?
Gosto de pensar no meu filme com um drama musical, sim. O filme é repleto de músicas, muitas delas comentando a cena. Tem vários números de dança também, então, sim, gosto de pensar que fiz um musical. Mas também gosto de pensá-lo como um anti-favela movie, porque fiz um filme que, ao invés de mostrar o povo favelado sofrendo, matando e morrendo, fiz um filme em que os vemos dançando, gozando, vivendo.
E como se deu a colaboração de Duda Santos e MC Nem na consolidação da dramaturgia, para além do que trazem na condição de atrizes?
Foi uma coisa muito linda colocar essas duas mulheres tão talentosas para colaborar. Tanto Nem, quanto Duda vem do universo periférico. Ambas nasceram e cresceram em comunidades cariocas, mas em décadas diferentes. Duas mulheres negras que enxergaram na arte a sua maneira de ser no mundo. Uma enveredou pelo mundo da música, a outra para a atuação. E aí, quando as duas se encontraram, foi um processo muito bonito, com a Nem ensinando a Duda as manhãs do Funk, e a Duda auxiliando a Nem na atuação. Foram dois meses de preparação para que enfim Sabrina e Priscila pudessem existir no mundo.
Como você e o diretor de fotografia Inti Briones captaram a vibe dos bailes?
A gente foi pros bailes. Foi um exercício de observação, imersão. A gente queria muito que o filme soasse como um baile funk. Mas que fosse um baile funk real. Nosso desejo era que a massa funkeira visse o filme e dissesse "porra, é assim mesmo". Para isso a gente teve que ir para os bailes. Desse exercício de observação nasceu a linguagem do filme, que vai do registro documental ao videoclipe numa mesma sequência.
O que a geografia do Morro dos Prazeres dá ao filme?
Se pensarmos nas imagens que se produz sobre o Rio de Janeiro, notaremos que a maioria deles tem um ponto de vista que parte do asfalto para o morro. Quantas imagens aéreas a gente vê cotidianamente começando na Zona Sul carioca e chegando à alguma favela? Inúmeras, não é? Nessas imagens o morro é, comumente, pano de fundo. Eu fiz exatamente o oposto. Por que meu filme é do morro pro asfalto. Por isso eu escolhi os pontos mais altos do Prazeres, que tem umas das vistas mais lindas do Rio, para filmar, colocando o espectador no lugar do morador do morro. No ponto de vista do trabalhador, da trabalhadora que acorda e vai dormir com aquela vista todos os dias.
Na sua topografia tipográfica de modos de se viver num país de selvagerias, que vai de "A Gente" (2013) ao recém-lançado "Barba Ensopada de Sangue", que espaço heroico (ou anti-heroico) a Sabrina de Duda Santos ocupa? Pós Tribeca, para onde vai com o filme?
Sabrina é uma força. Uma potência. Uma mulher negra que abre caminhos, que não se rende, que não arrega, que não "deita" pra ninguém. Ela representa inúmeras mulheres periféricas brasileiras que lutam e vencem. Nesse sentido, ela é uma espécie de heroína.